Paulo Ito faz uma crítica colorida e sagaz sobre o cotidiano humano, suas fraquezas e seus males. Sua arte toma conta dos muros e paredes da megalópole paulista, dando um tapa com luva de pelica utilizando grafite.

Temas como miséria, fome e violência podem passar despercebidos no primeiro instante, mas, se for analisar uma segunda vez, percebemos algo que nem os telejornais nos mostrariam com tanta clareza. Paulo Ito optou o ambiente de guerrilha livre das ruas ao aprisionamento num museu. Assim sua mensagem chega mais rápido aos olhos da população e um número maior de indivíduos é impactado de maneira mais eficiente. Paulo é, sem dúvida, um dos nomes mais carismáticos da cena grafiteira paulista atual.
 

Paulo, como você começou a grafitar e qual foi a motivação para entrar de cabeça nesse universo?

Comecei pintando paredes/murais em 1997 na Unicamp, onde estudava com amigos. Tínhamos um grupo chamado “m rut”, que era o contrario de um pseudônimo do Marcel Duchamp (r mut), um artista de arte conceitual. O nome era o contrário. Não era uma arte muito conceitual o que fazíamos.
 
Em 2000 comecei a me aproximar do grafite e da arte de rua. O campus não era um ambiente de rua, era público, mas restrito. Entrei de cabeça e me inseri com o povo da Vila Madalena na casa do aprendiz e o spray possibilitava uma nova gama de atuação. Pela facilidade e simplicidade adotei o spray e grafite para me expressar. Senti que era difícil e demorado emplacar em galeria, aí fui pros muros e ruas.

O quanto o artista americano John Howard te influenciou?

O artista John Howard foi uma influência que ficou no subconsciente pra mim. Foi o primeiro artista de rua que conheci. Devia ter 11 ou 12 anos de idade. Ele estava pintando na Vila Madalena e foi um panorama interessante que criei na minha cabeça quando o vi pintando um dos ônibus vermelhos, da época da gestão Jânio Quadros, como forma de protesto. Ele foi detido e já estava respondendo a um processo anterior. Anos depois, aquela imagem transgressora ficou como influência pra mim.
 
Hoje ele ainda me influencia pela integridade e, mesmo com uma atuação mais discreta, com mais de 70 anos, está na ativa, desenha todo dia e é um exemplo. A gente tem músico, jogador de futebol como heróis e boa parte deles param numa certa idade. Ele é um tanto radical e verdadeiro a seus valores e princípios. Me vejo como alguém como ele (risos).
 

Seu trampo pega pesado com crítica social. Um dos primeiros que vi foi o da criança chorando a mesa com uma bola de futebol no lugar da refeição. Você acha que estamos num dos piores momentos de desigualdade social da história?

Acho que o quadro de miséria extrema diminui no Brasil. Algumas pessoas conseguiram sair da situação de pobreza nos governos anteriores, mais preocupados com os problemas sociais. Do outro lado, vejo um empobrecimento geral no mundo, em especial da classe média, e o corte de direitos dos trabalhadores e imigrantes. E um grande problema é ter um pequeno nicho que detém grandes fortunas aumentando a desigualdade no mundo.
 

O que você acha da pixação ter tomado caráter de arte nos últimos tempos e ser exibida em galerias?

Eu acho que isso vai de cada pichador. Tem pichador que não picha em cemitério e outros que não gostariam de ter seus trabalhos expostos em galeria. Não vejo problema. Acho que uma parte alcança esse status e eles têm que embasar suas ações para fazer parte desse circuito. Poucos têm condições e interesse em fazer parte disso. Como diz o Djan Ivson; “Pixação é a nova arte conceitual”. Acho que isso tem mérito. Não sou um grande fã de arte conceitual, mas sei que tem valor, especialmente se bem justificado.