De um elemento, surge um movimento que pode mudar o mundo. O Freak Market foi atrás de feras do mercado da moda e da arte para explicar como isso acontece

Se você tem o mínimo de curiosidade na vida, já deve ter se perguntado em algum momento da sua experiência na Terra como nasce uma tendência. Seja na moda, no comportamento ou em outros aspectos da sociedade, essa inclinação e propensão coletivas para fluir, entender, seguir (ou mesmo contrapor) o que está no ar é uma parte do que nos torna humanos.

Duvida? Pare e pense como tudo ao seu redor influencia sua maneira de viver. Tem aquele amigo indicou a série do momento, um bar cheio de gente legal, uma pessoa cuja atitude é admirável, aquele filme que sobre o qual todo mundo está comentando, ou mesmo os memes que você ver circular na internet – “manda nudes”, “brusinha”, “Luísa que está no Canadá” e por aí vai.

À primeira vista pode soar fútil, mas tendência é um assunto tão sério que uma multiplicidade de profissões se dedica, constantemente, a estudar o tema (coolhunters, trendsetters, marqueteiros, antropólogos, monitores de métricas em redes sociais e muitos outros trabalhadores).

A cena clássica de "O Diabo Veste Prada", em que Miranda Priesly dá aquela escrachada na Andy

A cena clássica de “O Diabo Veste Prada“, em que Miranda Priesly
dá aquela escrachada na Andy por ela rir das sutilezas da moda

Mas, afinal, como surge uma tendência?

O estilista Marcelo Sommer explicou ao Freak Market que, entre os anos 70 e 80, as tendências eram definidas pelas passarelas. “Eram os estilistas que ditavam o que seria moda. No final dos anos 90, essa história começou a mudar pela chegada globalização e da internet. A tendência passou a ser ditada pela moda urbana, pelo streetwear. Os estilistas pararam de olhar ateliês e começaram a observar o que estava acontecendo nas ruas.”

Muita coisa mudou de lá para cá, e não apenas na moda. O que acontece nas quebradas virou um barômetro para indicar o futuro. Pode-se dizer, hoje, que as tendências são respostas a algum comportamento da sociedade. “Comportamento esse que é fruto de algo maior, mais amplo, um acontecimento importante no contexto social, econômico, cultural ou natural”, diz Carol Althaller, analista cultural que já ministrou cursos na Perestroika sobre o tema.

A editora e analista de moda Vivian Whiteman segmenta o assunto na porção objetiva – matérias-primas disponíveis, tipos de tecnologia de tecidos, mercados que estão em alta – e na pesquisa humana. “O que as pessoas querem, o que estão comendo, ouvindo, com o que elas estão preocupadas no momento, quais são os desafios atuais, o que elas estão fazendo com a tecnologia social no dia a dia.” A partir daí, segundo ela, existe uma espécie de brainstorming nos bureaus de tendência em conjunto com a indústria. “Desse ‘espírito do tempo’, os especialistas filtram um caldo de dados e informações. E disso começam a sair tendências específicas: cores, formatos, imagens, tudo o que vai criar o corpo da tendência.”

Tudo uma questão de zeitgeist (palavra alemã que significa o tal “espírito do tempo”), segundo Fabiano Carvalho, pesquisador de inovação criativa da agência Africa. “Identificamos uma tendência quando percebemos que ela já está disseminada em diferentes áreas ao mesmo tempo, como moda, arte, arquitetura, publicidade, cinema, fotografia, etc. As informações se cruzam em interpretações particulares e o nosso acompanhamento constante nos faz com que percebamos essa evolução e possamos prever possíveis caminhos que podem ser percorridos”, diz ele.

Tudo o que rola nas ruas dita as tendências hoje - inclusive o streetwear

Tudo o que rola nas ruas dita as tendências hoje – inclusive o streetwear

Passado, presente tendência e futuro

Os elementos estão todos no ar – mas é preciso dar um passo para trás a fim de saltar mais adiante. “A história da arte e da cultura nos indica que quase tudo já foi criado e que a grande batalha é perceber essas alterações sutis – a novidade pode estar na reinterpretação e fusão de coisas do passado”, observa Fabiano Carvalho.

Nesse sentido, Marcelo Sommer lembra que o inconsciente coletivo desempenha um papel antes da tendência.

O conceito de inconsciente coletivo foi cunhado pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung como uma herança de lembranças, sentimentos e pensamentos compartilhados por toda a humanidade. Essas características vêm dos nossos ancestrais, um verdadeiro depósito mental de símbolos, imagens e mitos passados de geração para geração, tal qual os nossos cromossomos. Na moda, por exemplo, isso fica mais claro quando Marc Jacobs faz uma coleção que aparece no Brasil simultaneamente.

“O inconsciente coletivo é um passo anterior à tendência, que nada mais é do que uma confirmação daquele desejo comum”, esclarece o estilista.

Aliado a isso, entender tendências também é ter empatia, se colocar no lugar do outro para compreender o que está pegando ao redor. “Precisamos nos conectar com os agentes do nosso tempo, entender como pensam, o que querem, sonham, desejam e então traçar caminhos possíveis para o que vai acontecer lá na frente.  Esse trabalho é feito a partir da observação de sinais da nossa cultura”, analisa Carol Althaller.

Certo. E como fazer isso? “Eu aconselho que as pessoas façam primeiro uma busca mais ‘freestyle’, tentem olhar para o mundo, para os amigos, sem se prender tanto aos rótulos das tendências. Se a pessoa conseguir uma certa conexão com o que vive todos os dias, vai conseguir antecipar várias tendências. Lembrando que tendência não é só de roupa: é de comida, de onde estudar, de política. Nosso mundo é viciado em prever o próximo passo”, vaticina Vivian Whiteman.

São algumas técnicas que tornam perceptível o que importa de verdade para as pessoas. “É como uma marca que percebe que as suas clientes agora andam mais de bicicleta e skate e usa essa informação para ajudar a equipe de estilo a desenvolver peças que estejam de acordo com esse novo lifestyle (que tenham mais liberdade de movimentos, ou tecidos que amassem menos, por exemplo). É essa a grande revolução da moda e em outros negócios: buscar inspiração nas pessoas reais, aquelas que consomem a sua marca de verdade e não (só) naquele ideal inspirado em recortes de revista ou prints de blogs de moda”, diz Fabiano Carvalho.

Parece óbvio – mas não é. “Há muitos níveis de tendência, é um mundo muito rico porque nele circula o ‘sangue’ da rua, do dia a dia, é uma imitação da vida, uma tentativa de mapeá-la e muitas vezes de tentar controlá-la”, afirma Vivian Whiteman.

O mais legal é que tudo isso vai além do consumo cultural. Um estudo da Universidade de Stanford analisou algoritmicamente o Google Trends durante uma fatia de tempo e concluiu que a ferramenta pode profetizar as tendências de mundiais de turismo. Existem muitos outros trabalhos científicos mostrando que a interação humana com a tecnologia pode dar indicativos para o futuro.

Tendências podem estar nas coisas mais simples da vida, numa exposição ou num mural de arte urbana, por exemplo. Ou mesmo em um filme irado do Netflix, numa experiência gastronômica fantástica, no disco mais foda do ano ou naquele bate-papo gostoso e rico com os amigos. O diabo veste Prada, mas mora nos detalhes. Você pode até não trabalhar com isso, mas, com certeza, vai enxergar com mais clareza o que está ao seu redor – e o que pode vir por aí.