A ausência de autoras mulheres na megaexposição do MIS

No dia 14 de novembro de 2018 inaugurou no MIS (Museu da Imagem e do Som a exposição Quadrinhos, prorrogada pela segunda vez, agora até o dia 26 de maio de 2019. A exposição tem curadoria de Ivan Freitas da Costa (sócio- fundador da CCXP/Comic Con Experience e da Chiaroscuro Studios), e projeto expográfico da Caselúdico, dentre os itens expostos encontram-se originais de páginas de quadrinhos, edições raras, revistas e esculturas. Ocupa no total dois andares, diversas salas, inclusive uma com recorte erótico, uma exclusiva para a obra de Maurício de Souza e outra para a de Ziraldo.

Ao adentrar a exposição, é possível observar um panorama histórico proposto pela curadoria, iniciando-se com a pré-história, passando por jornais e revistas antigos, conceitos sobre narrativa e imagens sequenciais, à atribuição do status de arte aos quadrinhos, aprimoramento técnico, chegando aos quadrinhos atuais.

Na área externa encontra-se um painel recém pintado da artista Tami Lemos a qual escolheu retratar diversas artistas mulheres, inclusive, a escolha óbvia, devido ao espaço institucional, das Guerrila Girls. O painel foi pintado um tempo após a abertura da exposição.

Já no início da exposição é possível perceber que a quantidade de artistas homens difere, e muito, da quantidade de artistas mulheres, LGBTS, negros e pessoas não binárias. Como questionado por Dani Marino (Minas Nerds ) e Gabriela Borges (Mina de HQ ) em carta enviada ao curador:“Será que é possível, afirmar que, a exposição representa realmente um panorama dos quadrinhos no mundo, ao longo da História, se ela exclui mulheres, pessoas LGBTs, não-binárias e negras que atuaram e atuam no cenário das HQs? Não seria mais justo afirmar que se trata de uma exposição com um recorte específico, com maior enfoque no mercado mainstream de quadrinhos a partir da visão particular de alguns colecionadores?”

Dani Marino publica pelo Minas Nerds e atualmente está organizando uma coletânea de quadrinhos pela Skript com mais de cem autoras, o "MULHERES & QUADRINHOS" (em campanha pelo Catarse), já tendo ultrapassado a meta, ao lado de Laluña Machado, Gabriela Franco e Danielle Lhoret. Gabriela Borges foi convidada a ministrar um curso no próprio MIS, “Histórias em quadrinhos: gênero e representação” com Helô D' ngelo e Lila Cruz e Daniela Cantuaria (Ugra Press ), também do meio dos quadrinhos, e a partir dessas conversas houve esse questionamento por parte de diversas artistas o Armazém de Cultura fez uma matéria sobre a mostra onde expõe um percurso completo, inclusive foi proposta uma ação de intervenção na exposição por quadrinistas, inserindo obras de mulheres e textos questionando o espaço destinado às mulheres nos museus e com a hashtag #CadeAsMinasNoMIS nas redes sociais.

Especialmente, os destaques são para as artistas Tove Jansson, Naoko Takeuchi, Marjane Satrapi (que divide parede com o banheiro de quadrinhos eróticos), Tom of Finland (com uma única imagem, que parece deslocada do restante no banheiro, lovelove6 colocada posteriormente), Alison Bechdel, Laerte, Emil Ferris (do recém-lançado Minha Coisa Favorita é Monstro pela Companhia das Letras, também colocado posteriormente). O banheiro erótico merece destaque por se tratar de um espaço a parte, reservado a maiores de 18 anos onde as obras selecionadas não fogem à regra de objetificação e heteronormatividade e não trazerem nenhuma artista mulher ou contemporânea (a exceção da lovelove 6 já citada acima). As obras se resumem aos frequentemente citados Milo Manara, Guido Crepax e Carlos Zéfiro.

A disparidade entre a quantidade de artistas mulheres na exposição e a quantidade de mulheres representadas nuas ou em trajes mínimos, papéis menores, ou estereótipos reafirma a questão das Guerrilla Girls. As mulheres tem que estar nuas para entrarem nos museus? Algumas quadrinistas desenvolveram tiras sobre suas impressões das visitas como Amanda Miranda , Helô D'angêlo , Carol Ito, Raquel Vitorelo e Aline Lemos. A artista Tami Lemos, citada acima, desconhecia a ação e foi chamada para integrar o evento "Foco nelas" – Mulheres diretoras no cinema e na propaganda, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, mas deu voz ao coro ao ser contatada pelas quadrinistas.

As impressões da exposição vão muito além de um primeiro momento, pois o MIS respondeu as artistas após a publicação da matéria do Brasil de Fato por Bruna Caetano e Luiza Vilela , destacando os poucos trabalhos e inserindo alguns outros (muitos foram inseridos durante a intervenção) como nas palavras de Helô D'ângelo: “Eu fiquei chocada que trabalhos de muitas meninas foram ignorados e eu comecei a perceber, que apesar da exposição estar bem montada na minha opinião, eles tinham apagado totalmente todas as autoras mulheres e tentando, de algum jeito, colocar as mulheres em programações satélites, não centrais (…) me pareceu algo para tapar o buraco de não ter mulheres na exposição.” Helô também participou do Estúdio ao Vivo, ação que colocava quadrinistas desenhando ao vivo num espaço na entrada do museu, sem remuneração. “Uma coisa é você querer se redimir e tapar esse buraco e tratar super bem as artistas e pagá-las, enfim, tentar se redimir por uma falta e outra coisa é ignorar completamente essa falta e só fazer isso para dizer que tem artistas mulheres na exposição, e mais uma vez a gente é deixada de fora dos museus e só usadas pra dizer que existe diversidade.” A briga por espaço das mulheres nos quadrinhos não é novidade, existem iniciativas que tentam resgatar trabalhos esquecidos de mulheres quadrinistas e também dar visibilidade às autoras mais jovens, cujo volume de produção pode ser visto em eventos grandes como o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), que teve a iniciativa de equilibrar em 50/50 a quantidade de expositores e programação paralela como palestras e mesas redondas na última edição, de 2018. O volume de produção e qualidade é grande, mas passa por etapas de apagamento institucional. O Lady's Comics , site que mantém arquivos sobre a produção de mulheres, já realizou encontros que reuniram quadrinistas de todo o país, a Delirium Nerd, também é um site especializado em cultura pop com foco em mulheres, a POC CON é um evento de quadrinhos LGBT que será realizado em junho em São Paulo. Esses são apenas alguns exemplos das iniciativas que batem na tecla da diversidade e reivindicam o espaço dando visibilidade a essas pessoas historicamente invisibilizadas. Sobre a resposta do museu e do curador à carta, Helô conclui: “Esse tipo de reação que a gente tem sempre é lida pelo patriarcado como uma reação violentíssima, como uma falta de educação ou como um mimimi como uma birra por não ter sido chamada e porque nosso trabalho não seria tão bom quanto o dos artistas homens. É sempre essa leitura que fazem sobre as nossas reações.”

Escrito por:

Annima Mattos

Escreve e desenha quadrinhos. Formada em artes plásticas pela UnB, já trabalhou com arte-educação e atualmente com ilustração e design. Pesquisa gênero e representação nos quadrinhos e publica de forma independente.
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