Luciano Kalatalo cultiva seu interesse por minuciosa pesquisa musical desde a infância quando residia no Guará – DF. Foi influenciado por equipes de som locais e tentava ser DJ de salão de festas de condomínio.

O rádio  era o catalisador desta paixão ao som de programas, famosos dos anos 80 por lá, do DJ Celsão em que o electro funk reinava e a onda do rock de Brasília capitaneada pelo Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial.
 
A coisa realmente pegou quando o jovem Kalatalo trombou na vida o “dealer” de música Ricardo Tubá. Aquele amigo que descolava qualquer som que você desejasse e os gravava em fita (o mp3 e a internet ainda demorariam a chegar) e levou para seus curiosos ouvidos novidades de bandas góticas, shoegazer, indie dance rock alternativo, eletrônica, entre outras pérolas auditivas.
 
De tanto consumir e viver a música, o caminho natural foi começar a escrever sobre, e então junto com o Ricardo fundou o Tupanzine em 1994. No fanzine tinha música, futebol, fofocas e a cobertura da cena indie brasileira, o zine existe até hoje e até virou tema sobre um TCC. E claro, como 99% das pessoas envolvidas com música na época também montou uma banda, o May Speed, um projeto indie pop lo-fi.
 
Kalatalo continua um sagaz pesquisador musical e sempre procura pistas fora dos clichês e estereótipos para lançar sua salada musical com possíveis hits que você deixou passar em sua playlist da vida. 
 

Como foi o período em que você integrou os projetos Gente bonita, Clima de Paquera e o ainda ativo Trabalho Sujo? Achou a vida de produtor de festas e DJ um tanto cansativa?

Meio dos 00s, desde aquele tempo até hoje as festas paulistas são bem ortodoxas na sua proposta de som, existe a diversidade de sons, porém com pouco espaço para misturas:  pode ser uma noite inteira de techno fritação, festa de música brasileira com overdose cirandeira, 6 horas ininterruptas de  house "fino", etc.
 
A ideia do Gente Bonita era diferente - algo que acontece até hoje no país em algumas cidades menores - a discotecagem acaba atendendo vários grupos que frequentam a festa. Eu e o Matias tocávamos vários gêneros na mesma noite, tendo a música pop como liga dos sets.  Também foi o momento que emergiu a cultura mashup, e usando como referência festas que estavam acontecendo nos EUA e Europa fomos a primeira festa brasileira a ter o mashup como gênero musical tocado na pista desenfreadamente. Também era o auge dos blogs de música - missing toof, hype machine, Fluo Kids -, e tocávamos muito que hoje é chamado de "blog house" e a cena maximalista que explodiu com o Myspace (Justice, Digitalism, Chromeo).
 
Foram cinco anos com a festa,  rodamos o Brasil: Rio, Porto Alegre, Brasília, BH, Salvador, Curitiba, Floripa. Também havia a preocupação em destacar o que de novo estava acontecendo fora de SP, vários DJs estreiaram na noite paulistana através do GB: João Brasil, André Paste, Dj Chernobyl, Sany Pitbull, Dj Masa. Os grandes parceiros nesta empreitada eram a Flávia e o Hector da festa Popscene
 

Das festas que participou e produziu, quais foram as mais legais e quais foram as mais estranhas que você discotecou?

Fomos convidados para tocar na virada cultural,  seria a meia-noite no SESC Pinheiros, logo após a exibição de um filme de terror, daqueles que são mudos, do expressionismo alemão. O resultado é que após tal filme a pista não virava, tentávamos todas as músicas possíveis, mas o público estava em outra sintonia. A atração na sequência era uma roda de samba, e foi justamente quando o público da roda de samba foi chegando e o refrão de "Festa do Apê" do Latino foi anunciado que a pista finalmente veio abaixo.
 

Como pintou de garimpar o samba clássico de 100 anos "Pelo Telefone" e relança-lo com nova roupagem e remixes? 

Em 2015 lancei a gravadora Papoco e o primeiro projeto foi uma compilação de músicas populares brasileiras dos 70s remixadas. O mote era se a música é boa então ela é atemporal e pode ser relançada em qualquer época. Uma das músicas chegou a tocar no programa da BBC Diplo & Friends, era o remix de "Ovelha Desgarrada" da cantora Francisdalva feito pelo Maffalda. Empolgado com a repercussão e seguindo o mote que de o sucesso é eterno, em 2016 fui atrás do primeiro hit nacional e também considerado o primeiro samba oficialmente registrado, "Pelo Telefone"  registrado por Donga em novembro de 1916 e lançado em janeiro de 1917. 
 
Foi feita peregrinação similar ao lançamento da canção original: durante novembro de 2016 fizemos a produção: instrumentos gravados pelo João Parahyba e Janja Gomes combinados com o vocal de Giana Viscardi.  Com a ajuda do parceiro Lucas Marim, do selo Solta, foi feita a curadoria de oito produtores que iriam remixar instrumentos e vozes gravadas. O resultado foi lançado pela minha nova gravadora e editora: Japuaçu, exatamente na data que a música completou 100 anos 20/01/2017.
 

Tem muita coisa nacional que precisa ser descoberta em sua opinião?

Neste mês faleceu o Belchior, então fiz uma varredura de vídeos no youtube e tem uma declaração dele que é bem atual. Em 1974 ele já denunciava a replicação de símbolos e signos, sem crítica e sem senso. Para ele, Caetano já estava velho e consolidado naquela época. O Brasil tem muito som legal, é bem fácil sair do óbvio. Música é intérprete, arranjo, letra, estúdio, percussionista.
 

O que você preparou para mix especial para o Freaky Beats?

É o espírito "Freaky Beats" com sabor brasileiro, sons "desconhecidos" de ontem e hoje:
 
1) Capoeira Três - Eliseth Cardoso
Muitos consideram a Eliseth como a maior cantora que o Brasil conheceu, foi uma poderosa interprete de sambas e choros. No caso desta música a coisa é diferente, trata-se de um som de capoeira ou a narração de um combate? Com arranjos de violão e metais, violão tocado pelo próprio autor da música - Codó - pescador, capoeirista e grande violonista brasileiro. Recomendo vocês garimparem e ouvirem a original também
 
2) Porque é que Você se Esconde - Antonio Adolfo 
Compositor e arranjador começou sua carreia na bossa-nova tocando no beco das garrafas. Esta música é o disco mais pop dele, lançado nos 70s. Desde 1985 possui uma escola de música no Rio de Janeiro, é só passar ali no Leblon que você pode agendar uma aula.
 
3) A Tonga da Mironga do Kabulete - Trio Mocotó
Um dos pais do Samba Rock. A banda que gravou Força Bruta do Jorge Ben, dizem que a session do estúdio começou 19h em ponto e quando deu meia-noite o disco estava pronto.
 
4) Sabiá Cantou  - Mestre Suassuna (Capoeira Soundsystem remix).
Produção de Brasília, lançada agora em 2017, trata-se de um disco com remixes de capoeira.
 
5) Olho da Ilha - Carlos Pita
Formado em música pela UFBA produziu o primeiro disco do Elomar, muitos de seus trabalhos são com temática regional, às vezes você vê participação dele no programa do Rolando Boldrin.  Ao mesmo tempo sua obra tem relances bem modernos, a música escolhida é de 1981, um pop sofisticado com toques de afoxé bem antes de existir a axé music. Ele compôs e produziu várias músicas para o carnaval. Seu último disco é um resgate do forró tradicional, nada sintetizado, com músicos nordestinos escolhidos a dedo.
 
6) Visconde de Sabugosa - Joao Bosco
Trilha do programa Sítio do Pica-Pau Amarelo com produção do Danilo Caymmi, quem imaginaria hoje um disco de música infantil misturado com música afro?  A faixa escolhida é um tema de candomblé sendo que o arranjo das batidas foi no feito no violão 
 
7) Vida de Escravo - Milton Nascimento feat. Clementina de Jesus
Para lembrar como pode ser insensata uma ditadura, esta música foi censurada, mas não deixou de ser uma obra-prima. O Milton não queria perder a oportunidade de gravar a Clementina de Jesus, então transformou a letra em gritos, sussurros e gemidos.  Poucos anos depois Elis Regina regravou a música mudando o título: Caxangá
 
8) Africana - Free-son
Disco de 1971. Jazz psicodélico
 
9)Vontade de Rever Você - Marcos Valle
A melhor música sobre hedonismo carioca
 
10) Dois Animais na Selva Suja da Rua  - Erasmo Carlos
Em seu primeiro disco pós-jovem guarda, Erasmo é um clássico. Esta música é um presente de casamento,  composta por Taiguara - o cupido do casal Erasmo e Narinha - retratava o conservadorismo da sociedade carioca escandaliza com o casamento de Erasmo com uma mulher divorciada.
  
11) Bis - Arthur Verocai e Azymuth feat. Jay Z
Em 2010 o disco setentista do maestro Arthur Verocai tem sua primeira execução ao vivo, com toda a pompa que a obra merece violinos, coral, orquestra. Esta música é a consagração do maestro, uma parceira com Jay Z e a participação do grupo Azymuth na gravação.
 
12) Lamento Negro - Dom Um Romão 
Um dos mestres do jazz brasileiro. Esta faixa é de 1975
 
13) Covered Saints - Carlinhos Brown
Compositor, arranjador, popstar... Carlinhos Brown é figura da música Bahia desde o final da década de 70, onde já fazia parte de uma banda post-punk. Nos 80s foi um dos mentores da sonoridade do estúdio WR onde trabalhou como baterista, estúdio que foi uma máquina de fabricar hits começando o showman Luiz Caldas.
 
14) Não Tem Perdão - Tamba Trio
Música do disco conceitual de 1974, ao ponto do Tamba Trio nomeá-lo apenas como Tamba, pois consideravam que o trabalho da obra foi além do trio, tendo os arranjadores, produtores e demais músicos também como atores chave. Já foi considerado o disco "sargent pepers" do trio
 
15) Pelo Telefone - Piskksels X DKVPZ Remix 
Uma das faixas do nosso projeto que comemora os 100 anos do samba. Piskkels e a dupla DKVPZ criaram o samba versão chill baile 
 
16) Ovelha desgarrada - Fracisdalva (Maffalda muy trap remix)
Maffalda é o melhor produtor brasileiro em atividade. Este remix é uma mistura de trap, Jersey e rasteirinha.
 
17) Onda - Cassiano (Fatnotronic Edit)
Dos edits que a dupla lançou este é o meu favorito,  ganharam elogios do próprio Cassiano. O trabalho deles hoje está com mais repercussão na Europa do que aqui no Brasil. Confiram o lançamento deles que a gravadora do 2 many DJs prensou. 
 
18) Expresso 222 - Gilberto Gil (Bernardo Pinheiro Edit)
São vários produtores brasileiros hoje resgatando antigas músicas com remixes e edits, um dos meus favoritos é o Bernardo Pinheiro de Belém - PA.