William Baglione: O lado B da Fotografia

Um paulistano punk rock, que busca há décadas traduzir todas as suas vivências urbanas e caóticas em meio a cliques eróticos, onde a ambição de provocar sensações, questionamentos e estranheza chamam o expectador para o seu mundo particular!

Desde a Monalisa, musa eternizada de Da Vinci, até Rose posando para Jack Dawson em uma cabine escondida no lendário filme Titanic, quase toda mulher em algum momento já sonhou em ser modelo, para estar sob os olhares aguçados de um artista, tendo sua beleza registrada para si e para o mundo.

Eu, obviamente não seria diferente! Sou quase uma Balzaquina e quando se está chegando aos 30, muitas reflexões ocorrem na nossa mente e de fato uma delas é: "Sou uma mulher comum e o tempo passa rápido, será que ainda há beleza em mim?". Realmente não é fácil ser mulher e sustentar o olhar no espelho, sem duvidar de coisa alguma.

Pra resgatar muito da minha confiança e autoestima, já fiz diversos ensaios e a grande maioria sensuais e com uma pegada alternativa, justamente para por para fora aquilo que está nos meus devaneios. Sempre fui apaixonada por cenas inusitadas, nudez e uma pegada meio rebelde.... Inclusive se você gosta de fotografias sensuais, dá uma olhada nisso aqui!

E nas minhas pesquisas por referências visuais underground encontrei Willian Baglione, um paulistano raiz, vindo da ZL para o mundo!

Suas fotos me impressionaram muito justamente por essa atmosfera “suja” que ele traz em suas composições e eu que não sou boba, o convidei para trocar uma ideia sobre o seu trabalho.

Se liga nesse bate-bola muito louco que a gente teve! Baglione me fez ter a certeza que fotografia fala sim e conta suas próprias histórias viu?

Ana: Você viveu os anos 80 e 90 de maneira bem intensa na juventude. Como estas décadas te influenciaram no modo como faz sua arte?

Willian: Foram décadas de muita criatividade e subversão! Cresci sob a luz dos movimentos Punk e New Wave , das pinturas em rua em época de Copa do Mundo, dos pipas e turmas de baloeiros , das gangues de periferia , da pichação , do graffiti , do anarquismo gráfico , do fotojornalismo , das poesias e dos quadrinhos marginais e fanzines , dos filmes B em cinemas de rua , dos Sebos espalhados no centro da cidade e o começo da proliferação do fast food. Como não ser influenciado?

A: Como a cultura brasileira prevalece no seu trabalho, ou vc o considera multicultural, até pelo fato de ter viajado o mundo?

W: O meu estilo é multicultural , não há nada de brasileiro nele ...  é quase uma linguagem cinematográfica que pode ser observada sobre qualquer olhar distraído. Não considero que este “porque” das fotos venha das viagens que fiz , mas sim da cultura que consumi ao longo dos anos , sobretudo em período pré internet , Google , redes sociais e smartphones.

A: Qual a sua intenção de expressar ao feminino em suas fotografias?

W: A minha intenção é de retratar a beleza e a força presente nas mulheres que geralmente não são modelos, e que vem das mais diferentes profissões. Isso que é legal , pegar essa personalidade de quem tem curiosidade de se ver fotografada e levar para um universo nonsense, bem fora da caixa.

A: Como você se enxerga dentro deste cenário, sendo um homem que fotografa mulheres neste contexto de nudez, sensualidade e subversão?

W: As mulheres são fotografadas de forma sensual a cerca de 100 anos , não é uma invenção minha. Eu vejo o meu trabalho de forma natural , a única provocação é de estabelecer um diálogo com o espectador para que ele construa uma história a partir do que ele está vendo.

A: Onde vc crê que seu trabalho se encontra quando se trata da objetificação da mulher e da arte de fato, neste nicho da fotografia?

W: Não concordo quando fala de objetificação da mulher. Me vejo como um artista que tem conceitos que podem sim ser discutidos , mas a ideia central vem de colocar a mulher com toda sua personalidade e beleza para fazer aquilo que na vida real não é comum ... seria como por exemplo em um sonho em que você poderia até se vestir de borboleta e fumar um cigarro em cima de uma geladeira com todas luzes estouradas na cor  vermelha. Consegue ver essa cena acontecendo ? Eu consigo.

Importante também dizer que muitas ideias são construídas a quatro mãos , sendo que a pessoa fotografada tem liberdade de colocar suas ideias e posso garantir que muitas vezes são ideias muito mais ousadas do que as que eu apresento.

A: Quais materiais você usa para fotografar, prefere analógica ou digital?

W: Fotografo com analógica point and shoot e digital , lembrando que eu faria apenas com analógica se o custo fosse menor. Uso também flash , filtros , luminária e lanterna. Tudo o que caiba em uma mochila pequena.

A: Como é seu processo criativo? Como se dá a construção do conceito do ensaio, escolha do cenário, modelos, figurinos e etc..?

W: É muito intuitivo , não há uma fórmula para transcrever. Tenho nome para projetos como Chante Nightz, Coffee or Cigarettes e Good Morning Vietnã, onde eu simplesmente deixei fluir! Então, não há muito critério e produção envolvidos. "Free as a bird!"

A: Como é sua relação com o ambiente a sua volta? Tudo pode virar foto, ou você tem um olhar treinado pela sua linguagem?

Sou bastante guiado pelo sarcasmo e ironia, basicamente é o que o meu olhar mais busca na hora do registro. Um click nonsense.

Esta conversa me fez pensar muito sobre como podemos ressignificar nossos corpos, nosso olhar sobre o outro e ainda mais sobre nós mesmos! Deixar a mente livre para mergulhos profundos faz emergir ideias inusitadas e que na realidade nada mais são do que um desejo bem simples: O de externar a humanidade sem limites ou amarras.

William possui uma galeria online que é de deixar qualquer um besta e irá em breve expor suas fotografias em SP num projeto super interessante e obviamente eu estarei lá para espiar isso mais de perto! Aguardem as cenas dos próximos capítulos...

Se você também é artista e entende a importância de expressar o seu trabalho como você bem entende, vai gostar de saber que pode apoiar a nossa revista e garantir que você e muitos outros continuem mostrando diferentes visões desse mundo.

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Escrito por:

Ana Medioli

Ela é bruxa, publicitária e sonha em ser mãe de família, mesmo tendo um monte de tatuagens pelo corpo, uma vida não tão regrada assim, e jura que segunda começa a dieta, sempre! Aos 27 anos já se mudou mais de 10 vezes em SP, se considera uma cigana na cidade grande e acredita de verdade que a arte vai salvar todos nós do fim do mundo.
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