Quanto custa o trabalho do artista independente?

"Oi Yara! Vamos no Aniversário daquele nosso amigo. Leva a câmera?"

Já enjoei de dizer sim pra essa pergunta, sempre pensando ‘é bom que faço portfólio né?’. Mas o fato é que a câmera é minha vida!

Já cheguei a trabalhar em eventos de HORAS por 150$, fotografia do evento, tratamento e entrega. Imagina! Horas fotografando, mais horas editando, sem falar os equipamentos alugados e anos estudando para garantir um bom trabalho.

Nós artistas aceitamos a desvalorização como se fosse a única opção viável. Uma vez entrei na casa de uma amiga pintora, com uma tela LINDA de quase 3m² que segundo ela custava 3 mil reais. “O problema que não vende na galeria né? Eu não tenho nome, ai é considerada cara demais…” me disse.

Foto: Jezebel Nanartonis

Para entender mais, reuni alguns depoimentos de artistas que passaram por situações parecidas no mercado. Vou mudar o nome das pessoas por razão de privacidade :) 

Agatha*, 24 anos, é profissional na área do áudio, com graduação e especialização, está começando agora no grande mercado, mas com um portfólio bem montado:

“Me pediram um orçamento, como de costume eu mesma já mandei o valor abaixo do que deveria cobrar, porque a gente faz isso né? Tudo o que recebi foi um e-mail dizendo que o valor seria encaminhado para a gerência e nunca mais ouvi falar do lugar”.

Além da desvalorização do mercado, sofremos uma auto desvalorização, é como se nós mesmos criácemos uma consciência comum do quão “inútil” é nosso trabalho para a humanidade. O que já é um absurdo por sí só, afinal temos o nosso trabalho solicitado o tempo inteiro, mas essa consciência coletiva de desvalorização nos leva a cobrar pouco ou nada por nossos serviços.

É muito comum que artistas no começo de carreira aceitem serviço de graça para “fazer portfólio”. Nós pagamos nossa condução, alimentação, tintas, nanquins, papéis especiais, figurinos...TUDO, para que uma pessoa explore nosso conhecimento.

Isso sem falar dos anos de estudo,graduação, pós graduação, mestrado, cursos livres, palestras, workshops, autodidatismo, horas e mais horas atrás de livros e artigos. Tudo o que fazemos vem do nosso estudo e conhecimento. Tem preço sim!

“Justamente pelo fato de ser autônomo, quando questionam o valor deixo claro o porque, seja prazo curto, projeto complexo, etc. já teve quem falou que eu estava  SUPERFATURANDO meu trabalho e que encontrou valor melhor, fui obrigado a responder ‘que ótimo, espero que fique bom, pois o meu ficaria’”

Gustavo*, Diretor de Arte

Nesse preço? Só pode ser de boy!

A galera de São Paulo Capital costuma conhecer as baladas carésimas da Rua Augusta, baladas lotadas que cobram preços abusivos na entrada e nas bebidas. 

Jovens de todas as idades e meios frequentam esses locais e dificilmente você ouve reclamações. Mas quando é para pagar a entrada e preço justo na balada independente… aí sim temos um problema!

Comentários da página Freak Market

É isso! Um espaço independente, que mais do que qualquer lugar privatizado e apoiado por marcas é o que PRECISA cobrar valores justos para manter artistas independentes, DJs e o próprio local.

Porque relativizamos gastos?

Além do preço, tem o descaso

Nesse eu não tive prejuízo financeiro, o problema foi um descaso. Eu sei que um diretor que trabalha há muito tempo no ramo tem que ser mais rígido, mas destratar alguém por ser da figuração é complicado.

Carla*, 24 anos, dublê e atriz

A desvalorização da nossa mão de obra ultrapassa o aspecto financeiro e quando alguém paga o preço considerado justo pelo trabalho, lá vem ele, o descaso. Somos tratados como se estivéssemos recebendo mais do que deveríamos por um trabalho "desimportante".

Eu estava num comercial de uma marca grande, gravamos em São Paulo num dia de 38° numa região mega urbanizada. Eu era figuração, mas acabaram me colocando num papel de mais destaque. Eu estava vestida com um figurino gigante, muitas camadas de tecido, passando muito calor. Em algumas pausas eu pedia água, até que o diretor disse de maneira bem agressiva 'Vai ficar dando água toda hora??'. Foi necessário que um câmera o lembrasse do calor, do asfalto e do meu figurino.


Carla*, 24 anos, dublê e atriz

Mas quanto custa?

Bom, a famosa Mona Lisa é uma obra sem preço, ela é tão cara que ultrapassa os valores existentes na humanidade. Um tênis da Balenciaga, reprodução daqueles dos anos 90, custa 7 mil, o tijolo da Supreme ultrapassa os 1000 dólares. E aí, como precificamos a arte?

O fato é que uma obra custa o quanto o artista estipular, entre produtos, estudos, tempo de produção e qualidade. Se for caro para você, é só recusar. Mas lembre, Caro em relação a que? Além da desvalorização monetária, sofremos com a desvalorização profissional. A arte acompanha a humanidade desde a pré história e não existiria sociedade sem ela.

*Depoimentos reais coletados entre amigos e colegas. Todos os nomes foram preservados.

Escrito por:

Yara Oliveira

Graduada em Rádio e Tv, com extensão em artes contemporâneas e cinema e pós em design. Comunicação, arte e design, paixões intrínsecas da minha vida e bases da sociedade, que tenho necessidade de aprender e explorar cada vez mais.
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