Não há dúvidas que o Ratos de Porão é uma das mais ativas, e pesadas, bandas da América Latina e do mundo. Com 36 anos de carreira, o RDP passou pelo início do punk do Brasil, inovou com a batida mais rápida do hardcore, emputeceu os puristas com crossover metaleiro, e calou a boca de todos seus detratores, sobrevivendo de maneira digna e heroica praticando um som brutal que nunca visou seguir modinhas ou agradar a massa.

A banda, já veterana, continua afiada com um dos melhores lines desde os anos 80. A guitarra afiada e riffs massacrantes de Jão, a bateria precisa e rápida, como uma metralhadora, de Boka, o baixo certeiro e performance absurda de Juninho, e o carisma e vocal gutural do Gordo, tornam essa banda num patrimônio mundial do rock pesado.
 
João Francisco Benedan, ou João Gordo, conquistou um espaço inusitado na TV quando começou a ser convidado pela MTV Brasil para apresentar matérias fora do comum. Deu tão certo que no fim dos anos 90 virou apresentador efetivo da emissora com programas de entrevistas, humor, culinários e outros que eram muito surreais para os dias de hoje. Esteve entre a vida e a morte e foi considerado uma das figuras mais doidas do rock nacional por anos. Nos anos 2000, sua vida daria uma virada radical quando se casou com a jornalista Vivi Torrico, virou pai e mudou sua dieta trash pela vegetariana.
 
 
Atualmente João apresenta dois programas interessantes; o Panelaço no YouTube, voltado a entrevistas e culinária vegana. E o EletroGordo no Canal Brasil, aonde bate papo com figuras interessantes em meio a um cenário de eletrodomésticos vintage. Suas memórias foram registradas no livro Viva La Vida Tosca, recheado de fatos de arrepiar os cabelos e outras coisas hilárias passadas nessas décadas dentro e fora do RDP. Num raro intervalo de sua rotina de apresentador, músico, pai e empreendedor, Gordo cedeu um breve bate papo com o Freak Market. Sem esquecer que o já clássico álbum de covers punk Feijoada Acidente completou 20 anos e estão rolando shows comemorativos. Fica esperto na agenda do Ratos!
 

Quando pintou a decisão de abrir sua vida para o livro Viva La Vida Tosca? Era algo que já havia sido planejado no passado? Como foi todo esse processo ao lado do André Barcinski?

Nos anos 90, o jornalista André Barcinski, sempre fã do Ratos, era nosso amigo. Em 1993, quando ele trouxe o Jello Biafra (Dead Kennedys/Lard) no Brasil, colocou o Ratos de Porão para tocar junto e falava em termos um programa de televisão juntos e escrever um livro sobre minha vida.
 
E isso foi se realizar 20 anos depois, eu com muito mais histórias e ele com mais experiência jornalística após vários livros. Atualmente estamos fazendo juntos a segunda temporada do EletroGordo no Canal Brasil, onde ele é diretor. E também estamos na segunda edição do Viva la vida Tosca pela editora Dark Side. O processo foi simples, várias entrevistas de 15 em 15 dias, eu contando minha vida, e episódios absurdos, em ordem cronológica. Tenho uma ótima memória e isso facilitou o processo.
 

EletroGordo
 

Algum momento, você e o Jão acharam que o RDP sobreviveria 35 anos na estrada e gravando? Como foi a última passagem fora do Brasil? Eu vi alguns vídeos e a recepção dos fãs cantando as músicas em português. É impressionante!

Não! Nunca! Sempre fomos No Future,“noiabas” sem grandes planos. A gente abusou de birita e drogas. Minha expectativa sempre foi morrer cedo, e quase consegui duas vezes. É tudo muito emocionante; família, grandes festivais na Europa consagrando o nome do Ratos de Porão. Algo que nunca imaginamos que poderia acontecer. E as coisas foram rolando. Quem diria!
 

Guidable – A verdadeira história do Ratos de Porão
 

O álbum Brasil, de 1989, continua com faixas atuais. Você imaginava que a situação política ia tomar rumos ainda mais sombrios do que os retratados naquela época?

Sim, na música Terra do Carnaval já falava dessa roubalheira e cara de pau dos políticos. Tem quem ache que o Brasil vai melhor, mas eu acho que não vai cara. Daqui pra pior. Sempre entram os mesmos corruptos, o povo tem memória curta. Infelizmente.
 

Segue a letra desta bela canção:
 
“Você sabe de onde eu venho?
Da terra do carnaval
Onde a maioria é pobre
E se fode pra viver
 
Futebol
Mar e sol
Uma dívida gigante
Pra pagar até morrer!
 
Minha terra tem ladrões
Que aprendem a roubar
Na escola do poder
Honestos não entram, não!
 
Segue a vida, pé no chão
Dentes podres, ilusão
Que o Brasil vai melhorar
Mas eu acho que não vai!
 
Não quero sair perdendo
Nossa grande confusão
Se você é o eleito
Aqui está a solução:
 
Afasta essa cambada do poder, eu quero ver!
Dê esperança ao povo com fim da inflação
Siga seu mandato honestamente até o fim
Cuidado com o povão...
... da terra do carnaval!
... da terra do carnaval!!”

No canal Panelaço é divulgada a culinária sem crueldade. Antes de virar "moda" você já estava nessa. Como tem sido a recepção do público e você gostaria de algum dia abrir um empreendimento culinário?

A recepção é boa e tem influenciado muita gente a virar vegetariano e vegano. As pessoas tem uma abordagem diferente comigo na rua, é mais cordial, mais amoroso sabe? 
 
O Panelaço é um programa de entrevistas com culinária vegana gravado na minha casa. Totalmente Do It Yourself; a Vivi e eu fazemos basicamente tudo. Meus filhos Vicky e o Pietro são nossos assessores de convidados, muitas vezes a parte técnica é do nosso amigo Popoh. Mesmo assim, manter uma mínima estrutura acaba sendo um investimento nosso com uma pequena ajuda dos patrocinadores.
 
Sobre o empreendimento gastronômico; a gente já tem a Central Panelaço, loja física na Bela Vista que tem comidinhas veganas, congelados, temperos, camisetas, CDs, vinil, arte... É um espaço agradável onde abrimos para pequenos produtores veganos locais. 
 

Panelaço
 

Pra finalizar; como está sendo a aventura de ser pai? Virou uma página da sua vida quando a Victoria e o Pietro chegaram ao seu dia a dia?

Ser pai é a melhor coisa do mundo. Uma responsabilidade grande. Hoje meus filhos são adolescentes e nesta fase o "jogo de xadrez" fica mais sofisticado. Um jogo de amor e paciência. Uma aprendizagem recíproca e constante. Acho que foi uma das maiores loucuras (boas) que rolaram na minha vida.
 

RDP – Feijoada Acidente 20 anos ao vivo