Maitê Zara é uma jovem artista de 23 anos, nascida no Ceará que passou a maior parte da sua vida em Belém do Pará. Formada em artes visuais, hoje não se identifica como artista, mas como amadora , por não se sentir completa e estar em constante evolução e aprendizado.

 
Para entender melhor seu estilo, é necessário aprender sua história. Maitê nunca se deu bem com o sistema tradicional de educação, ainda que tenha passado por todo o processo. Com dificuldades de concentração e adaptação, a arte foi a válvula de escape. Com mãe artista e pai engenheiro, sempre recebeu apoio da família. Passou pela música, onde começou a tocar nas noites paraenses em bandas covers, foi fotógrafa e educadora.
 
Na faculdade Maitê encontrou sua identidade. Ao ver seus traço, um professor a indicou os trabalhos de Francis Bacon e de Egon Schiele, um pintor austríaco expressionista, com um notório trabalho de traços. 
 

Seu trabalho com educação

Como educadora, foi trabalho dela apresentar para adolescentes e crianças as obras da “Casa das Onze Janelas”, museu de arte contemporânea de Belém do Pará. 
 
O grande desafio foi inserir a arte no meio de jovens fragilizados pela pobreza que vigora no estado. Foi assim que, após um estudo, ela passou a trazer as obras do museu para a realidade dos alunos, usando as vivências deles como ponte.
 
Nem sempre a ponte fazia juz ao dossiê da obra, mas era a melhor forma de aproximar esses jovens de realidade tão distante do que é apresentado no Museu, um ambiente que costuma ter uma ideia elitizada da arte e de tratá-la de maneira que poucos realmente conseguem entender. “O papel do mediador é de aproximar e discutir o que for possível de acréscimo para essas pessoas.".
 

Arte e política

Ainda que diga não assumir posição política em sua arte, Maitê deixa claro que representa rostos fora do padrão e não vendáveis. “Nunca foi minha ambição colocar meus posicionamentos políticos para o mundo… também não quero me abster completamente, porque acho importante ter representatividade.”.
 
Em sua obra vem estudo de cor, pele e pessoas, mas nada explícitos sobre direita, esquerda, feminismo etc.
 
 

A solidão e a resistência do artista independente

“Ser artista é um ato político”

Um artista é formado por contradições. Talvez seja devido ao seu constante estudo e aprendizado cultural, ou apenas por pura inquietação. O fato é que, como muitos, Maitê também se contradiz quando o assunto é política e arte.
 
Ela deixa claro que seus posicionamentos políticos são reservados apenas para pessoas próximas, mas ainda assim, assume responsabilidades políticas em sua obra e trajetória.
 

“As belas artes sobrevivem”

Maitê discute a verdadeira necessidade da arte e chama a atenção ao sucateamento da cultura no Brasil, “Numa crise, a primeira parte que morre é a arte, é a cultura”.É nessa situação de sobrevivência, que a artista se vê no solitário meio independente. “Sendo artista você está resistindo. Isso já é um ato político”. 
 
O abandono da arte pelo Estado e a incompreensão do grande público torna, para artistas de diversas áreas, o meio independente não só a única opção, mas a mais solitária delas. É necessário estar preparado para a rejeição da maioria. “Para que as pessoas me deem credibilidade, tenho que me apresentar falando de todas as minhas habilidades. Sou artista, designer, ilustradora, fotógrafa. Isso para COMEÇAR a ter respeito. Não é como meu pai que apenas diz ‘sou engenheiro’ e já é situado e respeitado em seu meio”.
 
 
 

Os rostos de Maitê

Desde os 16 anos, a artista tem relação forte com a fotografia, mas fotografar rostos sempre foi uma grande dificuldade. “Eu não tenho coragem de fotografar pessoas, eu acho muito íntimo. Eu tentei, mas quando eu percebi que era muito íntimo e que aquilo me amedrontava um pouco eu parei de me aventurar nesse sentido”. Como alternativa ela começou a pintar esses rostos, “Não tem personagens dentro da minha fotografia, então eu os trago na minha pintura”. 
 
Sua arte passou por fases, todas elas que quebram estereótipos físicos. Ela costuma representar rostos sem gênero, ou simplesmente que se afastam do estereótipo midiático de beleza “Eu tento pintar rostos em que as pessoas podem se ver em pequenas partes”.
 

“Quando alguém se identifica com o que eu faço, rola uma conversa sem palavras” 

 
 
Sua pintura tem duas vertentes, o Fenômeno, que traz o estudo da luz, contraste, da composição que pega um pouco do design, outra vertente de estudo dela. E também tem o caminho do estudo das cores.
 

“No mundo a gente tem um estereótipo de beleza, que é uma pele de bebê, angelical… pessoas brancas, sem rugas. Tá ai! Provavelmente ISSO seja um posicionamento político, porque eu não reproduzo esses rostos.”.

 

As cores de Belém do Pará

“Uma pessoa que vai em Belém, percebe que lá é o lugar mais colorido da Terra” 

Em Belém do Pará as pessoas abrem letras (ato de criar uma tipografia). Existe um incrível estudo de tipografia não registrado. A arte tipográfica é um fenômeno cultural. Existem famílias que passam isso por gerações. O trabalho de Maitê leva muito dessa cultura tipográfica que vem dessa referência, da cultura paraense de abridores de letra. 
 
 
 
 

Exposições e trabalhos

Hoje Maitê mora em São Paulo, mas no dia 27 de setembro volta para Belém do Pará, na galeria Azimute, na vila Container, que irá receber a exposição “A luz que existe na cor”. Além de venda de peças haverá reunião e dará pra bater uma papo com a artista.
 
Se curtiu o trabalho dela, é só acessar o site maitezara.com.br. Lá você irá encontrar mais informações, prints e contatos.