Quando o rock vai de encontro à androginia

O rock sempre foi uma porta de entrada para músicos com intenção de ousar, na criação de um estilo sonoro ou estético. Por essa abertura para a liberdade de expressão, em momentos e décadas diferentes, roqueiros resolveram adotar a androginia como tendência visual.

Para quem não tem conhecimento do termo, androginia vem da palavra grega “androgimno”, cujo prefixo “andro” significa homem e o sufixo “gimno” designa mulher, estabelecendo em sua composição o conceito de gênero indefinido ou abrangência de ambos os sexos em uma só pessoa. Na música, o andrógino possui um posicionamento ligado a características externas, ou seja, compreendendo a androginia como uma forma de moda que não assume um gênero específico em sua maneira de vestir ou agir.

Transcendendo as imposições do que é homem e do que é mulher, alguns nomes fortes do rock já introduziram o estilo andrógino durante suas carreiras, com destaque para David Bowie (imagem acima), que inclusive criou um alterego para fazer distinção entre suas escolhas pessoais e as de seu personagem Ziggy Stardust, que viera do espaço cantando para uma geração conhecida como glitter.

Partindo dos anos 70, a androginia na música aderiu aos estilos que faziam sucesso na época, como o Glam Rock de Bowie, que ajudou a popularizar modelagens excêntricas, roupas repletas de paetê e plumas, e o Heavy Metal do Twisted Sister (foto acima), que incluía estampas de oncinha, franjas e cores vibrantes, ambos gêneros musicais nos quais os músicos utilizavam muita maquiagem, com destaque para sombra e batom de tons chamativos.

Confira abaixo outros representantes da androginia no rock:

Patti Smith

Considerada a “poetisa do punk”, Patti Smith é um ícone feminino importante no rock’n’roll, que, desde cedo, adotou um visual andrógino característico, questionando as barreiras entre a distinção de gêneros. Adepta a brechós desde os anos 70, Patti disseminou o uso de gravata e paletó para mulheres, mesmo que a sua intenção não fosse realmente causar com o seus looks despojados, pois aquele era apenas o seu estilo pessoal.

Boy George

Com inúmeras facetas diferentes, o cantor de new wave Boy George, como bom fã de Bowie, incorporou uma aparência polêmica desde a adolescência. O músico, que também era maquiador, carregava no uso de cores e vestimentas escandalosas, fazendo muito sucesso nos anos 80. Ao faturar um Grammy em 1984, George associou sua androginia com performance drag ao agradecer pelo prêmio: “Obrigado América, vocês têm gosto, têm estilo e sabem reconhecer uma boa drag queen quando veem uma”.

Annie Lennox

Sucesso nos anos 80 com a música Sweet Dreams, Annie Lennox nunca se prendeu a um só estilo musical, transitando entre o new wave e pop rock. Já em questão de estilo, a cantora segue na androginia até os dias de hoje, utilizando peças tanto do guarda-roupa masculino, como do feminino. Annie chegou a ganhar uma exposição no museu londrino Victoria & Albert em 2011, celebrando seu visual masculinizado por desafiar a sociedade conservadora na época de seu estrelato.

Marilyn Manson

A polêmica já está no nome do músico, que fez uma combinação inspirada na atriz Marilyn Monroe (símbolo sexual de uma era) e no criminoso Charles Manson (líder de um culto de assassinatos), compondo uma ideia de feminino e masculino bem contraditório, traduzindo em uma única pessoa uma espécie de dualismo bizarro. Marilyn Manson não se destaca apenas pelas melodias do seu rock industrial, mas abusa também de sua imagem em figurinos perturbadores desde seu surgimento em 1989, tornando a androginia macabra sua marca registrada.

Brian Molko

Além de capa dessa Matéria, Brian Molko é vocalista e guitarrista do Placebo e já foi bastante adepto da androginia nos anos 90. Com um look de pele suave, corte de cabelo channel e batons de tons terrosos, o músico até mesmo nomeou o seu estilo como Manorexic. Abertamente bissexual, Brian e sua banda de rock alternativo sempre foram bem recebidos pelo público queer roqueiro, e trazem a homossexualidade e diferentes formas de amar como conteúdo habitual de suas canções.

Bill Kaulitz

Dono de um rosto angelical que contrasta com a maquiagem pesada nos olhos, roupas justas cheias de spikes e sapatos plataforma, Bill Kaulitz, vocalista da banda Tokio Hotel, inspirou muitos jovens nos anos 2000, que copiaram principalmente seus penteados extravagantes. Em entrevista para a revista alemã Bild, Kaulitz falou sobre sua androginia e como para ele sempre foi importante ser livre para se vestir como bem entendesse. “O maior território de liberdade é o seu próprio corpo, quero ser eu quem decide o que desejo projetar”, disse o músico.

Androginia em comparação com o gênero não-binário

Na psicanálise, a androginia é vista como uma forma indeterminada do ser humano, que abdica ao pertencimento a um gênero exclusivo no seu vestir e abraça a premissa de não apresentar uma identidade sexual.

Pensando além do estético, a androginia pode sim ser associada com a não-binaridade, orientação de gênero que não comporta atributos relativos ao masculino ou feminino, ou seja, não se enquadra nem como 100% homem, nem como 100% mulher.

Entretanto, é válido sinalizar que a androginia no Rock abrange somente o aspecto visual, não distinguindo gênero apenas no modo de vestir ou na performance do artista no palco, sem querer dizer que o mesmo se identifica como não-binário.

Escrito por:

Luna Rocha

Designer de moda, interessada em styling e consultoria de estilo, além de louca por acessórios temáticos e excêntricos. Como redatora, cria conteúdos sobre arte, moda e cultura pop para plataformas digitais.
Popular em Rock