A Dita Curva - Espetáculo pernambucano composto somente por mulheres!

Dez artistas pernambucanas se uniram para criar um espetáculo que mistura poesia, dança, performance e música para refletir sobre o feminino.

Eu sou apaixonada por mulheres em todos os aspectos e tudo que permeia o feminino me fascina! Quando recebi o convite de ir até o Casa Natura Musical para assistir um show que trata sobre a narrativa da mulher, sobretudo, canta a verdade da mulher brasileira, não pensei meia vez antes de aceitar.

Idealizado pela cantora, compositora e dançarina Flaira Ferro, este espetáculo exprime exatamente como nós, mulheres podemos nos sentir em diversos momentos de nossas vidas.
Assim como tantas iniciativas feministas emergentes, ele traz por meio da arte, a autonomia da nossa voz. É político, poético e urgente em uma sociedade patriarcal que mata, oprime e silencia nossa existência todos os dias!

O projeto abraça coletivamente a individualidade poética e a potência criativa de cada uma destas artistas. Eu nunca havia visto nada igual e durante o show podemos aproveitar momentos de canto em grupo, solos, duos e quartetos.

Desta forma, elas conseguem ser muito plurais, unindo violino, percussão, violão, viola e teclado que transitam por vários estilos musicais. Juntas elas vão do maracatu ao rock e ao pop eletrônico. É surreal ver o que dez mulheres performando juntas em ações e contextos que viram rodas, caminhadas lentas, desenhos assimétricos e outras possibilidades de ocupar o palco com o corpo, podem fazer!
Conversei com as garotas nos bastidores para descobrir mais sobre este processo criativo feito apenas por mulheres.

O Ser Mulher

Isaar, que atualmente, canta na Orquestra Santa Massa e tem um projeto de show com Karina Buhr e Alessandra Leão conta que em sua visão, hoje estamos vivendo um momento do trabalho coletivo em várias esferas e a Dita Curva veio para agregar o trabalho de todas, pois ele potencializa a caminhada de cada uma individualmente!

Todo o espetáculo foi criado conjuntamente, cada artista apresentou suas músicas e a partir disto feito já em ordem de repertório, foram surgindo imagens cuidadosamente colocadas no espaço cênico, para que cada um que assistisse pudesse ser tocado pelo todo que compõe este exercício coletivo delas, me explicou a diretora artística Lilli Rocha ., que tem como sua parceira nas coxias, Natalie Revorêdo, responsável pela iluminação de palco mais linda que eu já vi!

Bandas são formadas no país todos os dias e há hoje um movimento e uma vontade muito forte das artistas femininas de se unirem e realizarem trabalhos 100% feitos por mulheres. E eu creio que isso se deve ao jeito como vemos o mundo e lidamos com os nossos próprios processos.

Nascida no Recife, Luna Vitrolira é poeta declamadora, cantora, atriz, performer, arte educadora, professora de literatura brasileira e pesquisadora de literatura oral. Desde que iniciou a carreira, a artista vem se apresentando em importantes eventos e festivais literários por todo Brasil! A proposta da Dita Curva é realmente bem diferenciada não só pelo resultado que está no palco, é justamente pelo processo e ela conta que todas já trabalharam com homens, e muitas vezes não há espaço para o diálogo, para a escuta. No ensaio elas são muito ritualísticas, abrem espaço de fala para todas poderem expor o que estão sentindo e como aquilo pode ser transformado.  Estas mulheres vibram muito umas pelas outras durante o espetáculo e se emocionam juntas durante todo este caminho que é de fato um acolhimento.

Nordestina sim Sinhô!

"Este espetáculo é fruto de um tempo novo, onde a gente desperta para o que nos foi imposto anteriormente e estamos destruindo esta sociedade machista e patriarcal, neste exercício de se juntar e se olhar enquanto mulheres que vem do Nordeste do país", diz uma das apostas da nova safra de cantoras brasileiras, a pernambucana Isadora Melo, que é referência pela precisão e personalidade. Isso abre espaço para uma reflexão muito interessante, pois ainda hoje existe um pensamento muito xenofóbico em torno do povo nordestino e mesmo aqueles que se dizem amantes da arte que vem deste canto do país, acabam colocando a cultura nordestina, dentro de um estereótipo raso, onde aparentemente só existe o Frevo e o Axé, por exemplo.

O Nordeste construiu o país e quando a gente pensa em ser nordestino, na mesma hora me vem o sentimento de ser forte e ser capaz de atravessar todas as formas de opressão! Nos sentimos portadoras desta mensagem de mostrar que o nordestino é muito mais do que a figura caricata do “cabeça chata” e viemos mostrar isto.

Flaira Ferro é formada em Comunicação Social e vem se destacando como voz atuante da nova geração de compositores e representantes da música pernambucana!

Sofia Freire é cantora, compositora e pianista do Recife. Atualmente em turnê, Sofia foi convidada para participar do show “REFAVELA 40”, de Gilberto Gil, em sua passagem pelo Nordeste e comenta que elas fogem dos estereótipos do pernambucano, tocando também música eletrônica, brega funk e colocam até um Trap no meio para mostrar que há muito mais para explorar musicalmente e elas desejam botar isso no palco!

"Esta geração de artistas vêm colocando o Nordeste em alta! Muitas casas de shows estão surgindo na região e nós conseguimos hoje construir nossas carreiras no próprio Nordeste, seja em Recife ou no interior de Pernambuco ou mesmo outros estados", diz novamente Isadora.

Processos Criativos e Sensitivos


Cantora, letrista, intérprete e atriz, Aninha Martins conquistou espaço em diversas bandas do Recife e relembra que todas as cenas Recifenses são basicamente feitas por homens, desde o Armorial até o Manguebeat e depois de muitos anos, finalmente dentro da cena pernambucana, onde muitas mulheres estão produzindo seu trabalho, e ela ressalta que são apenas um pontinho dentro deste movimento, as mulheres estão sendo protagonistas!


A violinista gaúcha Paula Bujes reside em Recife desde 2013 e reinventa seu trabalho na efervescência cultural da cidade. Em sua trajetória, acumulou vasta experiência como violinista em orquestras e grupos de música de câmara no Brasil e nos Estados Unidos e é a Diretora musical deste projeto!

Ela me contou que é de uma grande coragem e ousadia o que estão realizando juntas, A Dita Curva está fazendo história! Paula vem do meio musical erudito, que é bastante opressor, masculino, branco e por que não dizer elitista, ser inserida neste contexto novo, foi preciso muita coragem pessoal para ela. "Botar fé neste processo 100% feminino foi uma luta, pois nesse meio erudito a gente é treinado para achar que vai dar tudo errado, se sobrecarrega com horas e horas de estudo, muitas vezes sem significado prático. Estar com outras mulheres que carregam outras bagagens artísticas me fez aprender a confiar em um processo mais intuitivo" diz.

Arte como protesto

Eu trabalho com a palavra, transito nos espaços todos que são a rua e sempre pensei na arte como um instrumento de conscientização e que abre as pessoas como um portal, para a sensibilidade e humanização. A Dita Curva é de verdade um ato político pois fala do que é ser mulher negra, ser mulher gorda, ser mulher mãe e todos os seus enfrentamentos.

Luna Vitrolira.

De fato, nós estamos pegando de volta com unhas e dentes todos os espaços que nos foram tomados desde o início dos tempos e ter espetáculos como este, compostos apenas por integrantes mulheres, desde a concepção, iluminação, direção de cena e musical, até a parte de assessoria de imprensa é algo que nos impulsiona cada vez mais e nos faz ter certeza que juntas podemos chegar muito longe!


Segundo os estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada duas horas, uma mulher morre no Brasil vítima de violência e a falta de padronização e de registros atrapalham monitoramento de feminicídios no país.
Se considerarmos o último relatório da Organização Mundial da Saúde, o Brasil ocuparia a 7ª posição entre as nações mais violentas para as mulheres de um total de 83 países.

Mesmo três anos após a sanção da Lei do Feminicídio, três estados brasileiros no ano passado ainda não contabilizavam os números e outros ainda hoje possuem apenas dados parciais, isso significa que ainda há um caminho muito longo, até que nós possamos verdadeiramente existir neste país.

Que hajam mais mulheres como estas que lutam, amam e levam mensagens de força e empoderamento às mulheres de todo o Brasil, para que a gente possa enfim ser mulher, sem medo, mesmo em tempos ainda tão tenebroros!


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Escrito por:

Ana Medioli

Ela é bruxa, publicitária e sonha em ser mãe de família, mesmo tendo um monte de tatuagens pelo corpo, uma vida não tão regrada assim, e jura que segunda começa a dieta, sempre! Aos 27 anos já se mudou mais de 10 vezes em SP, se considera uma cigana na cidade grande e acredita de verdade que a arte vai salvar todos nós do fim do mundo.
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