Buscando trazer um novo público para a amada Mooca, o Disjuntor abre suas portas para quem busca uma nova opção de artes, música, comes e bebes

De fora, a fama do local é de ser um bairro de imigrantes italianos, descendentes daqueles que deixaram a Europa no final do século XIX para trabalhar na indústria têxtil. Imagina-se então pessoas que gesticulam e falam alto em carregado sotaque ítalo-paulistano pelas ruas e pelas diversas cantinas da região. Tudo isso se passou em uma época não muito distante, porém a realidade da Mooca hoje é bem diferente.

No lugar das vilas de casas baixas ocupadas pelas famílias dos operários das antigas fábricas, hoje se encontram alguns condomínios de inumeráveis torres. Os antigos comércios de comida italiana hoje dividem espaço com estabelecimentos que oferecem gastronomia do mundo todo: do México ao Japão. E ainda que seja forte influência europeia, a região hoje é ocupada por gente de diferentes pontos do Brasil e do mundo.

Mesmo estando distante apenas sete quilômetros do centro de São Paulo e presa ainda a impressões do seu passado, muita gente ainda não sabe das mudanças pelo qual o bairro vem passando. Uma das novidades que buscam atrair a atenção do resto da cidade para o início da Zona Leste é o espaço Disjuntor, que reúne artes plásticas, fotografia, música, gastronomia e qualquer outra experimentação artística que seja possível abrigar.

Quem chega ao número 1.747 da Rua da Mooca, na esquina com a Rua Sacramento Blake, encontra sempre as portas abertas. O prédio de paredes escuras e grandes janelas é convidativo e se difere dos outros imóveis do local. Lá é possível fazer várias coisas. Seja tomar um café, ver uma exposição fotográfica, ouvir um som experimental feito na hora ou comprar uma bike low-rider customizada.

O Disjuntor tem a proposta de ser um percursor, na tentativa de retirar o mercado da arte e do entretenimento do eixo Centro-Zona Oeste e fomentar a cena cultural que vem crescendo no Distrito da Mooca. O low rider Tatá Vida Real e o casal Mônica e Mozart Fernandes estão encabeçando esse movimento que pede um novo olhar sobre uma região tão perto e tão estranha para uma parte dos paulistanos.

Desbravadores da Zona Leste

Mônica faz de tudo um pouco. Já trabalhou com produção de cinema, fotografia, cenografia e até serviço social. Mozart é artista plástico, ilustrador e já riscou algumas pessoas ao redor do mundo. Há dois anos o casal foi convidado a dar uma nova cara a tradicional Pizza da Mooca e foi aí que começaram a ter maior contato com o bairro.

“Eu, particularmente, achava a Mooca um lugar longe pra caralho quando cheguei em São Paulo. Quando a gente começou a vir pra cá, por conta do trabalho, essa distância foi diminuindo e passei a ter outra percepção da cidade. O Felipe Zanuto, da Pizza da Mooca, nos indicou para o Tatá que também queria reformar o restaurante dele. E depois disso ele nos falou desse sonho que é ver a Mooca como um bairro revitalizado”, conta a recifense Mônica, que deixou a sua cidade natal há 20 anos para morar em São Paulo.

Defendendo a ideia de que não existe revitalização de espaços sem a arte, o trio reuniu referências e sonhos para deixar o projeto do Disjuntor mais perto de uma concretização. Mozart e Mônica já tinham o know-how da Vértice Casa, loja de artes que tocaram durante um tempo, em Pinheiros. Levaram muitos dos conceitos do antigo empreendimento para o galpão da Zona Leste.

“Nosso objetivo é que as pessoas aqui da Mooca não precisem atravessar a ponte para ter contato com esse tipo de expressão artística, ao mesmo tempo que possamos fugir de um circuito que já está saturado e que faça as pessoas circularem mais pela cidade”, revela Mônica, salientando que, assim como ela teve um dia, a impressão das pessoas é que o tradicional bairro paulistano ainda é um lugar muito distante.

O Disjuntor surge como um oásis para quem curte um local agradável de preços justos e de programação diferenciada nas mais diferentes modalidades artísticas que São Paulo pode oferecer.

A nova velha Mooca

Por mais transformações que o bairro passa, parte dos moradores guardam com orgulho as tradições italianas da Mooca. A chegada de um espaço que propõe uma nova forma de consumir arte e olhando para futuro, pode incomodar os mais puritanos. Mais os idealizadores do Disjuntor deixam claro que não querem romper com a beleza tradicional do lugar, mas agregar e dar uma nova opção para as pessoas do local.

“Muita gente da região passa, fica um pouco, observa, mas ainda é um processo de familiarização. Mas tem uma parte muito legal que é parte dessas pessoas parecem ter um sentimento de gratidão pela abertura do lugar. Ainda existe um pouco de receio e até de preconceito, mas quando a pessoa está disposta a conhecer o lugar, geralmente a resposta pra gente é muito boa”, explica Mônica.

Se antes era escuro, estranho e perigoso passar por aquele logradouro após as 21h, hoje a realidade é diferente pela constante movimentação que o espaço promove em quase todos os dias da semana. O casal faz questão de frisar que não está sozinho na intenção de dar a Mooca novas opções de lazer e de ressignificação para o restante da cidade.

“O Cateto chegou antes da gente e tem uma relação parecida com o bairro. Tem o Beatnik, dentro dos vagões antigos da CPTM, tem a Pizza da Mooca, tem o Cadillac. Mas aqui é a Mooca Baixa, onde tem o boteco aqui da frente que eu acho o mais bonito do mundo, ao mesmo tempo tem muita gente preconceituosa que ainda não entendeu como conviver com os diferentes”, detalha Mônica, que junto com Mozart estão de mudança para o bairro.

Aos saudosistas, um aviso: O Disjuntor não quer destruir toda a memória operária e revolucionária do bairro italiano. Esse papel já foi feito por grandes incorporadoras e redes atacadistas. O movimento de revitalização dos espaços da Mooca busca jogar holofotes sobre os lugares da região que por muito tempo foram esquecidos e que agora se abrem para receber as pessoas do bairro e de toda a cidade.


Mozart e Mônica Fernandes são responsáveis pelo espaço Disjuntor

Fotos: Murilo Yamanaka

Produção Executiva: Thiago Bittencourt Gil