Na Casa de Criadores, a moda também é luta!

A moda sempre foi um meio excludente, e precursora de diversos padrões inalcançáveis de beleza. Mas existem designers que estão dispostos a mudar esse cenário e usam a moda para muito além de instrumento de beleza e glamour, mas para mostrar seu ponto de vista político.

Nesse ano, a Casa de Criadores mostrou a diversidade nas passarelas, mas, diferente de outros eventos de moda, esse não foi um “tema”, apenas um cast representativo de modelos. Em sua maioria, as marcas contaram com drags queens, mulheres cis/trans negras, sem padrão de peso ou altura. As roupas parecem ter sido pensadas cuidadosamente para cada modelo.

Diversidade não é surpresa na Casa de Criadores

Ter um cast diverso não deveria ser nenhuma surpresa, não para o público da Casa de Criadores, que já busca marcas alternativas por não se ver representado nas grandes corporações. Mas o cast representava muito mais. Ali na passarela acontecia uma discussão social.

O desfile da Ken-gá, por exemplo, foi marcado pela voz de Verónica Santiago, autodenominada travesti, vocalista da banda punk “Verónica decide morrer”.

Ali na passarela discutia-se o lugar da mulher na sociedade. Cheio de simbolismos, a peça de abertura é um vestido ultra feminino de tule com o formato de um vagina na saia “Essa peça, em especial a vagina, nos remete à subversão, não ao genital no seu significado literal” disse a designer.

A ressignificação de termos como “bixa” estava estampada em seus famosos brincos de palavras e não houve vergonha em expor a nudez masculina em um casaco transparente. Cada peça ali discutia um estereótipo não só do munda da moda, mas social.

Isaac Silva foi outro grande destaque. Seu desfile é introduzido com um monólogo de Urias, que nos contou sobre Xica Manicongo, a primeira travesti registrada na história brasileira. Com essa história já estava claro o que vinha a seguir. Ao som de Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, interpretada por Úrias, as modelos, absolutamente todas mulheres trans, desfilaram a identidade de Isaac, peças com raízes étnicas africanas fortíssimas. A pergunta que ficou foi “Qual o lugar da mulher negra trans dentro da sociedade?”

“Maculada” de Fernando Cozendey discute um tema pessoal do artista. O desfile delicado e ao mesmo tempo contundente foi regido por um poema feito pelo próprio estilista e distribuído ao público. O texto contava sob a perspectiva da vítima uma cena de pedofilia. Na passarela, o tom que se vê é bege, “uma não cor”, como diz o artista. Sem as cores da infância, apenas essa sobrou para retratar seu trauma.

De uma maneira mais leve, o Brechó Replay também trouxe a infância para as passarelas. Sua apresentação foi uma performance para quem estava fotografando (que foi o meu caso). Era difícil de acompanhar tudo o que acontecia na passarela.

Com uma decoração vaporwave o espaço foi transformado em uma escola e cada modelo era um aluno naquele cenário. Nessa escola, os alunos eram livres, vestiam e eram o queriam e convivam em harmonia. Essa era a história contada e confirmada pelo monólogo do criador Eduardo Costa, que apresentou o que seria sua “escola dos sonhos”.

Dentre tantos temas discutidos, a moda parecia apenas uma ferramenta para que a voz desses jovens e independentes criadores chegasse mais longe. E ao final dos cinco dias de Casa de Criadores, as conclusões da semana ultrapassam tendências fashion e atingem um viés político no espectador.

Fotos de: Yara Oliveira

Escrito por:

Yara Oliveira

Graduada em Rádio e Tv, com extensão em artes contemporâneas e cinema e pós em design. Comunicação, arte e design, paixões intrínsecas da minha vida e bases da sociedade, que tenho necessidade de aprender e explorar cada vez mais.
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