Conversamos com a vocalista das Bahias e a Cozinha Mineira e ela é muito mais que uma mulher trans, negra e artista que canta para protestar contra males como o machismo e a homofobia

 
Não é fácil ser Raquel Virgínia. Ela sabe disso, mas nem por isso vai desistir de ser o que é, por mais complexo que isso seja. A dificuldade de entendimento não está nela, mas sim em quem está a sua volta. Negra, trans, artista, classe média alta e moradora do elitista bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo. A vocalista das Bahias e a Cozinha Mineira acorda todos os dias tendo que enfrentar diferentes tipos de preconceito. Não se conforma com nenhum deles, mas tira tudo de letra e sem cair do salto.
 
Nascida em uma família majoritariamente branca no bairro Grajaú e criada em quebradas da zona sul da capital paulista, foi inquieta desde sempre. Quando chegou a maioridade foi para Bahia para estudar jornalismo, mas, na verdade, estava atrás do sonho de virar cantora de axé music, tendo como grande influência Ivete Sangalo. Virou cantora, mas não de axé, e a referência do passado hoje troca mensagens com ela no Instagram.
 
Raquel bateu um papo com o Freak Market no corredor de um estúdio na Vila Madalena, onde as Bahias e a Cozinha Mineira fazem a pré-produção do próximo disco batizado de Bixa. Em pé, por pouco mais de uma hora, a cantora falou de questões como a sua decisão por ser vegetariana, os vários tipos de preconceitos, fãs sem noção, estética e referências artísticas. O papo completo, com essa personagem ímpar, você confere abaixo.
 
Como você começou a ser vegetariana?
 
Eu tenho ficado cada vez mais concentrada em me sentir bem. Eu acho que a nossa sanidade é o que temos de mais valioso na vida. Manter a sanidade é um privilégio. Eu estava comendo muita carne e me sentindo muito pesadona e me deixando mal. Por questões ideológicas é meio punk falar. Poderia ser contraditório, mesmo falando que a questão da carne é um princípio para mim, mas no meu caso é algo mais individual. Embora eu acho que é uma contribuição comer menos carne, assim como não ter carro. Eu não acredito que uma andorinha só faz verão, acho que para uma coisa ser efetiva, ela tem que ser coletiva. 
 
Dá pra todo mundo ser vegetariano?
 
Não dá para subestimar o nosso poder para criar tipos de alimentações, até porque carne também custa. Eu conheço pessoas da periferia, sem grana que não comem carne e são criativas usando vários tipos de vegetais. Quando você opta por uma alimentação diferente, você pode ser de qualquer lugar ou condição social. Hoje em dia dá para aprender na internet como fazer coisas baratas. Vincula-se não comer carne com uma alimentação cara, mas comer carne também é caro. É uma questão de comportamento coletivo. A nossa sociedade é altamente carnívora e essa é uma opção nossa. A humanidade ainda não aprendeu a se comportar com a carne em larga escala.
 
Como é a sua rotina de consumo de informação?
 
Eu sou uma pessoa que construo rotinas. Eu vou a bancas de jornal e compro revistas. Gosto de publicações com pegadas mais plásticas como a Piauí, que é grande, bonita, tem ilustrações lindas, o papel tem uma textura gostosa de mexer. Os jornalistas às vezes viajam e escrevem coisas sem noção, às vezes levo os textos até mais para o lado da ficção. E muitas vezes é o jornalista querendo seduzir o leitor e eu gosto de ser seduzida pela estética da escrita.
 
De onde vem esse teu apreço pela leitura?
 
Acho que já começa porque sou libriana. Minha mãe sempre me estimulou muito, mesmo sem ser uma grande leitora. Ela é uma trabalhadora e sempre falou que eu ia fazer USP. O que ela queria mesmo era que eu me articulasse. Acho que nesse sentido eu deixo ela feliz, nos outros nem tanto. Ela mesma, sendo mãe solteira, conseguiu me manter em um colégio particular por 12 anos. 
 
E como é essa tua relação com a estética?
 
Eu desenvolvi um gosto pela estética. Sou um tipo de pessoa que quero ver se a cadeira é bonita. Eu sento melhor se a cadeira for bonita, eu tomo banho melhor se o banheiro for bonito. Fico o tempo todo tentando ficar perto do que eu acho bonito. Não gosto de ficar perto do que eu acho que é feio. Mas o que eu acho bonito nem sempre é padrão. Por exemplo: eu adoro caras de língua presa e olho torto. Sou muito voltada à questão da beleza, acho que é por isso que sou artista. 
 
O que te inspira fora da música?
 
Eu estou apaixonada pelo Moonligth. Esse filme é existência, sobre questões humanas, mas sobre o viés da negritude. Isso é ótimo, porque sempre a perspectiva universal é branca. Ele é muito delicado e sai dos estereótipos em relação aos negros. Como o elenco todo negro é possível ver vários tipos de negros. Não existe uma única perspectiva representando a negritude no elenco. Tem vários tipos de negros em um único filme. Tem um rapper, um gay, um bissexual e eu gosto muito como o filme trata das inseguranças. A população negra sofre de várias inseguranças e é mostrado como essas inseguranças são construídas e injetadas.
 
No teu caso, é possível ver diferença no que é preconceito de gênero e o que é preconceito racial?
 
Eu me vejo como uma pessoa extremamente insegura, embora eu seja colocada várias vezes como alguém forte e determinada, mas, na real, várias vezes eu estou me corroendo. Essa insegurança é quase um projeto político para fragilizar e controlar o povo da periferia. Eu sei muito bem diferenciar o que é uma coisa e o que é outra. É obvio que eu tenho mais privilégios do que algumas pessoas, pois eu sou uma pessoa de classe média alta. Mesmo assim tenho que ouvir do meu vizinho que eu tenho que voltar para o meu bairro porque ali não é o meu lugar. Ninguém segura a porta do elevador para mim, pelo contrário, até fecham mais rápido para eu não subir junto. Isso mostra bem essa política de insegurança. Você ascende de status, mas a estrutura não te quer ali. Então ela vai te minando. Mas é uma resistência continuar, embora eu diga que moro numa ocupação. Porque fazer uma galera branca ver que você está ali, que aquele é o seu lugar também e já que eles gostam de falar tanto em meritocracia, saber que você esta ali por mérito, deixa eles loucos. Moro lá há sete anos e não tenho um vizinho amigo. Eles só começaram a me dar bom dia depois que eu apareci no programa da Fátima Bernardes. 
 
É difícil para os próprios negros acreditar nessa ascensão?
 
Existe uma ascensão e eu tenho que lhe dar com isso. Ascender socialmente é ótimo, eu quero continuar tendo dinheiro. E quero ter mais, para que se for preciso, comprar o prédio de Higienópolis e expulsar todo mundo. Eu acho que a negritude e o povo da periferia não tem que ter medo de ascender. Tem que buscar a ascensão social de verdade. Tem que ser chamado de doutor e de doutora, tem que andar de colar de ouro e falar que ganha dinheiro mesmo. Os brancos vão toda hora para Disney e para Europa e eles não têm vergonha disso. Por que a gente tem que ter? Por que tem que ficar sempre se justificando?
 
Acha que exemplos como o seu pode inspirar outras pessoas?
 
Eu não tenho a pretensão de falar o que a negritude precisa entender. Cada pessoal negra é plural o suficiente para saber quais são os caminhos. Há pessoas que eu admiro muito o discurso que não defende esse meu pensamento que a gente tem que ascender socialmente, porque acha que seríamos outros poderosos e a via é outra. Eu respeito e essas pessoas me fazem pensar sobre o meu posicionamento. Nós, negros, temos que nos entender minimamente como movimento, porque não dá pra cada um tentar lutar da forma que bem entender. Tivemos 400 anos de escravidão e ainda estamos sentindo os reflexos disso. 
 
Como essas questões de opressão refletem na tua música?
 
Eu vou fazer um disco solo depois do lançamento do próximo CD das Bahias e A Cozinha Mineira. Já existem desejos artísticos meus e quero fazer um trabalho mais violento, com uma estética mais agressiva. Quero fazer uns clipes cortando cabeça de homem. Vai ficar lindo, porque eu não faço nada sem conceito. 
 
Quais tuas inspirações pra pensar em fazer coisas assim?
 
Caetano Veloso. O disco Araça Azul, por exemplo, as pessoas devolveram na época por não entenderem ele. Hoje ele é um clássico, mas ainda bem difícil de ouvir, porque é bem experimental.
 
E como é teu comportamento estético?
 
Eu sou bem regular, tanto que eu estou usando tranças loiras desde 2015 e só vou mudar quando lançar o próximo disco. Diferente das minhas colegas que quando eu olho o insta delas, estão sempre com um visual diferente. Eu acho lindo, mas eu tenho outro ritmo. As pessoas vêm me perguntar quando eu vou mudar de cabelo e eu respondo: “Faz pra Gisele Bundchen a mesma pergunta”. 
 
Como é essa interação com teu público, principalmente através das redes sociais?
 
Tenho uma relação boa, mas pessoas fazem perguntas que você não tem noção. Vai de sexo anal a qualquer coisa. O público às vezes extrapola um pouco. Eu sou muito extrovertida no palco. Nas redes sociais mando uns textões com zoeira, mas a minha liberdade sexual não dá direito a ninguém pegar na minha bunda ou alisar as minhas pernas. Porra, eu não gosto que encostem em mim. Eu sou alto-astral, mas não encoste em mim se não tiver intimidade. E olhe que eu sou super safada, adoro falar de sexo e baixaria, mas eu não dou liberdade. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Recebo pelas redes sociais um monte de foto de pinto, com pessoas dizendo que sonharam comigo e coisas desse tipo. 
 
Por que essas pessoas não sabem os seus limites?
 
Já ouviu falar na Vênus Negra? Era uma artista africana, do século XIX, que foi levada para Europa e toda vez que ela subia no palco o público tratava ela como se não fosse um ser humano. Queriam dar tapa na bunda dela, passar a mão nela. Quando eu subo no palco é exatamente assim que algumas pessoas se comportam da mesma maneira. E não é coincidência que isso ocorra comigo em lugares com maior incidência racista. Isso é simplesmente a fetichização do corpo da mulher negra. 
 
É nesse momento que você consegue diferenciar os preconceitos e raça e de gênero?
 
Sim. Eu sou de uma família de pessoas pobres que tem brancos e eu sempre soube qual era a diferença entre nós. Eu tenho censor pra identificar racista e eu fui educada pra isso. Sou filha de uma mulher branca, meu pai era negro, e eu sei o que é ser uma criança negra em meio a um monte de brancos. Racistas não me assustam, mas me revoltam. A gente vive, atualmente, em um ambiente de sofisticação. O nosso racismo vai desde alguém que te xingue de macaco até quem sorrir para você, mas não olha nos teus olhos. A discussão sobre racismo no Brasil ainda é meio bizarra. A própria mídia é racista.