Sem aparatos técnicos ou grandes produções, fotos amadoras tomam conta da internet e tornam pessoas comuns em celebridades da web com retorno financeiro.

Ao longo da timeline, entre notícias, memes e outros assuntos nem sempre tão relevantes, surgem peitos, bundas e fotos de pessoas em poses provocantes. Mesmo sem pedir, a imagem aparece na sua rede social sem ao menos você tem escrito a famosa frase “manda nudes!”. Tentar entender esse fenômeno da internet passa por conhecer e compreender quem são as pessoas que fazem parte desse universo em que pele exposta é material de troca.
 
A maioria das pessoas que consomem este tipo de conteúdo é, obviamente, a mesma turma que sempre está pedindo os tão almejados nudes. Um das formas mais fáceis de ter acesso a este tipo de material é seguindo perfis que estimulam o envio de fotos nuas e compartilham essas imagens com seus seguidores. Além disso, existem pessoas que dispensam os intermediários, produzindo e publicando elas mesmas suas fotos sem roupa. 
 
O ato de trocar fotos despidos é algo relativamente comum entre casais, mas que extrapolou as barreiras conjugais com o auxílio da internet, viabilizando os desejos exibicionistas de seus usuários. A prática de compartilhamento de imagens também deu notoriedade para pessoas comuns, que a partir da divulgação dos nudes, tornaram-se celebridades na web.


Jéssica Aline ganha dinheiro vendendo seus nudes na internet

Há quem acredite que o auge da onda de imagens de pessoas peladas na internet já está no fim. O Testosterona, um dos primeiros blogs do país a divulgar esse tipo de material, mudou a sua linha editorial e não usa mais imagens de leitoras nuas nas redes sociais. Porém, o que não falta são perfis que promovem campanhas com diferentes hashtags, onde o público é convidado a mostrar diferentes partes do corpo em determinados dias específicos. 
 
Por outro lado, o que era apenas fotos sem roupa para serem publicadas na internet acabou se tornando algo maior para pelo menos duas garotas. Ambas enxergaram um nicho de mercado neste meio e hoje faturam, direta ou indiretamente, com a fama que fizeram na rede por meio das imagens feitas, em sua grande maioria, através da câmera de smartphones.
 
Nudes for sale
 
Jéssica Aline Passos mora na pequena Guaratuba, no litoral do Paraná. A loira de 24 anos e piercing estrategicamente localizado têm mais seguidores no Twitter do que vizinhos. Segundo o último senso do IBGE, a cidade paranaense tem 32.095 habitantes, enquanto o perfil @jeskaline é seguido por mais de 39,9 mil usuários. No Instagram, rede social que não permite nudez, os números são ainda maiores: 141 mil seguidores.
 
 
Quando começou nas redes sociais, seus perfis não eram dedicados aos nudes. Como ela mesma define “sempre foi o famoso escrevendo para ninguém ler”. Mais em menos de um ano, milhares de pessoas começaram a acompanhar o dia a dia de Jéssica. “Sempre gostei de fotos sensuais e quando vi, já estava postando os famosos nudes”, conta sobre o início da sua fama na internet.
 
Nesta época a jovem paranaense ainda trabalhava como hostess em eventos e de tanto receber pedidos para publicar fotos mais ousadas, decidiu vender o material. “A ideia de comercializar o nude veio quando eu vi um tumblr onde uma americana vendia fotos e vídeos sensuais. A primeira vez, de nudez total, foi logo que comecei a vender as fotos. Achei que seria legal existir um estimulo para os compradores. Isso é uma forma "normal" de ganhar dinheiro honestamente”.
 
Em seu site, Jéssica disponibiliza seu conteúdo de outra rede social, o Snapchat, após o pagamento de um valor que varia conforme o período de consumo do cliente. Atualmente a garota que nunca foi modelo vive exclusivamente da comercialização das suas fotos e vídeos, limitados para usuários que têm acesso vip à sua página.
 
 
Dos nudes para os programas
 
“Prestadora de serviços do entretenimento adulto baseado nos princípios Disney de fazer as pessoas felizes”. É assim que se apresenta o perfil @alguemdissenude para os seus 3.373 seguidores no Twitter. Quem gerencia esta conta é uma garota de voz aguda, olhos apertados e riso fácil. A forma que desenvolve as frases mostra que a adolescência passou por ali há pouco tempo e trouxe uma maturidade mostrada com as decisões tomadas para a vida.
 
Aos 23 anos, a menina que prefere ser chamada pelo codinome Raquel afirma que criou a conta na rede social sem a intenção de mostrar fotos peladas e com poucos seguidores. Porém ao aderir ao #LingerieDay (evento que ocorre anualmente nas redes sociais, onde os usuários postam fotos trajando roupas íntimas), Raquel publicou seu primeiro nude e percebeu como as coisas acontecem rápido na internet.
 
Com quase quatro mil seguidores, ela confessa que publica as imagens na internet por exibicionismo, sempre que está de bom humor. “Comecei mandando esse tipo de foto para namorados e ficantes. Eu gosto do meu corpo, por que não mostra-lo?”. 


Raquel: Nudes por aceitação e convicção

A naturalidade e convicção com que lida com a sua imagem e a sua relação com o sexo serviram tanto para os nudes como para começar a trabalhar como garota de programa, abandonando o antigo emprego em uma faculdade particular. “Isso serviu para aceitar a minha sexualidade e o meu apetite sexual. Sempre achava que tinha alguma coisa errada comigo, nunca fui bela, recata e do lar. Fui me aceitando e acabei vendo essa opção de trabalho como uma coisa que eu queria”. 
 
Compartilhadores
 
Neste universo de trocas de fotos, se você quer receber um nude de alguém, não basta somente recorrer ao meme e pedir na cara de pau. E quem quer uma imagem sua pelas redes não precisa necessariamente utilizar o próprio perfil. Muitas vezes quem faz esse meio campo entre produtores e consumidores das imagens caseiras são contas especializadas em compartilhamentos desse tipo de material.
 
Alguns desses perfis na internet são responsáveis por criar campanhas que mobilizam os usuários a postarem determinadas imagens em um dia específico da semana. Assim surgiram a #terçadodecote, #terçadoespelho e #segundadasruivas. Em sua descrição no Twitter, o @homemadmirador garante ser o criador do #quartadasbundas. De fato, no quarto dia da semana ele enche a timeline dos seus seguidores com diferentes tipos de glúteos.
 
 
“As imagens chegam por DM (direct message), mas a maioria posta direto usando a tag que já está muito conhecida. Em raras exceções vem pelo Snapchat, mas ainda não estou explorando o aplicativo ainda. Quando vem por DM, a maioria pede sigilo e eu sempre respeito”, revela o administrador do perfil @homemadmirador, que prefere também não revelar a sua verdadeira identidade.
 
Outro que prefere manter-se no anonimato é quem faz o perfil @peitosilove. Como o próprio nome sugere, é uma conta especializada em uma parte específica do corpo feminino. Na opinião dele, este tipo de perfil serve para valorizar as seguidoras. “Algumas mulheres não tem coragem de postar no próprio perfil. Vejo o meu perfil como uma porta de libertação, muitas meninas são encanadas com seu corpo. Quando mandam a foto, eu posto e logo em seguida aparece um comentário bacana, eleva a autoestima delas”.
 
Machismo
 
Há uma corrente forte que também ganha forças na internet, que considera o envio de imagens íntimas, seja por qualquer intenção, estímulo para o machismo presente na sociedade. Para muitos, fotos propagadas na rede só reforçam o discurso misógino de objetificação da mulher.
 
 
Jéssica Passos discorda de quem utiliza esses argumentos. Para ela, enviar nudes não muda a forma como os homens olham as mulheres. “Eu repudio o machismo. Acho que deveria existir uma extinção de homens assim. O mundo mudou, as pessoas mudaram. Ser machista não te faz ser melhor que ninguém. Tento ao máximo não conviver com pessoas assim. Creio que a figura feminina, mesmo que tentem lutar contra, sempre vai ser objetificada. Desde que seja de uma forma saudável, não acho que seja errado. Cada um sabe do seu limite”.
 
Mesmo afirmando que não publica nudes especificamente para este tipo de público, Raquel reconhece que são muitos os homens com pensamento conservador e que mesmo consomem o tipo de imagem que ela produz. “Claro que existem os machistas. Eles estão lá te adorando, mas são os tipos de pessoa que jamais irão querer ficar com uma menina que publica nudes. Não estou ali para satisfazer a vontade deles, só faço as minhas fotos quando estou bem comigo e com o meu corpo”.
 
Para publicar nudes na internet ou trocar fotos sensuais entre parceiros é preciso ter muita segurança e saber dos riscos que se corre com a prática. Um dos crimes mais covardes decorrentes de imagens enviadas pelas redes sociais é o chamado revenge porn. Quando fotos desse tipo vazam na rede sem a autorização das pessoas que as fizeram, causam sérios danos sociais e psicológicos às vítimas. Geralmente quem publica as fotos sem consentimento é um ex-namorado ou parceiro.
 
 
“Isso é errado de todas as formas. Vazar nude sem autorização não é uma coisa legal, além de ser crime”, comenta o @peitosilove. 
 
Para Jéssica, que ganha a vida vendendo suas imagens sensuais, em caso de vazamento sem consentimento, confia na eficácia da Justiça brasileira. “Não tenho medo. Meu direito de imagem me autoriza a tomar as devidas providências”. A paranaense também enfatiza que é totalmente contra o revenge porn. “Acho a pior forma de feminicídio vinda da internet, nem sempre as mulheres que são expostas estão preparadas para exposição. Algumas só queriam aquilo no momento e muitas vezes por ego. Esse tipo de coisa destrói vidas e famílias. Vale lembrar também que em casos como esses, a pessoa exposta não é a culpada e sim a vitima”.
 
Celebridades anônimas
 
Depois que passou a se mostrar sem roupas nas redes sociais o número de seguidores de Raquel triplicou. Mesmo sabendo que boa parte de quem lhe segue é apenas por conta das imagens, ela não considera que tem uma legião de fãs na web. “Não é o meu objetivo virar uma rainha dos nudes. Continuo fazendo para me sentir bem”.
 
 
No caso de Jéssica, há admiradores declarados espalhados pela internet, inclusive um perfil do fã-clube dela no Instagram. Ela incentiva outras mulheres que queiram ganhar, além de notoriedade, dinheiro através das fotos sem roupa. “Que mulher não se sente bem ao ser elogiada pelo corpo que tem? Eu admiro muitas mulheres que não só postam, mas vendem também suas fotos. Antes eu não conhecia ninguém aqui no Brasil que fazia isso, porém hoje sei de muitas e apoio todas elas. Antes vender nudes pra se sustentar do que passar fome, não é?”
 
Os elogios e a facilidade de divulgação que as redes sociais oferecem são os grandes responsáveis por atrair meninas querendo mostrar seus corpos com poucas peças de roupa, segundo avaliação do @homemadmirador. “Cada uma tem a sua motivação, seja ela tímida ou não. Acredito que seja interessante receber elogios em suas fotos mesmo que sejam sigilosas. Vejo isso como algo muito natural hoje em dia”.
 
Moda passageira, fenômeno social ou algo restrito a um nicho diante do universo da internet, os nudes tem seu público fiel, tanto produtor como consumidor. Quem produz sabe dos riscos que corre ao publicar as imagens e do retorno, positivo ou negativo, que a prática pode trazer. Quem consome está querendo ver pessoas normais, que poderia ser seu vizinho ou que trabalhe junto todos os dias, em poses sensuais ou sem roupa. Longe dos padrões das capas de revistas masculinas. 
 
 
“Somos livres para fazermos o que quisermos quando o assunto é nosso corpo e imagem. A nudez ainda é vista com outros olhos, mas como eu sempre digo: a maldade está nos olhos de quem vê as imagens. Para mim, não passam de momentos retratados”, sintetiza Jéssica sobre as fotos que rondam nesta internet que você está conectado agora. 
 
 
 
*Todas as fotos foram envidas por Raquel e Jéssica Aline