FOTOGRAFIA DE PROTESTO: A arte & a Guerrilha de Guigo Rua.

Em meio a greves, manifestações, bombas e gritos por liberdade, diversos fotógrafos estão espalhados na multidão registrando momentos de luta, de união e contando a história do nosso país com suas câmeras nas mãos!

A fotografia foi apresentada em 1826, por Joseph Nicéphore Niépce e ele não poderia prever que aquela invenção teria uma importância tão gigantesca, de retratos de famílias poderosas até registros de grandes marcos da humanidade, assim a fotografia se tornou um do mais  poderosos instrumentos da comunicação no século XX.

Robert Capa, que morreu enquanto cobria a Guerra da Indochina em 1954,
através das lentes e de sua maestria, o mundo pôde conhecer os registros carregados de tensões, caos e as mais sombrias facetas de uma sociedade. Fotógrafos como ele e tantos outros, fizeram com que a fotografia também se tornasse instrumento de combate.

Em junho de 2013, o Brasil voltou às ruas. A tarifa de ônibus havia aumentado sem aviso prévio à população tanto de São Paulo quanto de outros Estados. O sistema de transporte coletivo, que se diz “público“, entregava um serviço péssimo ao seus usuários com diversas deficiências e ainda aumentava sua tarifa de R$ 3,00 para R$3,20 .

O povo finalmente voltou as ruas! Pessoas que não tinham nada a perder, sem medo de repressão e juntamente com o Brasil, a arte também foi para o asfalto.

O caos deixou de ser um mero registro e fotos não eram mais só curtidas em redes sociais. Em cada fotografia e cada documentário, retratos do povo brasileiro redescobrindo as ruas aumentava e a consciência de que sem o caos é impossível criar um novo começo, foi se tornando verdade novamente.

Me recordo quando ainda sonhava em ser fotógrafo, mas não possuía equipamentos e mesmo assim fui às ruas. Sempre fui observador e os cartazes e palavras de ordem saindo da boca de jovens furiosos, assim como eu, que estavam dispostos a bater de frente com o sistema me emocionavam.

Testemunhei os olhares inflamados em cada grito e vi estes mesmos olhos marejados com o gás de pimenta, arremessados pelos "novos-soldados-romanos ", a famigerada PM.

Corria junto e senti, entre tropeços, a violência da PM contra os manifestantes. O povo contra o povo ficou registrado em minha mente de uma forma tão viva, mas tão viva, que acreditei que nenhuma fotografia poderia reproduzir aquele momento!

Dias depois chegaram aos meus olhos fotografias dessas manifestações através de coletivos independentes e confesso que por pura ignorância só naquele momento, tive conhecimento da Primavera Árabe, as manifestações e as imagens intensas de 2011.

Me enganei, aquelas fotografias conseguiram registrar de uma forma tão potente aqueles momentos que presenciei, que uma semente foi plantada em mim naquele instante: A da fotografia de guerrilha.

A medida que as manifestações se tornaram constantes, mais fotografias foram surgindo. O Brasil finalmente tomou conhecimento sobre os Black Blocks e a resposta ao abuso de autoridade veio em forma de depredações, ônibus queimados e barricadas. E fotografias viscerais, pesadas e artísticas como as letras dos raps antigos que ouvia na periferia onde morava foram brotando como flores no asfalto.

E como diria Mano Brown, “era a brecha que o sistema queria ". A PM passou a agredir a imprensa, porém os fotógrafos não tinham medo e continuaram a denunciar, mas pagamos um preço alto. Um dos grandes fotógrafos do Brasil, Sérgio Silva, foi alvo de uma das maiores atrocidades do Estado de São Paulo. Uma bala de borracha disparada pela PM tirou-lhe a visão do olho esquerdo e o mundo viu a face de um sistema arcaico e violento; o Brasil estava nos assuntos mundiais. A fotografia mais uma vez, contribuiu para que o mundo tomasse conhecimento de tudo aquilo que estava acontecendo.

No ano seguinte, consegui meu primeiro equipamento e com ele continuei indo firme as ruas, sempre em busca de transmitir essa sensação de estar lá, ligado a tudo e a todos à nossa volta. As manifestações continuaram, ainda que não tinham a mesma força explosiva de antes. Mas os mesmos olhares esperançosos e cheios de coragem, como os da maior manifestação liderada por mulheres na história do Brasil, em 29 de Setembro de 2018, continuaram ali vivos.

Mulheres livres, guerreiras, lutando e gritando palavras de ordem contra o maior representante dos homens machistas, misóginos e homofóbicos,  o atual (des)presidente Jair Bolsonaro, na época apenas candidato.

A fotografia de guerrilha é crua, tremida, são olhares que encaram as lentes, olhares de quem sabe que cada momento ali é uma forma de luta! É a face de quem não vê a hora de poder atacar com brutalidade aqueles que apontam seus direitos e continuam a mostrar ao mundo a força que o povo tem.

Os anos vão passar e os cidadãos de tempos em tempos irão às ruas para manifestar seus descontentamentos, gritar seus direitos e nós, fotógrafos estaremos lá sempre com câmeras em punho, ristes como armas, mas nunca para matar e sim para registrar a vida, a luta e as mazelas da sociedade.

Onde os olhares se encontram, no caos e no medo, o fotógrafo de guerrilha está.

FOTOGRAFIAS: Guigo Rua.

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Escrito por:

Guigo Rua

Fotógrafo e Produtor Audiovisual com influências do cinema, música e arte. Através de clipes musicais conheceu a fotografia. Esse ano estreou o primeiro clipe com sua direção e fotografia. E ultimamente está fazendo alguns trabalhos para um time de futebol de São Paulo.
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