Nutty, ou Mario Malukinho, começou aos onze anos de idade a aprender piano com sua tia que tocava na igreja, no interior de Porto Alegre, e no mesmo ano (1987) ganhou um computador MSX, que já dava pra programar uns barulhinhos monofônicos.

 
Uma revista de computação apeteceria ainda mais o futuro produtor por ter linhas de programação da música "New Years Day" do U2, a qual ele escreveu como estava na revista, mas soava errado. Cabrero com a situação, prontificou-se em mandar uma carta para a publicação com as linhas corretas. E isso chamou a atenção ainda mais vindo de uma criança que já devorava tecnologia num período em que as guitarras eram o ápice de ser cool e popular.
 
Nos anos 90 se amigou com músicos e produtores e envolveu-se em diversas bandas. Sua amizade com o doidão Edu K, da banda De Falla, lhe abriu um leque musical e pouco tempo depois mudou para a caótica Sampa para começar seu aprendizado produzindo artistas de hardcore, rap e indie rock. Já nos 2000 investiu num estúdio de gravação, o Santostudio na Lapa, e começou a gravar sob o pseudônimo de Nutty, porém, ainda usando guitarras e referências do rock alternativo. Decidido a se jogar de cabeça nos synths, o projeto deu uma guinada e tornou-se mais eletrônico, experimental e desafiador.
 
O que não falta são estórias, aventuras e muita loucura musical dessa figura.
 

Você se considera um viciado em música e tecnologia? Costuma colecionar sintetizadores e drum machines?

Completamente viciado. Ensinem eletrônica e música ao seus filhos e eles serão pessoas melhores. Alguns dizem que eu acumulo equipamento, bobagem, estão todos ligados e sincronizados, eu não tenho posses, não tenho carro, não tenho casa, tenho um estúdio que é praticamente um pedaço do meu corpo.
 

Como é dividir a vida entre produtor autoral e de outros artistas? Toma muito tempo da sua vida social e afetiva?

Impossivel não influenciar e se deixar ser influenciado, eu tenho a sorte de escolher com quem trabalho, geralmente por afinidade, seja artística ou pessoal, logo é muito amor envolvido. Eu sempre acabo tocando junto com quem produzo, seja na mesma banda ou no mesmo evento. Isso toma praticamente todo o tempo da minha vida, dificil é ver a diferença entre o que é lazer e o que é trabalho, quase sempre está tudo misturado, mas tento me comportar de acordo com a situação, não posso reclamar.
 

Você está envolvido com a cena de festas de tecno. Como tem rolado as festas indoor e as realizadas em vias públicas? Qual a parte boa e ruim? Quais projetos você está envolvido atualmente?

Eu voltei a fazer lives quando o Eric Marke me convidou pra tocar na festa de encerramento do "FILE", acho que lá por 2009, não lembro ao certo, na época era muito dificil arrumar espaço pra tocar live de drum machines e sintetizadores, mas a minha proposta sempre foi deixar de fora o computador e coisas pré gravadas, acho que por indicação o casal que organiza a festa Clan.Dancestina me chamou pra fazer um live na festa deles, acabei por virar residente. 
 
Tirando os clubs "de Playboy" era um dos poucos lugares até pouco tempo atrás onde se podia ouvir musica autoral feita ao vivo, simultaneamente o coletivo Metanol começa fazer sua festas na rua e a residencia no S/A,  também a Capslock primeiramente na Trackers e depois vai as ruas, e também a Mamba Negra e ODD, se consagram como referencia na noite, deixando os clubs pra trás tanto em qualidade como em publico, uma glória. 
 
Praticamente há dois anos comecei um projeto chamado "Síntese Coletiva" que nasceu como workshops, pasando pelo MIS, firmou-se no Santostudio, até criar uma audiência pra tornar-se uma festa aberta tendo um palco dedicado no SP na Rua, com performances autorais de expoentes da musica eletrônica contemporânea e de vanguarda, tendo pelo menos uma atração gringa em cada edição. A melhor parte de tudo isso é que finalmente rompeu-se o paradigma de que e-music é coisa de clube ou de rave, a rua é a chave, invasao, ocupação, o povo tem o poder, a musica é uma ferramenta social e cultural, não um produto pra ser comercializado.
 

Tem algum estilo musical que sente falta de tocar ou produzir?

Música de inferninho, synthpop, french house, new romantics, aquela coisa que sempre entra e sai de moda tip “voyage voyage”…amo.
 

Conta como foi sua mini tour pelos Estados Unidos e Europa. Encontrou algum ídolo ou DJ/produtor que te inspire?

Eu já vou há anos direto pra California, tenho meio que uma turma por lá. A coisa mais legal é ir num pico que cabe 40 pessoas, estar com os caras mais foda da história e trocar ideia com eles. Nessas que acabei conhecendo uma galera, comecei a frequentar os "Moogfest".
 
Oportunidade única pra ver e ser visto no evento mais cabeção pra quem curte sintetizadores, é um abridor de cabeça, sempre saio adorando algo que até então eu, ou não conhecia ou tinha birra, os lugares pra tocar são imprevisíveis, de festas particulares a raves no meio do nada. Na última ida pra Europa fui, desde tocar no aniversario do dono do cultuado e trash "Jonny Knüppel" a ajudar a fazer uma rave no interior da Suécia, aonde acabei por entrar pro crew da festa… A inspiração é constante, não só com os profissionais, mas com a mudança de ares.
 

No Brasil, quais são os nomes da e-music que valem a pena ver e ouvir?

Eu acho que ainda dá pra produzir muito mais no Brasil, tem muito DJ bom que só não compõe por que não quer, ou tem medo, mas isso está mudando… Particularmente, eu sempre tenho o Gui Boratto como referência, parece que estudou na mesma escola que eu, haahahahaha… Mas adoro o live do L-cio, do Teto Preto, os trabalhos do Zopelar, da Erika, Salvioni, MJP, Etropia, Bad Mix, Akin, adoro os dj's Magal e Amanda Mussi. E não fico limitado a um determinado estilo.
 

O que podemos esperar do seu mix para o Freak Market?

Só classicos atemporais, das chamadas "Vocal tracks", tem quem odeie, mas baseado na pergunta do que eu sinto falta, resolvi montar essa mixtape virtual para o deleite dos apreciadores dos temas de inferninho e clubzinhos apertados e fedorentos.