O cinesta Del trombou com Del The Funk Homossapiens para falar de skate, cidades e a música feita em São Paulo no século XXI

Coincidência é coisa que não existe, mas acontece. Há quem prefira dar o nome de destino para encontros impensados que ocorrem em um determinado lugar, em um determinado momento. Tem aqueles que julgam isso também como sorte e há aquelas pessoas que não se importam nada com acaso e aproveitam da melhor forma as oportunidades que aparecem.

Seria obra do destino colocar em seu caminho alguém de outra parte do mundo que é referência no tipo de arte que você está documentando? E seria por acaso isso ocorrer no período em que você está fazendo as pesquisas? Chamaria de coincidência que esse artista tivesse o mesmo nome que o seu e topasse, sem muitas delongas, participar do seu projeto?

Del é um brasileiro com uma caminhada gigante na área da publicidade e do audiovisual. Envolvido há anos no mundo dos videoclipes, já fez trabalhos para artistas que vão de Capital Inicial a Coldplay. Mas o lance dele sempre foi o hip-hop e junto com os amigos Zorack, vocalista do grupo de rap Ascendência Mista, e Drank que é DJ e produziu inúmeros artistas, estão finalizando o documentário Poesia Concreta, sobre o underground do rap paulistano no início do século XXI.

Em meio ao processo de entrevistas e captação de imagens apareceu, por coincidência, destino, acaso, sorte ou algo que o valha, a oportunidade de Del poder gravar com um dos seus charás mais famosos. O rapper norte-americano Del the Funk Homosapien estava em São Paulo para fazer um show e topou, sem muitas exigências, dar sua contribuição com o filme.

O encontro entre o brasileiro e o gringo de mesmo nome rendeu um material maior do que o esperado. Para que esse extra não se perdesse e também como uma forma de divulgar o documentário que tem previsão para ser lançado em 2017, foi feito o curta All Day All Nigth. Nele, The Funk Homosapien faz um paralelo entre os pensamentos do rap a caótica estética urbana de metrópoles como a capital paulista.

Lembranças e surpresas por conta de um skate

Del lembra bem do momento em que viu o rapper norte-americano e sentiu que ele poderia ser um bom personagem para o filme. Del The Funk Homosapien estava em São Paulo na turnê do seu disco Third World Vision e o cineasta aproveitou para filmar a apresentação no Sesc Pompeia. A ideia, pegando como base o título do álbum, era saber qual visão um músico norte-americano tinha da cena hip-hop em São Paulo.

“A gente tinha uma curiosidade de saber se ele tinha imagem como nós temos quando pensamos em samba feito fora do Brasil. Mas o movimento hip hop é algo que abrange o mundo inteiro. Conseguimos esse contato com ele através do Rodrigo Brandão, do Mamelo Sound System. E no show ele entrou no palco com um skate e depois que vi aquilo tive a ideia de levar ele pra Praça Roosevelt para fazer a entrevista”.

A cada cena e depoimento ficava mais claro que o material que estava sendo produzido ali renderia bem mais do que apenas uma entrevista para o documentário. Deixando o personagem bem à vontade, Del conseguiu captar que o discurso do rapper estava expandindo a ideia do filme. Del The funk Homosapien mostrou o que tinha em comum o caos urbano, a música e a sua dificuldade em acertar um ollie.

 

All day all night / Del from LANDIA on Vimeo.

“O skate parecia uma coisa confortável para ele, mas ficamos surpresos quando chegamos na Roosevelt e sacamos que ele não sabia muito andar de skate. Ficamos a tarde toda conversando e ele falou bastante como ele queria aperfeiçoar o modo de andar. Engraçado que em meio a isso houve um resgate desse tema para ele, porque nos anos 90 quando começou a circular os vídeos de skate, o Del The Funk Homosapien foi trilha sonora de muitos deles”, revela o cineasta.

A ideia de fazer um documentário sobre um período específico do rap paulistano já estava na cabeça dos três amigos há pelo menos dois anos. Sempre com a desculpa que o trabalho no mercado publicitário tiravam o tempo deles para trampos autorais, o projeto foi sendo deixado de lado até a vinda da rapper norte-americano, que deu uma impulsionada no sequência do filme e no estímulo no trio de produtores.

Voltando os olhos para um passado recente

São Paulo é uma cidade complexa e tudo que a envolve também tende a ser um objeto de difícil explicação. Não seria diferente com o rap feito na cidade, que há 30 anos embalas jovens da periferia e que com passar do tempo entrou pelas janelas dos apartamentos da classe média e pulou os grandes muros da elite paulistana. Mas da época dos Racionais MC’s e RZO até chegar em Emicida e Criolo, houve um período sabático onde ninguém sabia muito bem para onde iria o rap feito na cidade.

Se nos anos 90 o discurso do rap paulistano tinha um viés altamente embasado no discurso político, por volta de 2001, o chamado rap indie ou underground passou a usar de mais metáforas com um tipo de narrativa menos agressiva. São essas pessoas, que tempo depois até partiram para outras áreas musicais, mas que tem no rap o seu alicerce, que estão no documentário Poesia Concreta.

“O Ogi tem dois discos incríveis, o Espião é um cara que todo cita como referência, mas nunca teve nos mainstream. O Kamal é outro cara que veio dessa época. São pessoas que tirando o Yo, da MTV, nunca passaram em lugar nenhum. Esses caras serviram de inspiração para um monte de gente como Emicida e Rashid, por exemplo. Acho que foi um período que ficou esquecido e por isso a ideia de querer retratar e dar uma lembrança para galera dessa época”, diz Del.

O filme está previsto para ser lançado no primeiro semestre do próximo ano e, segundo o diretor, nada é mais do que um vídeo falando sobre pessoas comuns que usaram a música como uma forma de narrar o cotidiano da cidade e que atualmente nem fazem mais parte da cena.

“Pra contar essas histórias a gente precisar usar coisas que fortaleçam a mensagem. Uma coisa que a gente pede nas gravações é que o entrevistado cante alguma coisa da época, nem que seja à capela. As locações também são pensadas para dar um apoio a mensagem que vai ser passada. Por isso gravamos em locais icônicos de São Paulo como a Roosevelt e o Copan”.

Del e os seus parceiros na empreitada do documentário zelam pela memória. Não só pelo registro de um movimento cultural e suas características de determinada época. A intenção dos cineastas é produzir memória para um cidade que vive na velocidade do esquecimento, seja de pessoas ou lugares. Mas São Paulo permite encontros, acasos e coincidências para quem acredita no destino ou na cidade.

Fotos: Murilo Yamanaka / Freak Market