Casal brasileiro percorreu o planeta atrás de bandas que topassem um trabalho colaborativo e a empreitada deu bons resultados

Em “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, o cavalheiro inglês Phileas Fogg desafiou seus companheiros de jogo de cartas, afirmando que conseguiria dar a volta ao mundo em 80 dias. Junto com seu fiel escudeiro Jean Passepartout, ele saiu de Londres e se encaminhou para a África, cruzou a Índia, passou pela Ásia, atravessou os EUA e retornou ao ponto de partida no tempo estipulado. No caminho encarou muitas aventuras e conheceu muita gente.

Léo Longo e Diana Boccara se inspiraram no clássico de Júlio Verne para realizarem um sonho que estava guardado há algum tempo na cabeça do casal. Diferente do enredo do livro de 1873, a trip da dupla durou mais de 700 dias e passou por 22 países diferentes. Ao invés de uma aposta, o que moveu Diana e Léo foi o desejo de desbravar novos lugares fazendo o que gostam: conhecer lugares novos e trampar com audiovisual.

Para cada dia de aventura de Fogg e Passepartout, o casal brasileiro fez um videoclipe de uma banda diferente ao redor do mundo. O nome da empreitada não poderia ser outro que não “Around The World in 80 Videos”. A viagem passou pelos cinco continentes com Léo, Diana, uma câmera, diversas ideias na cabeça e nenhuma certeza que a empreitada daria certo.


(Foto: Nicolas Molina)

Ele com uma larga experiência na direção de programas de TV e videoclipes e ela tendo boa parte da carreira dedicada à criação de roteiros, tiveram a ideia de desbravar o planeta em uma viagem que fizeram de carro pelo oeste dos Estados Unidos. A sensação de liberdade e de ter o mundo como casa fez com que, pouco tempo depois, eles embarcassem no projeto.

“A gente tentou vender esse projeto em 2014, querendo que alguém nos patrocinasse. Mesmo sem ter aparecido ninguém no início, decidimos que faríamos mesmo assim. Pegamos nossas economias e vendemos tudo o que tínhamos”, confessa Léo. “Nunca fomos apegados a casa, carro e coisas, então não foi difícil deixar tudo para trás para correr atrás do nosso sonho”, completa Diana.

Espírito colaborativo

Em “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, Júlio Verne relata que Fogg e Passepartout ao longo da jornada encontram com diferentes tipos de pessoas e costumes. Uma delas, a Sra. Aouda, é salva de um ritual de sacrifício pelos viajantes e resolve seguir viagem com eles como forma de agradecimento. O casal brasileiro não precisou salvar ninguém, mas também tiveram encontros inesquecíveis durante a realização do projeto.


(Foto: Fernando Milagro)

Pela qualidade que se vê nos 80 clipes produzidos por Léo e Diana, é difícil pensar como foi possível chegar ao resultado final com tão poucos recursos técnicos e de pessoal. Mesmo com toda a ideia partindo dos dois, as parcerias e colaborações que receberam em todos os lugares em que passaram foi fundamental para o sucesso da empreitada.

Além das bandas que se envolveram com o projeto, houve lugares onde pessoas apareceram quase que ao acaso para que fosse possível um vídeo ser gravado. Como os recursos financeiros era algo escasso, a única moeda de troca que a dupla podia oferecer era o compartilhamento daqueles momentos.

“Uma das coisas que mais ficaram marcadas dessa experiência foi encontrar pessoas dispostas a uma troca colaborativa e criativa. Como seres humanos, temos muito que aprender com o outro. E foi isso que fizemos, com as bandas e com as pessoas que apareceram no nosso caminho”, conta Diana.


(Foto: Ainslie Wills)

Uma das ajudas mais significativas apareceu na Coreia do Sul. Com dificuldade para se comunicar com as bandas e mídia do país asiático, Diana e Léo receberam a inesperada ajuda de alguém que passou a ser mais do que uma intérprete. Gracia Lee, uma brasileira que mora no país, se juntou ao casal e também passou a fazer as fotos do projeto.

“É uma tendência do mundo inteiro. A economia colaborativa hoje já é uma realidade. Quem é da música e do cinema sabe que isso funciona há muito tempo. Você chama um amigo para gravar uma música, para fazer divulgação, etc. Agora o mundo está descobrindo isso e repensando a forma de fazer negócios. No caso da Gracie foi muito isso. Ela nos ajudou na produção e nós divulgamos todo o trabalho que ela fez conosco”, lembra Léo.

Deixa eu te gravar

Imagine duas pessoas que vieram do outro lado do mundo segurando uma câmera nas mãos e dizendo que quer gravar um clipe de uma banda que eles também mal conhecem. Era mais ou menos assim a abordagem do casal brasileiro chegando num país desconhecido atrás de grupos que topassem a embarcar no “Around The World in 80 Videos”.


(Foto: Diego Gonzales)

Antes de chegar ao lugar de destino, Léo e Diana faziam uma longa pesquisa sobre a cena local e quais grupos se encaixavam no perfil colaborativo do projeto. Dentre as bandas gringas estão nomes como Ben L’Oncle Soul, Molotov, The Coronas, Monsieur Periné, Cairokee, Los Románticos de Zacatecas, Linda Martini e We Were Promised Jetpacks. No Brasil foram Pato Fu, Scalene, Móveis Coloniais de Acaju, Vespas Mandarinas, Brothers Of Brazil e Vanguart que toparam a parceria.

“Esse projeto foi muito experimental e buscou uma forma de repensar a relação do videomaker com a música. No final das contas era a banda que escolhia trabalhar com a gente, aceitando o convite. A banda tinha que ter também esse espírito colaborativo e alguns casos nos surpreendeu. Eu nunca achei que o Molotov, que é uma das maiores bandas do México, topariam gravar com a gente e eles aceitaram numa boa”, revela Léo.

O último dos 80 clipes será lançado nesta semana. A escolha da banda que ganharia o vídeo que encerraria o projeto foi feito através de um concurso que recebeu mais de 800 inscrições. Os vencedores foram os paulistanos da Vitreaux, que venceram a final disputada em setembro na capital paulista.


(Foto: Jordi Lane)

Além das oito dezenas de vídeos, o Around The World in 80 Videos também resultará em um livro onde serão contados detalhes e bastidores da aventura do casal que juntou muitas formas de amor: o que tem entre eles, pela música, pelo trabalho, por conhecer outras pessoas e o por compartilhar o que vivem com o maior número de pessoas possível.