Silvana Mello é uma artista movida pela atitude rock e ativismo de coração. Seu envolvimento com causas ligadas ao feminismo e contra crueldade animal vem de longa data, muito antes das redes sociais, além de sua presença histórica na cena punk, hardcore e do rock alternativo nacional.

Todo seu lifestyle engajado reverbera em sua arte, que engloba desde lembranças lúdicas da infância a personagens de seu convívio. Um imaginário que remete a inocência suave, porém com a abrasividade das agruras humanas da vida real.
 
 
Seu background veio da escola do skate, das ruas, da cena underground e do convívio de artistas e figuras criativas da moda, que estavam a toda nos 1990 com o intuito de mudar toda uma cena que vinha dos excessos dos anos 80 e precisavam dar voz a tanta coisa que ganhava vida fora da caretice do mainstream. Silvana virou uma figura forte, se destacou nas bandas em que integrou e fez sua revolução pessoal quando abraçou as artes plásticas/gráficas, dando sua mensagem poderosa de uma forma linda e direta.
 
A artista desenvolveu seu estilo peculiar presentes em gravuras, estampas e animações há mais de duas décadas, ilustrando desde vinhetas inesquecíveis a videoclipes e campanhas. Seu traço é inconfundível e já consta na lista de grandes artistas pop do país que continuam na ativa e abriram espaço para diversos nomes saídos da street art, design gráfico e afins. Se você ainda não conhece seu trabalho, repare agora esse erro e leia a entrevista a seguir.
 

Como você pegou amores pelas artes e barulho? 

Chegando em São Paulo fui estudar em  alguns cursos e escolas. Fiz cursos livres de arte e história da arte. Me considero quase uma autodidata. Nos anos 90 trabalhei em gravadora de rock, a Roadrunner, depois fui pra Vision/Cavalera. O dono da marca, Alberto Hiar (o Turco Loco), me chamou quando viu as camisetas que eu fazia sozinha. Entrei pra desenvolver o feminino da Vision, depois fui ficando, ajudava em patrocínio. Depois virei assistente do Sommer e André Lima. 
 
Após esse período, trabalhei como assistente em dois ateliers de tatttoo com o Polako e com o Zé Linares, até que abri um pequeno estúdio de tatuagem na Galeria do Rock que se chamava Positive Ink. Nesse tempo, morei em uma casa na Rua Havaí com amigos, todos com bandas e artistas. Passávamos bom tempo a tarde fazendo os cartazes dos shows. Trabalhei também com show na Egg, da Cali Cohen, que foi diretora de arte da MTV. Eu dava suporte como produtora de shows nacionais e internacionais. Tive a chance de trampar com artistas que curto como Seaweed, Superchunk, Down by Law e Man or Astroman. A Cali me deixava fazer as artes das credenciais.
 
Fiquei um tempo na Bienal montando. Fiquei na manutenção e desmontagem da Brasil +500. Lá ficava na parte do imagens do inconsciente e durante meses convivi todos os dias, durantes horas, com o  trabalho do bispo do Rosário. Talvez tenha vindo daí a minha vontade de bordar. No Ibirapuera (SP) acabei indo pra curadoria. Nessa fase voltei a estudar, fiz alguns cursos no Mub, e todos de web designer do Senac que você possa imaginar! Aí comecei a pensar em animação. Foi quando fiz a primeira, quadro a quadro, e fui oferecer ao Jimmy Leroy (diretor de arte da MTV Brasil dos anos 90 aos 2000). 
 
 
Eram desenhos só em nankin sem canson. Este primeiro virou uma vinheta. Fiz uma "historinha" baseada em um som da banda de hardcore Jawbreaker,, que contava como um cara se sentia vendo sua ex passeando com o seu namorado atual, usando uma malha que ele tinha dado. Uma coisa bem emo, bem da época, que ilustrou bem um pé na bunda que eu havia tomado hahahaha. Em outra, usei pra trilha Sleater-Kinney e Seaweed. Naquele tempo não se cogitava pagar direito autoral. E deu certo! As pessoas comentavam que gostavam, e foi passar em outras MTVs do mundo. Depois desta fiz mais outras cinco, que sempre passavam na programação diária. Elas estão no YouTube.
 
Fiz animações também pra minha banda, o Lava (extinta). E também pra outras bandas e comerciais, como o do tenis Qix pro Chorão do Charile Brown Jr. Participei do Ladyfest 1 no Hangar 110, onde expus meus primeiros bordados, com temática feminista, e também participei da primeira exposição da loja galeria Most. 
 
A Choque Cultural me convidou para a exposição coletiva, a Catalixo. Fiquei seis anos sendo representada pela Choque, fazendo trabalho autoral. Foi uma época boa, expondo com amigos. Os trabalhos indo pra casa de apreciadores e colecionadores, e conseguindo viver só de arte. Viajamos pra expor em alguns países. Desde criança desenho, sempre amei. Na adolescência queria ser estilista, aí fui atrás de uns cursos, mas acabei fazendo desenho técnico na UFRGS.
 
O barulho.. sempre né?! Lembro de amar Elvis. Quando era pequena, sentia "uma coisa" ouvindo Kate Bush. Cresci ouvindo rock, com minha irmã, que tinha muitos amigos que também me mostravam os vinis. Lembro de um verão em Capão da Canoa que a gente vinha da praia e ficava em casa à tarde. Eles me mostraram Slade, Black Sabbath, entre outros sons.
 
Depois no meio do surf, onde ouvia bastante pós punk e new wave, até chegar no punk mesmo, steet, oi, virei de movimento. Em Porto Alegre, gente andava todos juntos, punks, skatistas, rappers, gays, mods, carecas. Só os metaleiros e os playboys que não eram muito bem aceitos. Eu comecei a andar de skate com minhas amigas, a Cikuta e Urubu. Depois firmei e comecei a andar à "sério", sem fazer pose. 
 
Andava todos os dias com a minha mana Mari. Vivia com as pernas roxas. Nos confundiam e gritavam na rua. -“Ih. lá vai os gays!” Achavam que éramos meninos "efeminados". 
Quando vim morar em São Paulo, tinha apoio de uma marca de skate, a Drop Dead, pra correr campeonatos. Acho que arte, skate, música não tem como uma coisa ser separada da outra. Uma completa a outra, e todas juntas traduzem o que você quer dizer e o que você é. Vim pra São Paulo muito por causa dos shows, dos amigos e exposições.
 

 

Tiveram figuras especiais que te despertaram isso?

Lembro da irmã mais velha de uma amiga que eram minhas vizinhas que desenhava lindas casas coloniais, com lareiras, araucárias. Como ela percebia meu encantamento, me ensinava a desenhar personagens, tipo o bidu do Maurício de Souza, o Pica Pau do Walter Lantz etc.
 
Em Porto Alegre, morávamos em uma rua linda, considerada a mais arborizada da cidade, a Gonçalo de Carvalho. Meus objetos de desejo na infância sempre foram materiais escolares e de arte. Tinha uma loja perto de casa chamada Tokio. Nunca vou esquecer o meu primeiro jogo de canetas que minha mãe me deu. Vinham em uma caixa de lata com cavalos correndo nela. 
 
Eu sempre digo que me tornei artista por causa da minha vó, que além de sempre criativa, metia a mão na massa. Fazia artesanato, costura, cozinhava bem todo tipo de práticas manuais. Brincava com a gente, criava casas de bonecas, na árvore, mandou fazer uma piscina e até serviço de pedreiro eu a vi fazer. Acho que como ela teve uma infância pobre na fronteira do sul, ela se realizava com a gente. 
 
Fazia roupinhas, sapatinhos pras nossas bonecas, pegava pedrinhas e transformava em centopeias. Ela "pirava no jardim" e eu sempre junto. No dia em que eu nasci, ela plantou uma árvore, que existe até hoje lá. Tive uma infância muito estimulante, livre e feliz. 
 
 

Em quantas bandas você esteve? Qual você voltaria a tocar se tivesse oportunidade?

Toquei em duas, O No Violence e o Lava. Ah, voltaria a tocar nas duas! Hoje em dia não consigo nem cogitar ter banda. Tem alguns amigos que me convidam às vezes, mas pra tocar você precisa se dedicar, ter tempo, eu não dou conta.
 
Tenho que cuidar da minha filha (depois que eu me separei o corre aumentou), ter uma carreira como artista, e tenho feito muito trabalho voluntário, com pessoas e animais. Realmente faltaria tempo.
 

 

Desde sempre você é ativista pelo veganismo e contra crueldade com os animais? Lembro de ter visto um show nos anos 90 em que você já discursava no palco sobre o assunto.

Olha, eu na verdade me assumi como ativista bem mais nos últimos 4 anos, quando voltei a ser vegana. Já era vegetariana desde o final dos anos 80. Tive uma fase que "caí". Na época do início do Lava até tínhamos um adesivo contra testes em animais. 
 
Mas isso sempre foi uma bandeira mais minha que da banda. No No Violence só eu e o RuY éramos Straight edges vegetarianos. Depois o Ruy, o vocalista, virou vegano. Eu tentei, mas não consegui. Naquela época era só pros muito fortes. Até leite de soja pronto não existia. Era uma causa séria, ou você era, ou não era.
 

Muitos jovens estão tomando consciência e boicotando marcas que maltratam animais. Tem o lado que abraça a causa pra sempre, e outro que vai pelo modismo. Até que ponto isso ajuda, e atrapalha, essa filosofia de vida?

Em Porto Alegre eu fazia parte da associação macrobiótica, mas eu, nessa época, levava mais como uma dieta saudável, depois que me envolvi de verdade e descobri todo o conceito do veganismo, que me identifico, e muito, pelos direitos animais. Acredito que através da caridade e respeitando qualquer ser como igual, não se achando superior a ninguém, conseguiremos mudar a forma que vivemos. 
 
Acredito piamente que o veganismo é a chave, para a solução para a maioria dos problemas do planeta gerados pelo homem. Também enxergo tantos elementos semelhantes na luta pelos direitos femininos e pelos direitos dos animais. Como dizem, a revolução começa no prato. Em qualquer setor da tua vida. É bom abraçar uma causa, mas com verdade.
 

Atualmente, aonde podemos ver seus trabalhos? Tem alguma expo/mostra em vista?

Estava com uma exposição na Galeria Rabieh, nos Jardins, aqui em são Paulo. Ficou até dia 2 de setembro. A curadoria foi do William Baglione. Tenho montado um site novo, que muito em breve estará no ar. Tenho Pinterest, Facebook, Instagram, as redes que bem usadas ajudam na divulgação de coisas bacanas. 
 
Tenho feito muitos trabalhos por encomenda, mas, quero montar uma nova expo no ano que vem. Vamos ver, se a inspiração vier... algo que eu realmente queira mostrar. Vou fazer uma residência artística, mas ainda sem data prevista. Tenho uma parceria com a Galeria Samba no Rio De Janeiro, onde tenho mandado peças novas pra lá, e estou montando algumas oficinas para compartilhar como faço alguns trabalhos nos diversos suportes que eu uso.