Desde a infância Pedro Nekoi sempre teve aptidão por atividades que envolviam criatividade e artes. Era uma criança que desenhava bastante adorava trabalhos manuais, colagens e afins.

Seu desejo em trabalhar com artes visuais começou nessa fase da vida e daí pra faculdade de design gráfico foi um caminho natural. Seus dois irmãos também nutrem paixão pelo design e os três acabaram mutuamente se inspirando, cada um de sua maneira, em seguir a mesma carreira.
 
O Calendário Retrogay, à venda por aqui, foi o resultado final de uma série de 12 colagens que iniciaram em outubro de 2016. O tema principal dessa série era o universo pornô. Falar sobre pornô ainda é um forte tabu em nossa sociedade, apesar de ser um tópico extremamente presente no cotidiano de todos. À partir do desejo de desmistificar e quebrar o silêncio sobre esse gênero, Pedro criou a série Retrogay. Foram utilizadas capas de revistas pornô gay dos anos 80 e 90 recriadas com colagem digital, empregando  novos significados e sentidos para as picantes imagens originais.
 

Trocamos uma ideia como designer e mergulhamos em seu mundo cheio de cores e referências pra entender melhor suas inspirações. Com vocês, Pedro Nekoi:

Como surgiu seu interesse pelo universo pornográfico retrô? Tem algum filme pornô favorito?

Eu fico muito admirado com a estética pornô retrô. Aqueles caras com bigodes grossos, peitos peludos e estufados, às vezes apenas vestindo botas de couro e chapéu ou usando shorts esportivos hiper curtos. Os caras retratados nessas fotos pareciam ser diferentes, tinham uma naturalidade maior do que nos pornôs atuais, que extrapolam os níveis de perfeição da imagem. Vou confessar que não tenho um filme pornô preferido e que, na verdade, nem gosto de vê-los mais de uma vez... a não ser que seja algum filme do Alexandre Frota, crush da infância/guilty pleasure. Sabe como é.

Os pornôs da década de 70 e 80 tinham uma preocupação com roteiro, trilha e estética que foi se perdendo nos 90 até despirocar no que vemos em sites de streaming. Você acha que há um choque de gerações na maneira de ver/viver o sexo?

Olha, o acesso à informação acabou mudando os hábitos de todos nós. Imagina como era pra você ter acesso a um filme pornô? Você ia na loja/locadora, via todo o catálogo de filmes, comprava/alugava o VHS, voltava pra casa pra ter seu momento de prazer. Um trabalho da gota (como dizem na minha terra).
 
Agora você só entra ali no Xvideos ou tumblr (melhor fonte de pornô!) e tá tudo a sua disposição: vídeos de 10 segundos ou longa metragem de 5h. Mas eu não acho que tenha um choque de geração, mas sim um choque de pessoas com mentalidades e conceitos diferentes. Independente de qual geração você faz parte, a maneira como você vive o sexo é exclusivamente sua. Se um novinho vive o sexo de maneira mais tradicional e alguém mais maduro vive o sexo mais casual, ou vice versa, não tem a ver com a geração, mas sim com a maneira de pensar de cada um. 

Quais são seus artistas gráficos favoritos de todos os tempos?

De todos os tempos é bem difícil de escolher. Claro que figuras super importantes da arte são uma grande influência pra mim, como Dali, Yayoi Kusama, Richard Hamilton, Tadanori Yooko, mas o que eu amo mesmo é procurar os novos artistas, que são jovens como eu, que fazem sua arte por pura paixão e que enfrentam as dificuldades e barreiras desse mundo criando seus próprios meios. Os artistas que mais admiro no momento são meus próprios amigos: o Herbert Loureiro, um ilustrador incrível de Maceió; Bárbara Malagoli, que tem uma paleta de cores dos sonhos; as fotografias da Anna Mascarenhas; os desenhos em aquarela e lápis de cor do Nori. E por aí vai...

E sua influência japonesa na arte? Como nasceu esse interesse?

Essa influência vem desde a infância. Cresci assistindo Sailor Moon e Sakura Card Captors e aquele universo me encantava tanto, eu realmente queria viver tudo aquilo que as personagens viviam e viajar para o Japão. Daí em diante fui procurando cada vez mais animes e mangás e me aproximando da cultura japonesa, como a moda, o idioma, as músicas. E como o universo ao redor de mim tem extrema influência em meu trabalho, não foi diferente com a paixão pelo Japão.

Quais as capas de disco/cds que você fez e qual seria a sua mais importante até agora?

Recentemente, fiz a capa do novo single da Karol Conká, "Farofei". Esse foi um trabalho muito importante pra mim, pois é uma das primeiras capas que faço pra um artista com o alcance da Karol e foi demais ver os fãs comentando nas redes sociais que tinham curtido a arte.

O trabalho artístico do designer nem sempre é compreendido. Como você faz para trabalhar com ou sem briefing?

Ainda é muito difícil trabalhar como designer no Brasil (acredito que no mundo todo). A gente passa por diversos perrengues, desde o briefing, que não é muito claro, até orçamentos com valores ridículos e muita desvalorização do nosso conhecimento como designer. 
 
Eu tento driblar tudo isso pra manter um pouco de orgulho e amor próprio, recusando trabalhos que vão me desvalorizar como profissional ou que vão desvalorizar a profissão em geral. Parece mentira, mas ainda tem muita gente que acha que o trabalho de designer pode ser feito por "qualquer um que mexe com computador", o que acaba criando um peso negativo enorme sobre a profissão. 

O que podemos esperar de novidades suas para 2017?

2017 já começou com algumas novidades, como a capa da Karol Conka e ainda vai sair mais coisa dessa parceria! Esse ano também quero continuar com os trabalhos que faço com meus amigos Herbert Loureiro e Matheus Sandes, no nosso estúdio criativo Lambada. Além disso, tenho muitas ideiais de produtos pra vender aqui no Freak Market.