Bendita Cura: imposições de gênero em quadrinhos

Bendita Cura, seu novo trabalho, conta a história de Acácio, que começa nos anos 60. Em seu primeiro volume, a HQ mostra a infância de Acácio, que não correspondendo aos ideais de gênero é obrigado pela família a passar por tratamentos conhecidos como “cura gay”. 

Desde 1990 a OMS não considera a homossexualidade doença e em 2018 a transsexualidade finalmente foi retirada dessa lista também. Ainda assim, histórias de tratamentos ilegais ainda fazem parte da realidade de muitos homossexuais. Através de Bendita cura, Mário conta essa história durante as décadas.

Sexta, 22, acompanhamos um dos eventos de lançamento da HQ Bendita cura impressa na Ugra Press. Tiramos algumas fotos e aproveitamos para conversar com Mário:

Você buscou inspiração para sua obra em histórias reais. Pode falar um pouco em como esse período de pesquisa afetou você e ao seu livro?

Eu tive a ideia quando o Marco Feliciano assumiu a comissão de direitos humanos e minorias lá em 2013, e ai começou a vir esse papo de “cura gay”. Veio o projeto do deputado do PSDB pra liberar a cura gay eu eu pensei 'nossa isso ai dá um gancho para uma história boa'. Ai comecei a pesquisar, primeiro na internet mesmo, e dei de cara com histórias super pesadas.

Uma das primeiras que encontrei foi de um menino que chegou ao suicídio após fazer os tratamentos nos Estados Unidos. Ele acabou se matando porque não funcionou. Depois vi filmes, documentários e acabei vendo as histórias mais cabulosas.

Aqui no Brasil era muito comum na década  de 80 os pais internarem os filhos e fazer tratamento hormonal. Me deparei com histórias de mulheres que eram estupradas.  Eles as internavam nesses lugares onde eram estupradas para “virar mulher”. Enfim, acabei entrando nessas pesquisas, descobrindo as histórias mais pesadas e baseei o roteiro em cima disso.

Em Bendita Cura, tem uma evolução das décadas. Contei a vida da personagem que vem desde a década de 60 até os dias de hoje pra mostrar a evolução em como a sociedade tem lidado com essas questões. 

A história de Acácio, protagonista do livro, começa nos anos 60. Te assusta ver as histórias de quase 40 décadas atrás se repetindo hoje?

Com certeza. Parece que estávamos andando para frente, mas agora estamos voltando de ré. É assustador. Está vindo uma onda de conservadorismo que dá medo de onde a gente vai chegar, sabe? É uma reação até dos avanços que tivemos de uns anos pra cá. Na mídia estão falando isso. A gente tem uma drag queen que é uma das maiores pop stars do Brasil e é aceita nas famílias brasileiras e ainda assim estamos em um dos países que mais mata LGBTs no mundo (segundo dados da Anistia). 

Ainda tem muita homofobia no Brasil, mas ao mesmo tempo tem os avanços, ocupamos espaços que não tínhamos ante.  A gente conquista um pouquinho e o pessoal conservador já quer parar com tudo, andar mais pra trás ainda. É assustador!

Nos anos 90 a homossexualidade saiu das listas de doenças da OMS e recentemente o mesmo aconteceu com a transsexualidade. Como os  acontecimentos históricos afetam nos quadrinhos?

Tenho que dar um pouquinho de spoiler, mas agora Acácio vai para faculdade, nos anos 80, bem na época que houve a Operação Cidade Limpa, a qual sob a Prefeitura do Maluf prendiam drags, travestis, as gays mais afeminadas... era crime um homem andar com roupa considerada de mulher na rua.

Sempre tive a impressão que o meio dos quadrinhos independentes fosse machista, tanto o público quanto criadores. Como trabalhar com uma obra LGBT nesse meio?

Machismo tem pra caramba nesse meio, mas tenho visto uma evolução de lá pra cá. Essa pergunta até me fez pensar no FIQ lá em BH. Tenho ido à esse festival de quadrinhos desde 2007 e 2013 foi a primeira vez que levei um material temático LGBT. A galera torcia o nariz. Tinha pai que via a temática do material e puxava o filho.

Ainda tem pessoas que torcem o nariz. Existe um grupo de ilustradores no Facebook que toda a vez que posto algo vem o “choro de macho hétero” reclamando que a gente só faz “arte lacradora”. Rola muito. Mas ao mesmo tempo tenho uma resposta positiva e nesse último FIQ eu achei lindo porque tinha muito público LGBT lá completamente a vontade no evento, andando de mãos dadas. Coisa mais linda, os gays mais afeminados que você pode imaginar, todos muito à vontade, circulando lá na maior naturalidade. Tinham muito mais autores LGBTs. Eu estou vendo uma evolução, mas ao mesmo tempo sei que aquilo ali é um oásis em relação ao que está acontecendo no Brasil.

Tem um momento no quadrinho em que Acácio apanha da mãe. A cena é construída de maneira muito forte e a mãe de Acácio diz: “é para o bem dele”. Até onde você acha que a ignorância faz as pessoas acreditarem que a tortura da “cura gay” é realmente para a o bem de alguém?

Preconceito é ignorância. As pessoas têm ideias equivocadas, mas é preciso entender que essas ideias são marteladas por anos na cabeça delas. Durante toda a vida as pessoas vão pra igreja e ouvem o padre falar que é pecado. Ela tá programada pra acreditar que a coisa é errada, então ela quer fazer o filho dela ficar “normal”.

É difícil mudar a cabeça de uma pessoa assim. Com os meus próprios pais foi difícil. Minha mãe com o tempo foi aceitando, mas no começo ela não achava normal, ela não queria falar sobre, aceitava mas escondia. Com o meu pai foi ainda mais difícil, enquanto com a minha irmã foi super tranquilo. Tem muito de gerações isso.

É muito interessante a maneira que você trabalha apenas com as cores azul e rosa na colorização dos quadrinhos. Isso está ligado ao estereótipo de gênero ligado às cores?

A minha ideia inicialmente era fazer todo colorido, mas depois eu tive essa sacada de fazer algo mais binário, para discutir justamente o que é de menino e o que é de menina. Então eu testei essa ideia e ficou bonito e imaginei que teria um impacto bom. Tem momentos que o Acácio usa listras, justamente pra mostrar que existem coisas femininas e masculinas na personagem. 

No Brasil vivemos esse paradoxo, enquanto a OMS retira a transexualidade da lista de doenças, um juiz em Florianópolis tenta desvalidar um casamento entre duas mulheres. O quanto essa situação política afeta o seu trabalho como artista do meio LGBT? Como lidar com a censura à artistas?

A capa de Bendita Cura foi censurada no Facebook, considerada um conteúdo ofensivo. Um grupo já comentou dizendo que a capa ofende a religião. Eles deveriam ver o que eu estou debatendo, entender antes de atacar. Eu estou mostrando a realidade de gente oprimida. Tente entender essa realidade antes de falar que eu estou sendo agressivo. O mundo é agressivo com a gente. Eu estou mostrando isso. Se a imagem é forte, a agressão que fazem com a gente também é. 

Não tem como não me envolver em questões políticas. Fui me envolvendo mais em questões de esquerda, fui me esclarecendo, na verdade, porque a quantidade de informação errada, de fake news  oficializada que chega pra gente... deturpações tão absurdas do que são as coisas, os conceitos que a gente aprende…  meritocracia… gente! Tá tudo errado o que nos falam, o que está na mídia. E quando você abre os olhos pra isso você tem que botar a boca no trombone para mais pessoas abrirem os olhos.  

E qual sua maneira de botar a boca no trombone?

Eu me expresso pela minha arte: pelos quadrinhos, ilustrações, charges...

Existe alternativa quando a arte é censurada?

Fugir do país?  Isso me assusta muito! A gente tinha censura aqui há três décadas, isso não é muito tempo…

Mário é apenas um dos artistas do meio LGBTQ+ que usa os quadrinhos como meio de se fazer ouvir. Durante a conversa ele citou diversos nomes, como o da artista Luiza Lemos, mulher trans, quadrinista, que através de suas charges, mostra de maneira didática a realidade de sua comunidade.

A maioria desses artistas são vítimas da ignorância e preconceito dentro e fora das redes sociais. E buscam apoio para fazer suas histórias  serem ouvidas.

É possível acompanhar esses artistas no facebook e saber mais sobre suas obras e como apoiar, pelo Facebook do Mário César Oliveira e do Transistorizada.

Escrito por:

Yara Pedroso

Formada em Rádio e TV, pós graduada em design e fascinada pela contracultura na moda, música, cinema e televisão. Transfiro esse fascínio para todos os meus trabalhos, seja no cinema guerrilha, nas produções independentes de moda, nos meus textos e até no meu estilo de vida.
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