Que o europeu ama ~intensamente~ música eletrônica não é novidade. Mas é ele, o sagrado techno, acima de tudo.

Capitais principais cidades do continente costumam ferver em clubs e festivais voltados ao estilo. Não à toa, o ideal de 24-hour party people foi criado e está cristalizado no zeitgeist daquele lado do Ocidente. Tem o La Machine em Paris, o Fabric em Londres, o Tresor e o Berghain lá em Berlim – neste último eu provavelmente eu peguei uma das festas mais importantes de anos da minha vida clubber (em síntese, era o crew do Bpitch Control Records em peso tocando no Panorama, o resto é all that jazz, baby). Mas a outra que está no Olimpo do meu gosto aconteceu no dia 1o. de janeiro de 2016, em Madri.

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Não só pelo line-up do WAN Festival (já chegaremos neste “detalhe”), mas porque, embora conheça muitos clubs e festivais no Brasil e mundo afora, eu nunca tinha visto techno de arena na minha vida. E posso dizer, sem pudor e com todas as letras: é do caralho!

Carinhosamente batizado de Day 1 (ou #DayWAN) pelos madrilenhos, começar o ano ao som desse estilo de música eletrônica já é um ritual na cidade. Esqueça pular sete ondas. Vestir branco nem pensar (meio cafona, vamos combinar). Deixe quieto também a virada do ano. Sem contar que Ibiza é muvuca nesta época. A bueníssima onda é pegar o bonde para Leganés e colar às 17h do dia seguinte em La Cubierta, e passar mais de 12h imerso no crème de la crème da música eletrônica. Deu uma coceira? Em 2017 tem mais – e eles prometem que vai ser avassalador.

La Cubierta é longe, mas o metrô fica em frente ao local – um ginásio gigantesco, bem propício e confortável para abrigar as 10 mil pessoas que lá estiveram. E bicho, quando você entra… Arrepia.

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Primeiro porque o soundsystem usado foi o L-Acoustic K1, mesmo de festivais abertos como Coachella, Awakenings e Tomorrowland, com potência de 140.000 WATTS R.M.S.. Na arena/ginásio, não havia um ponto em que o som se embolava; de qualquer ângulo era possível ouvir graves, médios e agudos com perfeição. Um parque de diversões para audiófilos e para o underground sofisticado e sedento de experiências sonoras alucinantes.

Vale lembrar que La Cubierta abrigou muitas festas de música eletrônica até o começo dos anos 2000 – pelo que entendi, as autoridades madrilenhas encanaram no esquema e rolou uma pausa. Pero el gran retorno foi, justamente, no primeiro dia de 2016, então as emoções estavam à flor da pele.

Mas não só. Combinando uma caralhada de tecnologias, a produção do palco da WAN era algo de Saturno (ou Júpiter, vai saber): mapping de vídeo em células de LED, 200 m2 de telas de alta resolução (também em LED) colocadas em vários ângulos, centenas de lasers, estrobos, canhões de luz, etc., tudo de última geração – o que dava uma pegada robótica e ultrafuturista para o rolê.

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Parece chatice toda essa descrição nerd, mas fez com que fosse uma experiência, e sinestesia é o nome dela. Nada mais é que o cruzamento de sensações, criando uma conclusão emocional, uma impressão que dura só aquele momento em que se esteve lá. Tem algo de filosófico e profundo nisso, mas, simplificando, é aquele momento em que você se depara com grandes festas da vida.

Bom, o resultado você confere em alguns dos vídeos que eu fiz abaixo – relevar a qualidade do som e usar bons fones são as dicas, já que gravar em smartphone tem lá o seu charme underground e do it yourself (quando não atrapalha os outros, porque educação é tudo na vida), mas sempre sempre SEMPRE detona o bass (lembrando o óbvio, o grave é a essência do techno).

Vim, vi e perdi

O line-up era o sonho de qualquer amante desse estilo de música eletrônica. Um dos headliners era ninguém menos que Richie Hawtin (que, na minha opinião, é o melhor DJ de techno em atividade e um dos grandes músicos contemporâneos). Curiosamente, Richie tocou às 19h do festival, provavelmente sequelado por ter se apresentado em Ibiza na virada do ano. Era aquele horário ou nunca. Cheguei por volta de 19h45, acabei perdendo o set, então não sei como foi. Meu no-show foi sentido, mas, como já vi Richie diversas vezes (e provavelmente verei mais), beleza. Minhas mágoas evaporaram logo com a brisa seguinte do line-up.

Gonçalo

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Esse português radicado na Espanha teve a responsabilidade de tocar entre Richie Hawtin e Luciano – e segurou o forninho muito bem com um set para lá de classudo e sintonizado com o público num feeling de pista absurdo, com direito à manha de encerrar lindamente com o remix melódico e viajante do Four Tet para “Opus”, do Eryc Prydz (no segundo vídeo abaixo). Profundo e sensorial.

 

 

 

 

Luciano

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Não tem outra palavra para definir o suíço Luciano: sensacional. Radicado no Chile durante muitos anos – um dos grandes responsáveis por fazer a cena eletrônica underground dos nossos vizinhos ganhar uma projeção absurda, inclusive – o capitão do selo Cadenza Records fez um set genial, distribuindo sorrisos e com direito à tirada: retardou os beats do tempo de propósito (de uma música que eu não conheço) e depois voltou – plateia à loucura. Outro ponto alto que tirou Madri do chão foi The Bells, clássico da 2a. onda do techno de Detroit, faixa que foi recorrente em seu chart no ano passado. O vídeo abaixo mostra o comecinho do set, logo depois do Gonçalo.

 

 

Loco Dice

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Sou fã, não adianta me dissuadir. Ele, que levou o D-Edge abaixo num set espetacular em 2011, soltou a mão e fez um set gangsta p-e-s-a-d-o! Também é um dos grandes DJs de techno em atividade e constantemente figura no line-up do Circo Loco, uma das maiores festas itinerantes de techno underground. Nunca vacilou das vezes em que vi, já que é um egresso do hip-hop, estilo que exige técnica primorosa e pelo qual ele fundamenta as estruturas e os basslines das suas produções. Sempre vale a pena ver, seriíssimo.

 

 

Tale of Us

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Não é à toa que a dupla Matteo Milleri e Carmine Conte é uma das novas queridinhas da cena underground mundial. O set do duo costuma beber da fonte e passear por estilos diversos – house, nu-disco, até rock – mas, quando se está numa festa de techno, não há muita escapatória, certo? É como se fosse um chamado alucinante – venha conosco e seja um de nós, os amantes de techno, risos. O set no WAN foi intelectual, cabeçudo, obscuro e ousado, alternando momentos introspectivos e dançantes. Uma brisa! Talvez o mais arriscado da carreira deles. Infelizmente não gravei, estava muito ocupada boquiaberta, apreciando o momento. :-) Mas você acha uns vídeos maneiros no YouTube.

B2B: Andrea Oliva e Uner

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Andrea Oliva fez um back to back destruidor com Uner para fechar a festa com uma elegância de puta madre, como dizem por lá: melódico, pesado e com uma sintonia ímpar. Bom, por essas horas eu já não conseguia gravar mais nada, mas foi bateu aquela tristeza quando o som foi desligado. </3

Ficou o gostinho de quero mais em uma experiência histórica não apenas para mim, mas para 10 mil madrilenhos que foram, bailaram e se divertiram com essa grande família que o só o techno é capaz de reunir. Ou seja, brasileños, vale a pena planejar e passar o Day 1 lá. São experiências raras assim que fazem da vida uma coisa muito mais divertida.

As fotos incríveis usadas nesta reportagem foram gentilmente cedidas pela organização do WAN Festival. Crédito: © Oscar Plaza Diez Photography

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