Otavio Sousa - Registros e acordes

Em 2016, um projeto que chamou muita a atenção foi o documentário Time Will Burn, um ode as bandas de guitar/noise da cena brasileira do início dos 1990 que transformaram o underground e criaram uma cena particular fora dos padrões locais, conversando diretamente com a cena grunge e alternativa, já clássicos para a nova geração. Foi um trampo de garimpo, horas de material coletado, editados e corre para conseguir depoimentos dos personagens que fizeram parte dessa história do rock brasileiro.

De onde veio seu amor por vídeo e fotografia e como você se iniciou nessas artes? A época em que atuou na MTV foi uma boa escola?

A MTV é uma escola desde que ela chegou ao Brasil em 1990 por causa daquela avalanche visual que nunca tínhamos visto. E olha que o único aparelho de casa que pegava o sinal UHF era uma TV portátil, imagem preto e branca, de 9 polegadas, que só sintonizava na cozinha com Bombril na antena.

O interesse na fotografia veio quando passei por esta experiência de morar em Londres, que foi em 2001. Eu tinha 24 anos. Era minha primeira vez na gringa, fui pra passar 3 meses, mas fiquei um ano. Me impressionou a velocidade que a informação rodava via jornais, revistas e panfletos em portas de shows e lojas de discos. Acesso à internet era só na lan house uma vez na semana por uma hora. Comprava sem falta o semanário NME, ocasionalmente alguma outra revista de música e pagava pau nas fotos, que eram muitas, especialmente as de shows. 

Quando voltei fiz cursos livres de fotografia já querendo me especializar em shows, bandas. Não tinha pretensão de viver disso porque já tinha meu trabalho na MTV e o custo do equipamento, lentes e filmes eram (e ainda são) caros. Mas passei a acompanhar o Hateen na estrada, peguei a transição deles de “maior banda do underground” para “revelação do rock nacional”. Quando saí da TV não tinha interesse em continuar na área, então peguei meu portfólio e fui à luta. Dei sorte ao ser escalado pra fotografar um show do CPM22 que virou o MTV Ao Vivo. Na época, fazer capa de CD/DVD era considerado um grande trabalho e teve um dos maiores cachês que já recebi com fotografia de palco até hoje. Saudade dessa época!  

Então as câmeras fotográficas começaram a filmar e o processo de me tornar um vídeomaker foi natural. Em 2011 rolou de ser chamado pra registrar a gravação do Agridoce, projeto que a Pitty fez com o guitarrista Martin quando a banda estava dando um tempo. Passamos 22 dias seguidos em um casarão na Serra da Cantareira, experiência que foi o laboratório para fazer as filmagens de um jeito bem simples. Inspirado no vídeo Funky Monks, do Red Hot Chili Peppers, tomei coragem e pedi pra editar o material. Ele virou o DVD lançado pelo Multishow, onde assinei a direção. Assim ficou fácil pegar gosto.  

Lembro dos seus primeiros trampos fotográficos registrando bandas, DJs e figuras ligadas a cena noturna. Teve algum fotógrafo em particular que te influenciou?

Foi na noite que arrumei os primeiros freelas e tudo que aprendi foi na prática, com equipamento limitado. Não me ligava muito a essa coisa de influência porque achava que minha habilidade estava a anos luz dos fotógrafos que eu achava foda: Anton Corbijn, Jim Marshall, Mick Rock, até o Bob Gruen. Mas com este rolou de expor meus trabalhos com música junto com as fotos dele na Oca do Ibirapuera (SP). Foi demais! Na época o Fotolog já era bem popular e foi a rede social que conectou os fotógrafos (e não fotógrafos) do mundo todo. Foi quando vi diversas imagens diferente de shows e baladas que me inspiraram. 

Como surgiu a ideia de documentar as bandas de noise/guitar/indie da cena dos anos 90? Já era um plano antigo?

O Paná (Marko Panayotis), amigo da época da MTV, veio com a ideia de fazer um vídeo independente das bandas alternativas nacionais que tocaram nos anos 90 e perguntou se eu faria as captações. Topei na hora porque essa cena foi muito forte, intensa. Não tinha registros daquela época até então. A intenção era postar no YouTube apenas. O nome Time Will Burn foi tirado do álbum de estreia do Pin Ups, que é o disco nacional que influenciou as demais bandas a cantarem em inglês. 

Começamos a gravar os depoimentos e a equipe era o Paná e eu só. Eu dava muito pitaco e aí acho que ele se encheu sugeriu logo da gente co dirigir o projeto e dividir as responsabilidades. Durante o processo começou a borbulhar essa expectativa por parte das bandas e da galera que frequentava aqueles shows. Percebemos que o assunto era mais importante do que imaginávamos. E mais difícil de fazer acontecer também, porque não tivemos incentivo de editais ou patrocínio. Só a ajuda de alguns amigos pra fazer a arte. Levamos 4 anos pra concluir. Aprendemos a duras penas mas valeu muito cada roubada. O filme estreou no Festival In-Edit do ano passado, foi sensacional. Sucesso de público e de crítica! (risos)

Capa do vídeo

Quais foram as dificuldades em coletar vídeos, fotos e depoimentos dos personagens daquela época? Teve alguém que deu trabalho pra achar?

O Erico Birds, guitarrista do Mickey Junkies, nos cedeu muita foto e recorte de jornais. Mas boa parte do material de arquivo em vídeo eram VHS, mini DVs e outros formatos analógicos que estavam literalmente no fundo de gavetas dos músicos e jornalistas. O maior custo real do projeto foi bancar as digitalizações destas fitas que nem os donos sabiam ao certo do conteúdo gravado nelas. O Luiz Gustavo, ex vocalista e fundador do Pin Ups, foi o cara que mais demorou pra nos retornar. Ouvimos diversas histórias a respeito dele, da personalidade forte do cara, então achávamos que não ia rolar. Foi surpreendente ele ter aceitado falar pro documentário porque ele enterrou de vez aquela fase da vida no passado. 

Graças ao documentário teve gente com menos de 30 que começou a se interessar pelo Pin Ups, Mickey Junkies, Low Dream e Killing Chainsaw. Você acha que a cena independente atual peca pela falta de espaço ou a molecada ficou mais acomodada?

É demais saber que o documentário despertou o interesse além da turma do saudosismo. Significa que a música com mais de 20 anos feitas por bandas brasileiras alternativas ainda têm seu prestígio. Não sei se a internet deixou a galera do independente mais acomodada, sei que a forma de produzir e divulgar mudou muito. Neste ano fiz webclipes de artistas que estavam gravando seus álbuns - ou somente singles - sem nunca terem se apresentado ao vivo. Isso não era comum pra gente. Com os contatos certos, arrumam um representante que têm o canal para exibir os clipes em programas de TV. Então o que antes era um espaço para poucos, hoje está mais acessível. 

Planos para o restante desse ano?

Tenho em mente um projeto de conversar com a galera da área pra descobrirmos juntos uma saída pra esta crise no mercado audiovisual, se é que existe alguma no momento. Começar um novo documentário também está nos planos, só não sei se, desta vez, será musical.

Escrito por:

Alexandre Bezzi

Música e cultura pop são suas paixões. Estudou artes plásticas, mas tomou rumo como DJ e jornalista. Seu sobrenome virou apelido e nome de música. Se amarra em coisas clássicas e atemporais. Promove festas, happy hours e tem o hábito de acordar cedo.
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