festa com piscina e alguém de meia calça preta que mergulhou na piscina e ficou só com as pernas pra fora

Ivi Bugrimenko fotografa ''adultos de boa e jovens de noia''

No mundo analógico da fotógrafa, o momento ideal acontece 24hrs por dia.

Existe uma coisa em comum nos inúmeros showcases, baladinhas intimistas, galpões ocupados e sofás de matelassê antigos onde artistas e habitués do underground paulistano se encontram: a grande maioria deles já ficaram frente a frente com as lentes da fotógrafa Ivi Maiga Bugrimenko. Intimidador? Nem um pouco. As cenas registradas pela artista flutuam num imaginário pra lá de real no ''noite-a-noite'' dessa galera.

O trabalho de Ivi teve início há três anos. Coincidindo com a morte do pai, ela encontrou em seus pertences uma câmera esquecida, com um filme não finalizado.

''Ele deixou uma câmera analógica automática numa gaveta do escritório que ele tinha em casa, e eu a encontrei com um filme não terminado dentro. Eu peguei a câmera e comecei a usar, pra mandar revelar esse filme e ver que imagens ele tinha registrado e deixado lá.''

Dali por diante, muitos incontáveis acasos foram atraídos para as fotografias de Ivi. Frequentadora dos rolês mais descolados e diversificados da cidade, ela não precisou ir muito longe para encontrar seu tema favorito: pessoas. Festas como ODD e MAMBA NEGRA - conhecidas pelo universo à parte que criam a cada edição - acabaram entrando no estúdio vivo que Ivi usa para criar seu material. As fotos sempre sugerem uma infinidade de elementos e sensações que fizeram parte daquela experiência única, mesmo que essa seja um copo de bebida caído no chão.

''...nunca planejei criar um recorte de algo, eu acabei caindo nesses rolês, fazendo amigos, e essas coisas passaram a fazer parte da minha vida e por isso eu as fotografo.''

Nesse emaranhado de acasos, Ivi criou um extenso álbum de recordações e de amigos. Os rostos se repetem em diferentes lugares e te obrigam a se relacionar de forma muito pessoal com a imagem: em seus diferentes perfis, ela divide fotos analógicas registrando festas e encontros (@adultodeboa); provoca uma imersão mais abstrata mas incrivelmente expressiva e em p&b (@socialixo) e por fim reserva um espaço no tumblr dedicado apenas aos amigos mais próximos. Todos esses perfis são extremamente ativos, independentes e preenchem o feed a qualquer hora do dia.Ter uma foto tirada por ela já virou um ''cool badge'', e haja colecionador

É divertido perceber como absorve-se a intimidade da foto, mesmo quando não se tem a mínima ideia de quem ou o que esteja acontecendo ali.

Não é raro ver a fotógrafa com sua Cannon analógica pendurada no corpo, sempre rodeada de quem quer que esteja organizando o rolê. Essa não-divisão de vida e trabalho criam condições singulares de criação, onde o objeto da foto é íntimo e permite toda a experimentação contida nas imagens. No seu percurso até agora,  Ivi se tornou integrante do team de visuais da MAMBA NEGRA (festa-rito de música eletrônica, performances e experimentalismos que está entre os principais nomes da cena, e tem expandido consideravelmente o nível das ''festas de galpão'' na cidade e fora dela), colecionando imagens surreais e suspensas no tempo.

''...o que eu gosto mesmo de tirar foto das festas é que nunca dá pra saber o que esperar. por mais que exista um rito, e as vezes pareça repetitivo, tem sempre um aspecto de novidade, porque aquele conjunto de pessoas, naquele determinado local, é uma combinação que não vai se repetir, e isso é parte do que me instiga.''


Fora da agitação da vida noturna, mas ainda próxima de algumas pessoas da cena, ela também colabora em projetos de zines e publicações independentes, colocando suas fotos em novos contextos interpretativos e expandindo a circulação das imagens.

Apesar desse movimento intenso, Ivi não se rende ao ''status'' e defende que uma boa foto não se faz com equipamentos hiper-modernos e caros. Filosoficamente falando, as fotos de Ivi não conseguem existir sem a realidade. A imagem é parte do ambiente onde o que importa é sempre a experiência pura. A câmera de Ivi funciona realmente como uma extensão do seu olhar, mas esse olhar é tão imerso no momento que não cria limite de leitura, pelo contrário: amplia o que o filme registra de forma tão ágil adicionando mais sentido à uma vida aberta para a experimentação.

Escrito por:

Felipe Carvalho

Felipe é graduado em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Entre muitos desdobramentos, pesquisa assuntos em artes visuais, filosofia e sociedade. Gostaria de ver um show da banda TETO PRETO na Sala São Paulo
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