Os atalhos de Cha Alberto aos retalhos do artista underground Andarilho Cha

A busca do artista alternativo e “a vontade de juntar teatro, música, em um show próprio.”; faz da sua arte um clamor; “não se esqueça de sobreviver para continuar nos ouvindo”.

Tem sido uma jornada e tanto para quem começou sua arte em meio à fabula e o clichê do menino que nasceu para fazer arte. O mérito é todo dele, mas o próprio músico reconhece suas raízes e cita aos risos orgulhos de sua infância: “A coisa toda ‘tava’ no sangue pois, meu pai é um grande cantor de sertanejo raiz, bregas, boleros e afins. Imaginem então como não foi a minha infância!?”. O menino inquieto que levava bronca por dançar e cantar o tempo todo não se contentava em parar por aí, com uma mente criativa e produtiva, Cha tinha amigo imaginário, falava com brinquedos e até imitava os comerciais da televisão: “Já quis ser desenhista pois adorava gibis. Já quis ser dançarino de lambaeróbica, era louco pela (banda) É o tchan.”. Cha aprendeu a transformar em referência toda a conexão que sentia pela Xuxa, além da “inesquecível vez em que cantei com 9 anos a música ‘Inesquecível’, versão da Sandy & Junior!”, nasce então o pequeno artista.

O nascimento do artista de rua

Cha sempre teve uma ligação com a expressividade do seu corpo, tentou faculdade de Rádio e TV, mas não encontrou ali narrativa pra aquilo que pulsava dentro de si. Foi quando entrou no Teatro Escola Macunaíma puramente por instinto: “Não entendia como funcionava a coisa, era algo dentro de mim. E era teatral.”, descobrindo parte daquilo que seria grande referência na sua arte urbana e, específica. “A coisa foi desenrolando e eu compreendendo ‘o ser ator’ que existia em mim; dentro daquela delícia de linguagem à vontade de um dia juntar teatro, música em um show próprio.”

Pós-formado, o então (e também) ator, quis aventurar-se em cursos para aperfeiçoar sua performance. Tentou violão, mas desistiu por não criar calos nos dedos. Entre achados e perdidos, percebeu sua rima e passou a criar suas letras “com melodias tortas, que vinham à cabeça, escrevi para Roger Guitarra (o dono da escola de música que estudava e futuro produtor de seu disco de estreia)”. Moral da história: louco que da corda pra outro louco, resulta em que? Resultou no casamento entre artista e produtor, e após meses entre trancos e barrancos, quebrando a cabeça no estúdio, nasce “Não se esqueça de sobreviver para continuar nos ouvindo” (Primeiro CD do cantor) daquele andarilho que já caminhava pra descobrir mais do que poderia fazer.

O andarilho e seu clímax

“Baby, a ideia inicial era jogar todas as minhas influências em um disco, e como não tinha grana pra gravar tanta coisa das quais eu gostaria, pensei em pronuncias (surgiu da ideia daqueles disquinhos da Dona Baratinha [contos para crianças] com melodias.”, uma versão adulta poética com sabor de urgência. De todas as intuições e apostas, as peças foram encaixando-se até que o álter ego do artista fez surgir e criar o Andarilho Cha “que na literal poética sou eu, é o outro, pois todos temos o nosso andarilho interior... Nada mais é que um sonhador que conflita com o mundo”. O artista se diverte com essa complexidade dentro de si, soa um súbito alívio após tanto percorrer para achar um resquício daquilo que ele poderia saber sobre sua arte. As referências do artista independentes atualmente se estendem à música eletrônica, samba, rock, axé, soul e pop. Mas tanta referência complicou a logística de encontrar originalidade no meio comercial e “um disco com ritmos variados mais ainda”. O auge veio à tona quando ele mesmo classificou seu som como MPBT (Música Preta Brasileira Teatral), ao invés de MPB. Pode parecer simplório, mas essa classificação deu a ele algo mais do que um mero caminho para compor suas canções, deu a ele originalidade. E uma promessa de grandes conquistas futuras, considerando como o próprio MPB, citado há pouco, nasceu.

Assim, em festivais, circuitos alternativos, feiras, exposições, ou num lançamento de um álbum novo, esse andarilho sobe no palco com seu corpo teatral e apresenta seu MPBT funkeado autoral, abusando e lambuzando do que quiser, pois “a música preta está em tudo. E historicamente se torna minha por direito.”

Aqui estão as provas do crime

“A ideia de não ter foto, foi porque eu queria que as palavras ultrapassassem as imagens”.

A conquista do espaço com seu MPBT

Depois de tantas conquistas e de brinde o suor revelado num álbum recheado de músicas com sua aposta, pode parecer um caminho pronto para andarilhar e ser feliz, mas as dificuldades de um artista underground se estendem pra além da conquista de um EP ou singles nos Streamings. “Independente, preto, sem grana, e com um disco complexo que eu amo, mas de início também não entendia. Frustrou e desanimou em muitas ocasiões.”. Se por um lado o cantor juntou pedras suficientes para construir um castelo, no outro as dificuldades de como fazer isso. Muitos artistas no circuito alternativo sofrem com a falta de privilégio em poder ter um assessor ou empresário para alavancar e vender suas obras. “Isso tudo fez o início ser lacuna x lacuna, mas na estrada é que se aprende. Fui!” O artista passou a contar com a própria sorte e seu aprendizado possibilitou que tocasse em bares de alto padrão na Vila Madalena, como o Garrafas Bar, em lugares LQBTQI+, em festas exclusivas empresarias, em locais alternativos como o Sesc Osasco com banda completa, Espaço Parlapatões e Calefação Tropicaos, onde surgiu daí a oportunidade de tocar também no espaço Casa das Caldeiras, onde obteve grande parte do seu público. “Não sabia onde levar esse som, se era pro povo do Teatro, pro povo alternativo, pra extraterrestres, tudo um parto”. Todo o conhecimento adquirido e experiência no que pede a demanda popular, ressignifica pra si todo seu som preto e teatral, junto do carisma e expressividade corporal, podendo assim, no que podemos dizer “TOCAR O TERROR EM GERAL (sempre com coerência)”, explica. “Ta tudo lindo em resposta ultimamente, se temos um poder que bate, ele também tá levando. Vezes saímos em desvantagem, mas é nítida que as cenas estão artisticamente muito ativas e as chamadas minorias tão cantando, berrando e eu tô no meio de tudo isso me inspirando e expressando meu ponto de vista"

Acessos x expectativas

Com mais calma, menos expectativas, o artista planeja um pocket ainda pra esse ano no projeto Afro Jam, que acontece quinzenalmente na Lab Mundo pensante. Cha num clima esperançoso e em novos ares ainda solta um spoiler sobre seu novo som sendo gravado “com uma sonoridade nova. Rumo ao futuro”. E se por um lado existe a dificuldade de produzir e acessar projetos sem uma equipe por trás, Cha enxerga uma vantagem essencial em não precisar depender de uma gravadora censurando seus dizeres e poder divulgar sua arte essencialmente. Cha reconhece que o artista alternativo por vezes precisa ser empreendedor, ou, como ele mesmo diz; “empresa em ascensão. Coisa chata, mas necessária.”. Tendo muitas músicas para gravar e as plataformas como suas aliadas, sem objeções, pretende “dominar o mundo e consolidar meu som”, brinca.

“Onde me ver e ouvir?”

https://www.facebook.com/andarilhocha/

https://www.youtube.com/channel/UChgatnum5jWre8sJNdTaaPQ

Ouça o cantor também nas plataformas Deezer e Soundclound.


Escrito por:

Alan Jacob

Alan Jacob é ator, cantor, desenhista, radialista, escritor, entre outras facetas. Cinéfilo e um amante da arte em geral, nas horas vagas gosta de andar à cavalo, nadar e ler. Como grande parte dos artistas independentes, vem abrangendo o currículo com bons jobs.
Popular em Indie