Uma crônica sobre afetividade nos tempos modernos

Se você é do tipo que acredita em finais felizes, que as coisas duram pra sempre e cita a frase “mais amor, por favor”, talvez esse texto lhe incomode. Vai dar uma cutucada sobre como chegamos num período líquido das relações afetivas e como a palavra amor virou mais uma hashtag do que um sentimento real vivenciado nos grandes centros urbanos. Locais onde o tempo precioso de uma curta hora de almoço durante o expediente confunde-se com o tempo disponível para se conhecer alguém.
 
Aliás, pra que você quer se aprofundar no outro se há tantos apps para satisfazer a carência e nutrir o ego? Milhões de pessoas conectam-se nas redes voltadas a conhecer novas pessoas com o intuito de tornar a vida menos solitária. Happn, Tinder, Kickoff, Down, Wapa, Grindr, NowMe e outros que tomaram a memória de seu smartphone e são quase um cardápio online de gente disponível a aventuras e casualidades. Apesar das frequentes reclamações que não tem gente solteira bacana disponível no mercado, muita gente gosta da vida sem amarras. Você vai e volta a hora que quiser, sai com quem quiser, faz sexo com quantas pessoas quiser... você está vivendo a vida lôca, e daí?
 
Com tantas opções é difícil você se imaginar numa vida pacata e sendo fiel a um namoro/casamento, logo, o melhor é se divertir e manter seu status solteiro. Medo de solidão? Saia com seus amigos, amigas, as velhas paqueras que reaparecem com os famosos “e ae?” e “oi sumido (a)”, sem dramas, sem DRs e sem cobranças. Quer coisa mais desagradável que um casal tretando aos berros por ciúmes? Ou você deixar de ir praquela festinha suspeita porque seu amor vai ficar putaço (a) de você colar em casa de tarde no dia seguinte e perder o divertido almoço de família.
 
Aí você vai pensar; minha nossa senhora, não tenho trepado há semanas! Como resolvo isso? Já ouviram falar em sex toys e outros métodos para aliviar a tensão de uma maneira solitária? Se joguem nos brinquedinhos adultos e pensem no lado bom; depois de ter aquele belo orgasmo, não tem ninguém do lado roncando, com conversinha chata ou você tendo que dispensar a pessoa educadamente para um táxi ou Uber porque quer dormir sozinho (a). Usar a imaginação é tão excitante quanto ver pornografia online.
 
Ah, mas o amor é lindo, tão lindo, nada pode ser mais lindo que o nosso amor... Pare, apenas pare, pois você não é pior porque é livre, desimpedido e está fabuloso (a). Lembrem que solteiro (a) infeliz é aceitável, mas solteiro (a) de bem com a vida incomoda, e muito!
 
E sim, temos indivíduos que cultuam e vivem felizes a vida sem um amor e não abrem mão da solteirice por nada. Coletamos alguns depoimentos e vamos manter as identidades anônimas, pois eles não querem perder matches no Tinder:
 
“Fui casada oito anos e no fim fiquei acima do peso, perdi contato com minhas amigas e estava sem chão. Passado quatro anos solteira, eu não abro mão de ter meus momentos sozinha fazendo o que gosto e quando não estou a fim de catar um boy prefiro usar meu vibrador ou gastar energia praticando artes marciais. E toda semana encontro minhas novas amigas pra botar o papo em dia.” Miss Cat Claw
 
“Meu namoro estava indo mal e minha namorada sempre conseguia me chantagear emocionalmente para continuarmos. Fazia um tempo que nem tínhamos mais intimidade e as brigas eram diárias. O estopim para eu tomar coragem de sair desse pesadelo foi uma amiga que tinha começado a usar os apps de encontros e me falou pra parar de ter medo de passar um tempo só. Terminei o namoro, tenho conhecido pessoas com que me encontro para sexo casual e outras que viraram amigas. Sei que pode parecer fútil, mas essa vida têm sido libertadora pra mim.” P.K.
 
“Só de ouvir falar em relacionamento me dá vontade vomitar! Via como minhas amigas ficavam fracas em relação a seus namorados e isso nunca me inspirou a ter uma vida a dois. Pode ser que um milagre ocorra (risos). Mas não abro mão de ter minha lista do Happn e assistir o que eu bem quiser no Netflix.” Raqxox
 
“Eu sou uma adepta de poliamor e acho que ninguém tem sexo definido mais. Vale tudo. Tenho uma relação aberta e sempre trazemos gente nova pra ela. Esse amor de cinema e careta não funciona mais no século 21. É hora de liberação. Até como protesto a sociedade.” Apenas Chris
 
“Eu acho bizarro nêgo que arruma namoro por app. Parece coisa de desesperado que quer foda fixa pra vida! Não uso muito essas tecnologias, pois prefiro a velha abordagem de olho no olho e bater papo. Com gente muito jovem não rola, por isso prefiro as mulheres de 30, 40 que sabem o que querem. Pra que quero uma fixa de vinte e poucos se posso ter várias maduras e que dão conta?” R.M.