SMEGMA: Conteúdo ofensivo de qualidade!

Pablo Carranza é ilustrador por profissão e criador da SMEGMA, quadrinhos de humor ácido e crítico. SMEGMA está indo para sua quinta edição e já pode ser comprado na pré-venda, por isso chamamos Pablo para conversar com a gente sobre suas influências e matar a curiosidade do que vai rolar nessa nova edição. 

Pablo, conheço seu trabalho desde SMEGMA #1, quando um amigo me emprestou o quadrinho. Sempre curti muito as artes da Editora Circo, os trabalhos do Angeli, então para adorar o seu estilo foi um passo. Essa galera foi referência pra você no começo?

Dessa galera da Circo, Angeli com certeza foi uma influência pesada. Eu só conheci a Chiclete com Banana bem depois que já tinha parado de ser publicada (sou de 86),mas a Chiclete e Crumb foram os que mais me influenciaram a fazer Quadrinhos. Antes disso eu lia muito a MAD e super-heróis, mas nunca tinha pensado em publicar nada.

Sua crítica a cultura Pop é estridente e escrachada. Ainda que exista uma ligeira mudança de nomes, fica claro quando você questiona o formato e a realidade de programas como Caldeirão do Huck , por exemplo. SMEGMA surgiu como uma ferramenta de crítica ou isso foi adquirido ao longo da sua história?

Eu nunca pensei na SMEGMA como ferramenta da crítica. Penso nela como uma revista de humor. Algumas vezes eu penso em algo que acho engraçado e por acaso é zuando alguém ou alguma coisa. Acho que vem de uma das minhas influências que é o South Park. Os cara fazem isso bem pra caralho.

Seu humor em SMEGMA, desde o texto até a ilustração, escancara problemas sociais, principalmente a hipocrisia da sociedade contemporânea. Sua inspiração vem da observação cotidiana?

É da raiva. Muitas ideias surgem de alguma coisa que me dá raiva, hehe.

Tem muito humorista reclamando que o “politicamente correto” atrapalha o trabalho deles. Essa é uma realidade pra você?

Não acho que atrapalhe. É um desafio a mais. Às vezes me pego pensando se a piada tá machista, racista, homofóbica etc. Mas acredito que se ela for bem feita, se não for gratuita, funciona. Lógico que tem piadas que não funcionam mais hoje em dia, mas isso é a evolução natural do humor. Tem piadas que não funcionam em determinadas épocas, acho normal.

O politicamente correto também deixa tudo mais “certinho”. As vezes acaba até ficando mais fácil de fazer piadas “erradas” por causa disso.

Existem assuntos que você evita tocar e críticas que evita fazer para evitar conservadores, militâncias e afins?

Não. Venho da escola MAD onde TUDO e TODOS são suscetíveis a serem idicularizados. Ninguém é melhor do que ninguém pra ser tratado como café-com-leite.

As páginas da SMEGMA costumam ser carregadas e raramente coloridas,lembrando os quadrinhos underground norte americanos, Pablo Carranza tem um traço único e de muita personalidade.

Muitos ilustradores têm dificuldade de encontrar o próprio traço e quando vejo suas ilustrações isso me parece natural pra você. Quanto tempo e quais foram as referências até chegar nessa naturalidade?

Bom, no início, Angeli, R.Crumb, Ota, Charles Schulz, Allan Sieber. Acho que usei esses como base, usando um pouco de cada. Ao longo do tempo fui pegando influência de mais gente, como Johnny Ryan, Peter Bagge, Mike Diana etc. Mas não sei quanto tempo levei pra chegar no MEU traço porque até hoje eu não sei qual é o meu traço. Eu olho pra ele e não consigo achar que é característico. Eu me lembro de uma época em que eu tentava emular alguma característica de cada cartunista que eu gostava muito, mas não parecia natural e eu acabei tocando o foda-se e desenhando sem pensar muito, no modo ‘do jeito que sair, saiu’. Acho que a partir daí eu comecei a ter um traço mais próprio, mas sei lá, até hoje acho que não cheguei lá.

A cada edição você consegue superar seu humor negro, as críticas sociais e ilustrações pesadas. Podemos esperar que você esteja ainda pior (no melhor dos sentidos) em SMEGMA #5? Pode falar um pouquinho das suas inspirações para essa edição?

Quando eu estou fazendo a revista eu nunca penso em como vou superar a edição passada. Acho besteira isso. É que nem um seriado de TV. Tem alguns episódios que são melhores que outros e não são obrigatoriamente o que vêm depois do último. Nessa SMEGMA, assim como nas outras, eu fui desenhando o que apareceu em minha cabeça como uma boa ideia que tinha potencial pra ser uma HQ engraçada. Não rola um pensamento do tipo “não vou desenhar isso porque vou acabar pegando mais leve do que na edição passada”. Se eu fizer isso vai acabar me travando.

Eventos como a Comic Con XP realmente ajudam o artista independente ou o público foca nas grandes editoras?

Acho que ajuda como feira. É um evento que vende bem e o público é mais interessado em Quadrinhos do que em “artes gráficas”, ao contrário de muitas feiras menores. Além disso, é um bom evento pra encontrar pessoas e trabalhos que foram feitos no ano. Tem muita merda, mas tem coisas boas também. Mas, realmente, o grande público acaba consumindo mais em livrarias grandes do que no Artist´s Alley, o que não tem nenhuma lógica. Essas lojas estão aí todo santo dia, como loja física e Online. Já muitos dos quadrinhos independentes você só encontra lá. Não consigo entender a pessoa entrar na CCXP e gastar mais dinheiro com HQs de grandes editoras do que com as independentes.

Você se autopublica desde o começo da carreira e SMEGMA Comix sobrevive por 5 edições. Essa é a prova que é possível viver da arte dos quadrinhos sem grandes editoras (e grandes comissões)?

Defina “viver”, haha. Se é no sentido de pagar as contas com quadrinhos, com certeza, NÃO. Muitos Quadrinistas que são publicados em editoras grandes também não ganham quase nada, não seria a gente que ganharia. Eu, paralelamente a SMEGMA, também trabalho com ilustrações (pra editorial, publicidade, didático, online etc), e é isso que paga minhas contas. Ao mesmo tempo, gosto do fato de não depender da SMEGMA pra ganhar meu dinheiro. Se fosse o caso, fazer a revista viraria trabalho e trabalhar é um saco.

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Escrito por:

Yara Oliveira

Formada em Comunicação Social – Rádio, TV e Internet pela universidade Anhembi Morumbi e pós graduada em Ilustração Infografia e Motion Graphics, cursei extensão em Artes Contemporâneas e cinema pela UNIFESP. Fora da área de comunicação, já estudei design digital, design de moda,teatro e violão. Trabalhei como editora de vídeo na produtora Scena – Foto, fui fotógrafa e diretora criativa na Eu Sou Fotofradia de Corpo e Alma e atualmente sou diretora criativa pela revista Freak Market e pela empresa Velours International.
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