Diego Rimaos e sua arte de criar mundos

O artista cria elementos híbridos de ficção e realidade, fazendo mais que uma arte meramente decorativa.

Diego Rimaos e parte da escultura ''Boitatá'', de 2018, exposta no projeto L.O.T.E., no Instituto de Artes da Unesp-SP.

A produção artística de Diego Rimaos é recente - pouco mais de 4 anos -, mas nos mostra muito mais que estilhaços da sua abrangente produção criativa. Ele trabalha há alguns anos como restaurador de papeis em São Paulo, e frente à um amplo conhecimento desse material, decidiu investigar as possibilidades estéticas que poderiam surgir ao escolher o papel - e vertentes da celulose - como base para seus trabalhos.

''Gosto de pensar nestes suportes como algo que lembre membranas, a forma básica da biologia onde independente do conteúdo, sólido, líquido ou gasoso essa parede é a detentora da forma e tem infinitas possibilidades.''

O material pode parecer simples, mas a quantidade de texturas, cores e aplicações encontradas no seu ateliê é surpreendente. Diego costuma trabalhar bastante em cima da matéria-prima, alterando a percepção do aparato inicial que dá origem à novos formatos e alimenta os processos de experimentação nos quais as ideias para as obras acabam surgindo.

Ao garimpar todas essas formas e narrativas, Diego as contextualiza em seu repertório pessoal e nos lugares de afetos coletivos.

"Eu costumo ter uma prática de ateliê que tem muito esse caráter experimental, materiais novos, técnicas novas e até mesmo estéticas novas surgem a todo momento e se permitir isso é fundamental. Mas ter em mente a diferença entre experimento e trabalho faz muita diferença, no momento 'experimento' a criatividade domina todo o processo, já na execução do trabalho é preciso ter dados e direcionamento para se obter um produto de boa qualidade que some estética e discurso coerente."

Seus trabalhos estabelecem um paralelo entre a estética por vezes fantasiosa, com seres que não podem ser completamente definidos, e um recorte cultural que lança ao espectador um convite de ''despir o olhar'' e mergulhar nas sutilezas contidas nas peças. É muito fácil lembrarmos de origamis ou peças de artesanato daquelas encontradas em feiras nos centros das cidades, porém ao chegarmos mais perto, vemos um trabalho de grande cuidado e com uma pesquisa na cor e no material que confunde o olhar, mas ampliando a dúvida sobre o que estamos vendo. A lembrança é um ganho muito utilizado pelo artista para convidar o espectador à esmiuçar a técnica e traduzir o trabalho de acordo com o seu repertório.

"…quando retrato este assunto penso em multiplicação, transformação do sentimento, …acredito que esse aspecto de signo entra de forma muito peculiar no trabalho, existe o conteúdo explicitado com a carga afetiva do artista e o absorvido pelo observador que permeia todo o seu universo e ativa o seu afeto, somando ambos. A manutenção da memória precisa desse fator multiplicador, ela só existe enquanto passada,(…)me aproprio muito desta afirmativa para pensar nessa 'memória afetiva' que é volúvel praticamente viva.''

Diego já participou de algumas exposições coletivas, como na 1ª EAI (Exposição de Artistas Independentes) da PONDER70, o projeto acadêmico L.O.T.E e chegou a disponibilizar algumas peças para venda em uma galeria online de Brasília. Sobre sua passagem por esses espaços, ele comenta que

''ser visto é o primeiro passo para adentrar nesse universo, lugares novos de cunho alternativo como a Ponder70 trazem essa possibilidade para iniciantes como eu darem o primeiro passo. Mas é sempre muito importante ter em sua cabeça a consciência de quão moroso e lento é o processo de construção de uma carreira."

Na arte contemporânea, a noção de artista, obra e conceito que entendemos hoje, ainda é bastante calcada nos resquícios do que foi proposto principalmente em meados dos anos 60 e 70 com grupos vanguardistas e da elite.

"Pra mim a arte tem se afastado tanto do símbolo, que acaba sim, tendo esse contraponto de embasamento cultural mínimo para sua leitura, mas não acredito que essa é a regra que define o trabalho de arte hoje.''

Com esse pensamento, Diego continua sua produção independente expandindo as leituras possíveis com o material, transfigurando sua aparência, ao mesmo tempo que pisa forte em suas raízes e na cultura dita ''popular'', abraçando uma estética que pertence tanto ao rio violentado que cruza a cidade, quanto ao espaço asséptico e sacralizado dos espaços de arte.

Escrito por:

Felipe Carvalho

Felipe é graduado em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Entre muitos desdobramentos, pesquisa assuntos em artes visuais, filosofia e sociedade. Gostaria de ver um show da banda TETO PRETO na Sala São Paulo
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