Freaky Beats #88 – Caio Baronti

Assim como um chef sabe separar os ingredientes certos para causar uma experiência única no paladar.

Seus sets são recheados de faixas que primam pela qualidade sonora, sem deixar o clima cair. Outro ponto interessante é a mistura dos formatos analógicos e digitais em suas apresentações, com um mix de diferentes mídias harmonizando entre si.

Já se apresentou em diversos clubes e festas da metrópole paulista, participa do coletivo GOMA e hoje em dia é residente da conceituada festa DÛSK.

Se dividindo erntre a rotina de trabalhar em restaurantes e mostrar sua pesquisa dançante para pistas, Caio conversou com o Freaky Beats e fez uma lista de dez tracks fantásticas e fora do comum pra gente.

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Como foi trabalhar em restaurante e se dividir com a vida noturna e cena de festas? Quando pintou essa vontade?

No começo foi muito fácil. Nunca fui muito do dia, sempre gostei da madrugada e de ficar acordado, logo o período do jantar era a minha única escolha, terminando o serviço sempre acabava em alguma festa. O pessoal de restaurante gosta muito de uma festa aliás. O trabalho é puxado, termina quase sempre depois da meia noite e quase todo mundo que trabalha a noite e com comida e bebida acaba dando uma esticada. Na época tinha muitos amigos e colegas de trabalho que conheciam o pessoal da noite e acabou sendo natural eu participar dela. Eu era muito novo e tudo era novidade. Sempre ia atrás das festas que tivessem algo diferente para escutar. Se a música não fosse boa eu não durava muito. 

Hoje em dia continuo trabalhando com restaurante e minha relação com a noite mudou um pouco. Minhas responsabilidades são outras e dependo muito mais do horário comercial. Não consigo mais esticar tanto e as aparições são menores. Só chuto o balde quando toco mesmo. Mas acho importante continuar saindo, escutando e acompanhando. Gosto de saber o que está acontecendo.

Você sempre foi um apaixonado por música? Como você começou a pesquisar e achar os estilos musicais que formaram sua base musical?

A música sempre esteve presente. Ela é um refúgio, te leva para outros lugares, faz voltar no tempo. Acalma ou dá animo. É simples e complexa. Uma época da minha vida eu sempre estava com pelo menos um fone no ouvido. Tentei tocar diversos instrumentos e quanto mais diferentes eles eram, mais eu gostava. Toquei viola caipira e lap steel. Aliás tentei cursar faculdade de música, mas na época faltou disciplina e estudo. Meu pai foi uma pessoa muito importante musicalmente para mim também. 

Ele tem um conhecimento enorme e sempre me apresentava algo novo. Escutei muita coisa de rock e música brasileira com ele. Comecei a pesquisar sobre música e acabei percebendo que quanto mais eu escutava e descobria menos eu sabia. Transitei muito pelo blues e jazz antes de chegar na música eletrônica. Eu nunca gostei muito de colocar as músicas em estilos. Acho que só existem músicas que não te tocam e as músicas boas, que causam algo em você. Acho muito triste se fechar para algum estilo ou sonoridade. Preciso muito sair da zona de conforto e começar a produzir música. Tenho um problema sério com tecnologia, mas já está na hora de vencer ele.

Muita gente acha que ser DJ é apertar play/pause. Como foi aprender a lidar com bpm, técnica e tudo que envolve ser um profissional da área? Tem algum episódio inesquecível dessa época?

Olha, vou te dizer que também achava isso. Por já ter alguma familiaridade com teoria musical e instrumentos achei que ia ser a coisa mais fácil juntar duas músicas e tocar como DJ. Eu ficava as vezes treinando umas 6 horas direto e não acertava uma virada. Ficava vendo vídeos dos meu DJs favoritos e reparando como eles mexiam no mixer. Eu pratiquei muito, mas o mais complicado vem depois, entender e conseguir construir sets que as pessoas gostem e que sejam diferentes. 

Eu comecei a colecionar música e a comprar disco de eletrônico antes de ter o meu setup. Não me imaginava muito tocando, mas adorava pesquisar. Depois de muitos amigos falarem que as músicas que eu tinha eram diferentes e que eu deveria tentar tocar, resolvi ir atrás dos equipamentos. Por sorte na época eu fui demitido de um emprego e consegui o dinheiro para comprar. O início foi muito difícil. Enchi o saco de muitas pessoas pedindo pra tocar. As vezes até me arrependo um pouco. A primeira vez que eu toquei num clube, aliás, foram dois amigos que estavam tocando e falaram as seis horas da manhã para eu ir buscar meus discos que eu ia tocar com eles. Esse dia paramos as duas horas da tarde. 

Você acha que as festas de rua colaboraram para o fechamento de diversos clubes? Ou as casas noturnas não se adequaram a demanda do novo público?

Acho que as festas nas ruas e em outros lugares foram umas das coisas mais interessantes que apareceram na cena. Não acho que elas contribuíram para o fechamento de alguns clubes. Elas são esporádicas. Muitas vezes mensais, Existem muitas e para diversos tipos de público, geram algum impacto sim nos clubes, mas eu sinto mais falta de novidade neles. Acho que a cena mudou, os clubes ficaram mais caros e sinceramente não tenho frequentado muito. 

Essas festas mostram um dialogo maior com os espaços da cidade e a grande maioria é bem mais democrática do que qualquer clube. Gostaria muito que existesse um dialogo maior entre os clubes e essas festas, valorizando mais a cena e a música, e gostaria mais ainda um apoio maior da prefeitura para tornar tudo ainda mais viável. Outra coisa que acho muito importante é um dialogo maior sobre redução de danos e que a música eletrônica e de pista fosse mais democrática ainda e menos julgada como algo só de gente doida. 

Alguma vez você estava tocando e vieram te pedir músicas que não tinham nada a ver com o set? Você se irrita com o povo que tem o, péssimo, hábito de achar que o DJ é seu playlist particular?

Isso sempre acontece com qualquer DJ, nunca me incomodou muito. Acabo sempre dando um sorriso, falo que sim e sigo com a minha seleção. As vezes tento seguir até a sugestão, dentro sempre do meu repertório. Hoje em dia estou tentando levar cada vez mais músicas, diversos estilos, tentar transitar por tudo. Isso é um grande desafio também. É complicado tocar vários estilos e requer uma organização impecável.  

Nunca consegui tocar alguma música que não gostasse. A única coisa que não gosto muito é quando falam comigo no meio da mixagem, mas as vezes acontece. No começo fica muito mal quando o set não encaixava muito na pista. Com tempo você vai entendo melhor isso e infelizmente não tem como ser sempre incrível. O grande DJ Tiga fez um post falando sobre isso recentemente na página dele. Mesmo sabendo de tudo isso, eu continuo achando que no fundo eu não escolhi a música certa. 

Quais DJs e produtores você nos recomenda e faz questão de assistir quando rola?

São tantos! Vou falar de um monte de gente aqui. 

Até hoje me surpreendo com os sets do Rafael Moraes, do Tahira, do Ney Faustini e do Ale Reis. Gosto muito da técnica deles, o repertório. Sempre alguma novidade e também um monte de clássicos. Do pessoal mais novo, mas que também já está um bom tempo pesquisando música, curto muito o som da Vivian Penzes, da Tati Piemont e da Barbara Boeing. A Vivian tem uma pesquisa absurda de música eletrônica que passa por diversos estilos. Hoje em dia ela está aparecendo em um monte de festa. Vale muito a pena escutar ela. A Tati não precisa nem falar muito, repertório impressionante. Não conheço metade das músicas e a outra metade eu acabo perguntando. A Barbara tem um estilo muito legal de tocar e uma coisa meio disco cheia de referências mundiais que é muito bacana.

A Amanda Mussi é uma baita guerreira da noite. Produz a festa dela na raça e tem uma pesquisa de techno mental, pesado e visceral. Gostei muito do Live do Fractal Mood, tá no começo mas já tem muita personalidade. O francês Craig Ouar também sempre me impressionou, uma seleção bem misturada, de música brasileira a techno e uma tecnica maluca. Não posso deixar de citar os meninos da Gop Tun, da Selvagem, do selo 40% Foda/Maneiríssimo, a sonoridade minimalista da Subdivisions, o carioca Manara, a Soul.set, o Zopelar, que é um monstro, o L_cio , que também continua com um trabalho muito forte. Esse pessoal todo se preocupa com a música e com a qualidade.

Em quais festas e núcleos podemos te ver em ação no som?

Hoje em dia eu sou residente da Dûsk e da GOMA, uma festa que tenho com alguns amigos e acabo dividindo os decks com o Polycarpo, um grande amigo, que sempre participou de toda essa caminhada. Meu lance com a música continua muito orgânico, as coisas simplesmente acontecem. Tive o prazer de tocar na Soul.set, na MBR, no D.edge, no Secreto, no SP na Rua, na Folklore, etc.

Se você fosse fazer uma playlist dos sonhos, quais as 10 músicas que estariam nela e por que?

Aí vai!

01. Clube de esquina - Tudo que você podia ser

Todo vez que penso numa faixa importante pra mim esse vem na minha cabeça. Esse disco inteiro e especial e acho que todo mundo que gosta de música deve conhecer ele.

02. André Geraissati - Agreste

Esse é um dos caras mais interessantes que já ouvi tocando violão. Ele utiliza outras afinações, conseguindo um som único. Já vi alguns shows dele e ele não falava nada, subia no palco tocava uma hora sem parar, meio que juntando as músicas umas nas outras, levanta e ia embora sem falar nada.

03. Yusef LATEEF - The plum blossom

A primeira ve que ouvi isso fiquei muito impressionado. Ele é um jazzista americano que usa diversos instrumentos e referências de várias cultura na sua música.

04. Dorothy Ashby – Feeling Good

Ela é uma harpista americana que tem um repertório incrível. Acho o som dela muito moderno para época, uma mistura de jazz e funk muito interessante.

05. Skalpel - Sculpture

Eu não era muito fã de música eletrônica, o selo ninja tune e principalmente esse álbum do Skalpel me ajudaram a entender e fazer essa transição. Sempre gostei muito dessa mistura de jazz, música orgânica e eletrônica.

06. Laurent Garnier - The man with the red face

Essa música tirou todo meu preconceito com música eletrônica. Eu não conhecia nada parecido. Foi muito importante pra mim. Ele foi muito uma referencia como DJ muito grande no começo. Tive a sorte de ver ele tocando uma vez na antiga Lov.e umas 8 horas, no final tinha eu e mais umas 7 pessoas e ele lá todo empolgado ainda.

07. Amon Düül II - Sleepwalker's Timeless Bridge

Essa foi uma indicação de um cliente amigo de um restaurante. Essa música sempre volta na minha cabeça. Adoro todas as transições e mudanças dela.

08. Jorge Degas e Marcelo Salazar – Rio Negro

A primeira vez que escutei isso fiquei maluco. Adoro a levada dela. 

09. Cobblestone Jazz – Who´s Future?

Esse trio eletrônico continua atual. Foi um dos melhores lives que vi até hoje.

10. Frank Zappa - Cosmik Debris

Frank Zappa é um artista muito absurdo. Escolhi essa por que a guitarra dele está bem presente. Ele era incrivelmente criativo, produziu mais do que 60 álbuns. Demorei muito para gostar das músicas dele, mas valeu a pena insistir.

Escrito por:

Alexandre Bezzi

Música e cultura pop são suas paixões. Estudou artes plásticas, mas tomou rumo como DJ e jornalista. Seu sobrenome virou apelido e nome de música. Se amarra em coisas clássicas e atemporais. Promove festas, happy hours e tem o hábito de acordar cedo.
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