Por que dentre todas as artes, a moda AINDA insiste em se manter num pedestal?

Colocam a Lilian Pacce pra dentro e o jovem designer pra fora. Será que a moda está jogando do lado certo?

Quase todo mundo tem aquela visão elitista da moda, pessoas de nariz em pé que julgam cada fibra do tecido do seu casaco. Em partes isso é bem verdade, mas tem muita gente trabalhando pra tirar esse estigma da moda.

Marcas como Brechó Replay com parceria do coletivo Estileras , trazem sempre um novo conceito para as passarelas, a começar por utilizar peças de brechó e sempre ter um contexto político, ou ainda a lux.ão que em sua estreia traz o conceito sem gênero de acessórios junto ao importante desfile de Diego Gama, marcas assim destacam a moda como o que ela realmente é: um fenômeno cultural.

Quando começamos a estudar moda, aprendemos tecidos e proporções, conhecemos as famosas Maisons e as mais importantes semanas de moda, tudo tende a elitizar o conhecimento e perdemos o tato cultural, e é com tempo e esforço que ele volta pra você.

Essa sou eu na Casa de Criadores, terceiro ano passando aperto fotografando o evento:

De onde mesmo?

A Casa de Criadores tem a ideia de trazer novos designers brasileiros, novas promessas da moda nacional, uma galera de mente aberta que permeia a passarela com todos os tipos de corpos, cores e idades. Entre um pequeno erro e outro, a diversidade está lá sim! Diferente de muitas fashion weeks por aí, que AINDA lutam para inserir modelos negras nos desfiles. Mas enquanto a passarela é diversa e nova, os críticos e o público são os mesmos.

Quando olho nas arquibancadas, lá está a elite da moda, nomes famosos que nem se quer tem grande ligação com a moda, todos com lugares marcados, pessoas importantes e muito relevantes são deixadas pra fora;

“Sou imprensa”

“De onde?”

Freak

Aguarda aqui um pouquinho”

“Você?”

“~cita uma revista mais famosa~”

“Pode passar”

A teoria da comunicação

Para continuar, preciso citar algo que eu amo, mas talvez meus amigos não aguentem mais ouvir falar: Teoria da comunicação.

Existe um diagrama que simplifica a comunicação:

Meu Deus! Você está vendo um diagrama num artigo de moda!!!! Sim... calma!

Acontece que moda é mensagem, o que você veste é mensagem e principalmente o que está na passarela é mensagem. O designer é o emissor, ele tem algo a dizer com a coleção, aí ele codifica isso em roupas e através do desfile passa a mensagem que chega ao receptor que é??? Bem, no caso a Erika Palomino ou a Lilian Pacce. Mas será que está certo?

Acontece que raramente o receptor está errado quando não entende a mensagem, mas o emissor pode estar emitindo para o receptor errado. E é isso que acontece na indústria da moda atualmente.

Quando vejo a galera na fila de um evento de moda qualquer, consigo entender o que está na passarela. Já faz anos que a semana de moda não dita nada nas ruas, são as ruas que ditam a semana de moda. Lembra do vídeo do “Quanto custa o outfit?”? Pois é! Parece terrível, mas na verdade só prova que as Maisons estão perdendo força e que talvez a Praça Roosevelt, aqui no baixo Augusta esteja mais “into this season”.

Na Fashion Week ano passado, cansei de ver colegas minhas se arrumando para tirar foto no evento... ou melhor, do lado de fora do evento. Cara! Era cada look fantástico! Mas elas não entravam, o acesso era até o lounge, o desfile mesmo era pra poucos, mas aparentemente não importava para elas. Sabe o pior? Não importa mesmo!

Street Style tem dominado o Pinterest, Instagram e Facebook, é raro alguém com menos de 30 anos ler Vogue, Elle, ou seja lá qual for o veículo tradicional da vez. E é então que eu te pergunto:

Por que dentre todas as artes, a moda AINDA insiste em se manter num pedestal?

O MASP esse ano chamou a mais famosa artista modernista brasileira de “Tarsila Popular”.

Van Gogh está lá, gratuito nas terças, tem música acessível nos Sescs as quartas, poesia na baixa Augusta na voz do Slam e batalha de Rap no Largo da Batata quase todo final de semana, é só chegar! Quer fazer? A gente não julga não! Vem cá que a gente ensina.

Mas e a moda? Curte moda e se veste assim? (olhada de cima abaixo) Não ouviu falar de Balenciaga? E o desfile da Margiela? Ah! Assim complica né? Vejo movimento de Slow fashion, moda genderless e tantas outras bandeiras importantes sendo jogadas ao vento no meio dessa confusão de público. Adianta ensinar quem já sabe? O que eu vejo do lado de fora de eventos que fotografo é um monte de gente doidinha pra aprender presa por de trás da faixa de contenção enquanto quem já sabe tem cadeira marcada e um caderninho cheio de críticas.

Escrito por:

Yara Oliveira

Graduada em Rádio e Tv, com extensão em artes contemporâneas e cinema e pós em design. Comunicação, arte e design, paixões intrínsecas da minha vida e bases da sociedade, que tenho necessidade de aprender e explorar cada vez mais.
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