Filme aborda questões mais atuais do que nunca para contar a história das estrelas Dr. Dre e Ice Cube

Só pensar em “nosso curador de arte urbana William Baglione em sua A primeira coisa que impressiona na trama é a caracterização dos personagens. Os membros do N.W.A. são interpretados em rara química entre os atores. N.W.A. é um acrônimo para Niggaz Wit’ Attitudes, grupo de Compton (região metropolitana de Los Angeles) que é uma das pedras fundamentais do estilo e cujas influências são reverberadas na música até hoje.

O N.W.A, da esquerda para a direita: MC Ren (Aldis Hodge), DJ Yella (Neil Brown Jr,), Easy-E (Jason Mitchell), Ice Cube (O`Shea Jackson Jr) e Dr. Dre (Corey Hawkins). Crédito: Divulgação/Universal

O N.W.A, da esquerda para a direita: MC Ren (Aldis Hodge), DJ Yella (Neil Brown Jr,), Eazy-E (Jason Mitchell), Ice Cube (O’Shea Jackson Jr) e Dr. Dre (Corey Hawkins). Crédito: Divulgação/Universal

Se você comparar os clipes da banda e o filme, a similaridade entre os rappers reais e os atores é assombrosa. Em certo aspecto, faz todo o sentido: quem interpreta Ice Cube é seu próprio filho, O’Shea Jackson Jr. Daí, talvez, venha a escola dos trejeitos, movimentos e até da interpretação (inacreditavelmente boa para um playback) da voz ultrapotente do pai. Completa essa questão o fato de que os próprios membros do N.W.A., Ice Cube e Dr. Dre, assinam a produção do longa.

A segunda é tétrica, chocante, porém real (quem já tomou dura da polícia sem qualquer motivo aparente sabe): o preconceito cristalizado na forma do racismo mais segregacionista – e que assola jovens negros e pobres até hoje. É o cara que está na porta de casa e leva geral por ser negro. O indivíduo para o qual os táxis não param. Aquele que está numa luta constante e diária para sobreviver. Culpado ou não, a simples existência já é um pretexto de repressão social de violência física ou simbólica – e isso é foda.

Por fim, a terceira talvez seja o que cidadãos da classe média e alta tenham uma dificuldade crônica em perceber: a falta de oportunidades para quem é outsider, ou socialmente excluído, do establishment. O filme já abre jogando essa realidade na cara das pessoas: Eazy-E (interpretado por Jason Mitchell) em meio a uma edição de tirar o fôlego com câmeras ágeis, tretas, sirenes, cachorros, “Caveirão”, e seu contexto enquanto traficante de drogas antes do envolvimento com o N.W.A. – tudo magistralmente dirigido pelo cineasta F. Gary Gray. Vai vendo: aí já somos introduzidos a um dos anti-heróis mais carismáticos da música e do cinema.

Corta para a música

Mergulhado em um quarto abarrotado de vinis, fones, sintetizador e toca-discos, Dr. Dre está deitado no chão, de olhos fechados, sobre dezenas de capas de álbuns, dedilhando um teclado invisível. Um estado absoluto de transe, paz de espírito, nirvana ou namastê, seja lá qual for o nome que você quiser dar ao mesmo caminho e pelo qual todos que têm uma relação forte e emocional com música já passaram. Na vitrola, rola as linhas iniciais de “Everybody Loves The Sunshine”, clássico do R&B/soul de Roy Ayers.

 

 

Uma beleza singular na direção de fotografia – mas tudo que é sólido se desmancha no ar, como já disse um certo ~poeta~ por aí. Uma discussão acalorada com a mãe sobre trabalho e futuro traz à tona o que o jovem Dr. Dre realmente quer para a vida: ser DJ. É a música. E mais nada.

Mas Andre Young logo provaria que seu lugar estava guardado: sob direção e mixagem de som impecável (com orientação do verdadeiro Dr. Dre, em carne e osso na condução do mise-en-scène), o encontro entre ele e Ice Cube é marcado por um turbilhão de scratches em discos. O combo música é completado pelo choque de realidade: “’Cos you know that’s Compton, right? They got body bags at the door.”

E a real é essa. Ice Cube atravessando a rua e sendo enquadrado pela polícia sem motivo algum. A arma que portava? Um caderninho em que tomava nota das letras que compunha. Talvez fosse a mais perigosa de todas, porque daria luz a esta pedrada aqui:

 

 

A faixa é só uma amostra da poesia sanguinária do disco todo do N.W.A., pela qual ouvimos as rimas poderosas de Ice Cube dominarem o recinto. Em conjunto com a sensibilidade musical de Dr. Dre – tanto como DJ quanto como produtor – e a sagacidade de Eazy-E, o N.W.A. era ruthless além da conta – a bala na agulha, a nitroglicerina pronta para explodir. Puro veneno mental, um tour de force glorioso que norteou toda uma geração – e as seguintes, até hoje, sem parar, num loop do eterno retorno musical. Ainda bem.

"Straight outta Compton, crazy motherfucker named Ice Cube" | Crédito: Divulgação/Universal

“Straight outta Compton, crazy motherfucker named Ice Cube” | Crédito: Divulgação/Universal

Polícia, política e história

Pegar pesado com a polícia não era uma atitude à toa: o gangsta rap do N.W.A. só fazia aflorar uma questão que estava entalada nas franjas das periferias de Los Angeles há muito tempo. Tomar geral por nada, apanhar e ser xingado era um cotidiano de muitos jovens negros. Mas a prova cabal disso veio com a gravação de um vídeo do taxista Rodney King sendo brutalmente espancado pela polícia por supostamente andar em alta velocidade no trânsito. As imagens, que circularam mundo afora  e indignaram milhões de pessoas, deram origem aos chamados Los Angeles Riots em 1992 (quando os agressores de King foram absolvidos pela Justiça). Lógico que o disco do N.W.A. caiu como uma luva para a trilha sonora dos protestos.

Se a simples existência já trazia problemas com a polícia, o primeiro disco do N.W.A. colocava os holofotes nas críticas agudas por alçar à glória do sucesso o rap de protesto – estilo preconizado por Public Enemy – com mais de 750 mil cópias de disco vendidas antes da turnê. O número impressiona mais ainda quando, no longínquo 1989, o grupo tinha rejeição absoluta das rádios e do mainstream em primeiro momento. Mas isso foi bem rápido, num átimo antes da indústria sacar, se curvar de joelhos e o rap virar o fenômeno cultural que é, tanto das vendas e quanto do lifestyle – graças ao próprio N.W.A..

O longa mostra um farto relato sobre os problemas causados pela música do grupo – mas opta por não abordar questões polêmicas como a prisão domiciliar de Dr. Dre e uma doação bizarra de Eazy-E à campanha presidencial de George Bush (pai), atitude que deixou boladíssima toda a comunidade do rap. De certo modo, o envolvimento com gangues fica ligeiramente escamoteado, assim como a relação de outros membros do N.W.A., colocados em segundo plano na narrativa (o DJ Yella, cuja carreira começa antes do grupo junto a Dr. Dre, e o MC Ren, que lançou música com o Ice Cube ano passado). Drogas e misoginia também são temas deixados de lado.

Essa seletividade marcante estrangula a riqueza dos detalhes históricos – se inseridos, forneceriam mais complexidade aos personagens e suas contradições; afinal, trajetórias na vida nunca têm resposta fácil ou moralmente edificante. Fique claro, por outro lado, que essas imperfeições biográficas não legitimam qualquer tipo de assédio policial violento e/ou racista de jeito algum.

O grupo se dissolveria em 1992 para enveredar por carreiras solo de sucesso, mas deixando seu legado como poucos na história da música. O N.W.A. foi um ponto de partida para muita gente que se vê por aí até hoje – Snoop Dogg, que aparece no filme, é um dos rappers assumidamente influenciados pelos manos de Compton.

Rola, também, uma ligeira menção ao saudoso Tupac Shakur e ao seu controverso empresário, Suge Knight, apontado como o suposto responsável pela morte não apenas de Tupac, mas de Notorious B.I.G. também – esse documentário conta a história em uns detalhes tenebrosos.

Houve quem reclamasse que o filme luta contra um poder enquanto o abraça – mas não surpreende que isso tenha vindo de alguém que está fora do contexto em que a juventude negra se encontrava (e ainda se encontra). Como disse o mestre Ice Blue no UOL, não se canta para se morar a vida toda e morrer na favela. É para que as pessoas não tenham vergonha das origens e para que nunca desistam de acreditar nos seus sonhos. Esperança, afinal, nunca é demais. Que nos desculpe o “New York Times”, mas, nesta questão, vale ouvir quem é de dentro.

 

 

Faixas da trilha sonora:

N.W.A – “Straight Outta Compton”
Parliament – “Flash Light”
Eazy-E – “We Want Eazy”
N.W.A – “Gangsta Gangsta”
Funkadelic – “(Not Just) Knee Deep”
Eazy-E – “The Boyz-N-The Hood”
Roy Ayers Ubiquity – “Everybody Loves the Sunshine”
N.W.A – “Dopeman (Remix)”
N.W.A – “Fuck tha Police”
N.W.A – “Express Yourself”
Steve Arrington’s Hall of Fame – “Weak at the Knees”
N.W.A – “Quiet on tha Set”
N.W.A – “8 Ball (Remix)”
Ice Cube – “The Nigga Ya Love to Hate”
N.W.A – “Real Niggaz”
Ice Cube – “No Vaseline”
Dr. Dre – “Nuthin’ But a ‘G’ Thang” (ft. Snoop Dogg)