Nossa colunista Nora Ribeiro relata sua experiência em uma ação de voluntariado em uma associação de moradores em comunidade na Zona Sul de São Paulo

O bem-estar é um conceito relativo e subjetivo, mas acredito que, dentro deste princípio, todos buscam segurança, conforto e tranquilidade. Muito além da saúde do corpo e do namastê, eu acredito que o conceito pode abranger também a arte e o bem-estar social. Foi nessa linha de pensamento que resolvi aceitar o convite para conhecer a associação SUPRE (Socidade União do José Presidente) e participar de uma ação para melhorar a sua sede, localizada na comunidade do Jardim Presidente, no distrito de Grajaú, em São Paulo.

O movimento para melhorar a SUPRE só pode acontecer devido ao encontro da coordenadora voluntária do local Fabiana Cordeiro com Mathilde Rousseaux e Suzana Ruiz, que juntas possuem um projeto de música autoral chamado Trilha do Mar. As três se conheceram na edição desse ano do Pimp my Carroça, um movimento de reciclagem que existe em São Paulo - para quem quiser conhecer mais sobre esse projeto é só clicar aqui. Depois de trocarem algumas mensagens, o trio decidiu organizar a primeira ação em prol da ONG. Para festa do Dia das Crianças, elas conseguiram arrecadar mais de 100 de brinquedos através de doações.

Minha visita ao local ocorreu no início do mês de novembro. Depois de alguns longos minutos no trânsito paulistano, congestionado até nos finais de semana, cheguei ao local indicado. Do lado de fora, assim que dobra a esquina da Rua Gêmea Dantas, existe um espaçoso gramado com alguns brinquedos de madeira bem em frente ao número 356. Ao entrar, você se depara a um estacionamento com uma construção ao fundo. É nesse espaço onde ficam os banheiros, junto de um escritório, uma cozinha externa e um salão grande dividido entre sala de estudo, biblioteca e um refeitório. Assim que chegamos, no início da manhã, fui recepcionada calorosamente por Fabiana, Mathilde e Suzana e por outras pessoas da comunidade com uma mesa cheia de sanduíches naturais, sucos, frutas e bolo de cenoura caseiro.

A SUPRE existe há 17 anos e atualmente corre com os trâmites burocráticos para transformar a associação em ONG oficialmente. Em uma conversa com o presidente da associação, Adão José Leandro, ele nos contou um pouco das dificuldades e planos para o espaço, que atualmente sobrevive com a renda vinda do estacionamento. O dinheiro é suficiente para manutenção de despesas como água, luz, telefone e contador.


Adão José Leandro, presidente da SUPRE

Sem caixa para fazer a melhoria do espaço, iniciativas voluntárias são fundamentais para que o espaço se desenvolva. No futuro, a associação pretende criar projetos sociais como: montar um time de futebol com a intenção de retirar as crianças da rua e mais atividades culturais (artesanatos, pinturas…) que incluirão também os idosos. Com isso será possível, também, pleitear verbas governamentais específicas.

Aos poucos, mais e mais pessoas foram chegando, incluindo os artistas Mut, Veracidade, Ayco Dany, Enivo, Lalasaïdko, Rodrigo Branco, Marjo, Fabiano Nunes, Gor Din, Carol Skina e foram deixando o espaço mais colorido - aqui cabe o nosso agradecimento à Nou Colors pelo apoio. Outra equipe de voluntários,  juntamente com o pessoal do Freak Market, ficaram responsáveis pela construção de mais brinquedos sustentáveis no parque das crianças.

Houve, então uma pausa para o almoço, feito com muito carinho pela equipe também voluntária da Dona Teresinha. Engraçado como um pequeno gesto pode gerar tantos encontros inesperados e agradáveis. Depois de me contar um pouco mais sobre sua vida, descobri que, além de uma cozinheira de mão cheia, a Dona Teresinha também possui uma veia artística única.

Acredito que inspirada por tantos artistas no local ela, tímida, me trouxe uma pasta cheia de desenhos e rascunhos artísticos que havia feito daquilo que via e sentia. Estes desenhos foram elogiados e incentivados pelo Enivo, uma grande honra para ela.

O dia estava um pouco nublado e com temperatura amena, o que permitiu que o trabalho fluísse rápido. No final da tarde, um pouco mais de dez crianças chegaram ao local e até me arrisquei a jogar futebol junto com eles. Aquele ambiente de descontração e união me trouxe lembraças do interior. Ao final do dia já não sabia se tinha ido lá pra ajudar ou se a maior beneficiada com toda aquela ação e acolhida teria sido eu mesma.

Uma observação que pode parecer um tanto clichê, mas depois de ter uma experiência como esta, posso dizer realmente que cada pequeno gesto em prol da inserção e do próximo não é de jeito nenhum uma via de mão única. O mais bonito é poder ver como a arte é uma ferramenta que transforma.

Fotos: Murilo Yamanaka