SLOP e sua faceta musical

Sérgio Lopes, ou Slop, já passou por aqui para falar de seu trabalho com artes plásticas e street art. Na época, perguntei um pouco sobre seu trabalho com produção musical e resolvemos fazer uma nova entrevista 100% focado no tema. O artista faz parte de uma rara leva que une som e visual em seu currículo e, heroicamente, mantém-se de pé numa cena em que poucos ficam pelo amor a arte e jogam a toalha cedo. 

Falamos sobre estilos musicais, o lado positivo e negativo de ser um produtor musical e sua experiência de ter suas faixas lançadas no exterior em esquema independente.

Você acha que sua arte complementa sua música e sua música complementa a sua arte?

Com certeza. Um exemplo disso é o sentimento de ouvir um disco observando a arte da capa. Era o que a geração passada fazia. Não baixava a música e saía correndo pra tocar na pista. Havia uma assimilação artística antes. A dinâmica dos arquivos baixados em mp3 fez a arte se distanciar dos álbuns, por mais esforço que é feito pelos artistas. No meu caso, eu sempre estou produzindo um vídeo, um quadro ou uma arte digital enquanto produzo minha música. Já nascem complementares. 

Capa do vídeo
O artista que sintetiza seus trabalhos no visual e sonoro é uma raça em extinção?

Não em extinção, mas já podemos classificar "em perigo de extinção". Porque em primeiro lugar, e que a verdade seja dita, não são todos que têm essa capacidade e disposição de atuar na esfera visual e musical de forma satisfatória. Em segundo lugar, muitos que começam a produzir música não estão encarando ela como uma forma de arte e expressão completa e, sim, como uma forma de agradar um número maior de pessoas e ter sucesso. Dessa forma, essa raça vai se extinguindo. 

Na música eletrônica o que você recomenda e o que você falaria para passarem longe?

Recomendo enxergar como cultura. Como se fosse um livro ou uma obra de arte. Aprender a diferenciar o que é descartável do que tem algo a dizer. Recomendo também manter a cabeça aberta e respeitar as diferentes maneiras de se viver a música eletrônica. Uns tocam com controladores, outros com discos, uns produzem, outros dançam, uns são experts, mas não tocam, uns tocam muito, mas não produzem, alguns entendem só de sintetizadores. É uma cultura vasta. Fujam de pessoas que vivem a música eletrônica somente pelo dinheiro ou sucesso. Fujam de donos de agências e labels que não te tratam bem. Ser tolerado é bem diferente do que ser desejado. 

O edm quase matou a música eletrônica e agora começa a amargar sua decadência. Seria a hora de estilos mais cabeçudos e alternativos do gênero se erguerem?

Ok, eu não curto EDM, mas acho que tem o seu papel na música eletrônica. Como estilos mais cabeçudos e alternativos se reergueriam depois da decadência da EDM? Se uma pequena parte do público que entrou na música eletrônica via EDM evoluísse seu próprio gosto musical. Um garoto com 16 anos que foi no festival ver o David Gueta ou tomou um bolo na cara do Steve Aoki no passado, pode ser a pessoa que vai ao Dekmantel hoje. Posso estar sendo utópico e exagerado, mas tenho esperança nessa pequena parcela de pessoas que "acordam". A EDM pode ser uma porta de entrada de certa forma. 

Fazer música para maioria está ligado ao sucesso, cliques e likes. Qual o caminho para se manter no underground e ter um público fiel?

Ser sincero em todas as suas músicas. A sinceridade, muitas vezes não é agradável. A sinceridade não dá muitos likes e cliques. Mas por outro lado te aproxima de um público também muito sincero além de fiel. Certa vez ouvi de um DJ: "Cara, curto o teu som demais! Mas tenho medo de tocar na pista, vai que ninguém entende e sai andando". Eu não tinha perguntado nada, mas valorizei a sinceridade dele. Talvez minha música seja pra ele não para seu público. Simples assim. 

Fale-me de sua experiência de ter seu material musical lançado no exterior e como rolou isso?

Em 2010 um alemão me achou pelo soundcloud e me convidou para lançar no selo dele, a Chibar Records. Lá desde então foi minha casa. Levei alguns artistas pra lá e fizemos inúmeros trabalhos em parceria até hoje. Com o passar do tempo fui lançando em mais alguns labels, todos alemães, a ponto de eu sair em coletâneas com nomes fortes do underground como Mark Henning, Miro Pajic e Dapayk Solo. Eu fiquei curioso e acabei indo pra Berlin pra meses de muita festa e nenhuma apresentação. Na volta continuei lançando e hoje tenho lançamentos na Ucrânia, Espanha e Brasil, além da Alemanha que considero mais aberta pra minha música. 

Que conselho você daria a novos produtores para não desistirem ou se decepcionarem caso algo dê errado?

A decepção pode fazer parte do jogo em algum momento. Saiba disso e não deixe ser o elemento para a sua desistência. Nunca. Faça música boa para seus ouvidos, que toque a sua alma. Será mais difícil de você desistir. Lembre-se que é arte e não UFC. Não existe competição e sim um aprimoramento individual completo. Você só perde pra você mesmo. Sendo assim, a única coisa que pode te fazer desistir é você se decepcionar consigo mesmo.

Escrito por:

Alexandre Bezzi

Música e cultura pop são suas paixões. Estudou artes plásticas, mas tomou rumo como DJ e jornalista. Seu sobrenome virou apelido e nome de música. Se amarra em coisas clássicas e atemporais. Promove festas, happy hours e tem o hábito de acordar cedo.