Só rolam cinco mulheres que praticam o esporte radical no Brasil. O Freak Market falou com três delas

“Você não vale, você não é mulher”, comenta o cidadão numa ~brincadeira~. “Acho melhor você olhar no meio das pernas dela para conferir se é mulher mesmo”, continua ele, direcionando a epifania para o namorado da base jumper Julia Botelho, 29 anos.

A atleta contou a frase ouvida de um colega do esporte para o Freak Market em entrevista por telefone. “Não sei se é inocência ou noção de brincadeira, mas sim, a gente ouve esse tipo de coisa”, pondera ela, que também é escaladora e pratica atividades físicas desde a infância, incentivada pelo pai surfista.

Se existem conceitos gerais de esporte de aventura, talvez o base jump seja um dos mais radicais. “Base”, na real, é um acrônimo em inglês para Building, Antenna, Span, e Earth. Em tradução: prédio, antena, ponte e terra (montanha). Como “jump” é pulo ou salto, as leitoras e os leitores espertos já devem ter sacado que se trata de pular desses lugares, em alturas variáveis.

“Coisa de louco” ou “de macho” para alguns, o base jump é, na real, superação, técnica e saber lidar com fatores externos que não se pode controlar. Uma verdadeira alegoria da vida. Espaços para errar são mínimos: tudo é feito com muita perícia, inteligência e treino – para vestir oficialmente o wingsuit (roupa de “morcego”, com asas) ou o tracksuit (roupa que enche de ar e fica semelhante a um marshmallow), a pessoa precisa ter saltado mais de 150 vezes de paraquedas. Existem por volta de 60 atletas do esporte no Brasil; apenas cinco são mulheres. Você vai conhecer por aqui a história de três delas.

 

 

Julia

Voltando à Julia, que abre a foto desta reportagem e mora nas montanhas no Espírito Santo. Por ser escaladora, ela tem uma preparação física que põe muito homem no chinelo – mas, ainda assim, sente o tratamento diferenciado dado por eles.

“Quando divulgo alguma coisa que fiz, um salto que consegui, geralmente os caras do base jump não comentam nada. Um cara faz igual, tempos depois, e é aplaudido e parabenizado pelos homens. Você não vê os homens fazendo elogio, sempre é para os outros caras. Nesse sentido, sinto muito machismo no esporte”, desabafa ela, que está indo saltar na Califórnia hoje por um período de dois meses – super incentivada pelo namorado, que é instrutor do esporte e percebe essa “diferenciação” sexista, segundo Julia.

Julia Botelho curtindo a vida adoidado | Crédito: Divulgação

Julia Botelho curtindo a vida adoidado | Crédito: Divulgação

Ela conta que, dia desses, divulgou um vídeo de saltos feitos com outros homens em um grupo privado do WhatsApp. Um cara parabenizou todos os do sexo masculino. “Parabéns fulano, parabéns beltrano… Eu mesma completei: parabéns para mim, já que filmei tudo!”, diverte-se. “É tão sem querer, essa coisa de não fazer elogio à mulher, que já desencanei, procuro fazer o meu e mostrar para mim mesma do que sou capaz”, completa.

Outro episódio sexista marcou o começo da carreira da base jumper há alguns anos. Seu ex-namorado, que também saltava, proibiu os amigos de praticar o esporte com ela – não queria que a atleta permanecesse nesse meio. Acabou isolada, sem perspectiva de aprender por um tempo. Hoje a situação já se reverteu (“todo mundo sacou que era viagem”, diz ela), mas a pessoa que mais a incentivou nos corres e no aprendizado foi outra mulher, Rita Birindelli, 32 anos, base jumper e sargento do Exército.

Se joga, Rita Birindelli! | Crédito: Divulgação

Se joga, Rita Birindelli! | Crédito: Divulgação

Rita

O coração tranquilo de Rita transparece na sua fala imponente e graciosa, que rompe com estereótipos não apenas sexistas, mas de tudo na vida. “Existe uma caricatura de uma pessoa ávida por adrenalina”, ela explica, “mas o base jump funciona como uma meditação para mim. É um tipo de conhecimento que não tenho, nem nunca tive, em outra atividade. Penso muito no quão importante é o aqui e o agora, o quanto eu tenho que viver o presente. A gente nunca pensa que vai embora. Isso pode acontecer com qualquer um e o base jump te coloca isso, em momentos mais arriscados. E me faz refletir sobre o assunto: não só viver mais; viver mais o presente demonstrando isso para as pessoas. Sempre vem essa reflexão: se acabasse hoje, teria valido a pena? Entre o nascimento e a morte, existe o período valioso para se fazer as coisas.”

Ela deu sorte entre os praticantes de base jump, já que nunca vivenciou um comportamento sexista. Fora dos círculos do esporte, contudo, a realidade é um pouco diferente: fica explícito que uma mulher, enquanto praticante do esporte, rompe padrões da sociedade patriarcal.

“Quando você diz que salta, a primeira reação é: ‘ih, é uma menina!’ Esse tipo de reflexo é muito relacionado com a sociedade, intrinsecamente machista. Pega, por exemplo, as brincadeiras de gênero. O menino pode se imaginar sendo qualquer coisa, e a menina geralmente brinca de boneca. É uma representação do que a sociedade espera de você”, reflete a atleta. “Então a prática de base jump por mulheres é, sim, uma quebra de paradigmas.”

Rita sofreu um acidente recentemente e está em recuperação. Voltará para o base jump, mas, por se destacar no esporte, esse imprevisto virou notícia. “Muita gente que eu conheço disse que eu ‘procurei’ por isso. Nos comentários de site, pessoas que não conheço disseram que aconteceu porque sou mulher. Não tem nada a ver e fiquei muito chateada com isso, mas deixei de lado porque estar no esporte é uma escolha minha e não interessa a mais ninguém”, desabafa.

Além de Rita e Julia, há outras duas praticantes ativas no base jump no Brasil: Paloma Oliveira e Julie Vidotti. Patricia Porto é a quinta, mas fez uma pausa para integrar o time de paraquedismo das Forças Armadas.

Existe disputa entre as garotas? Todas elas afirmam categoricamente que não. “É um senso comum que mulher não pode ser amiga. São padrões criados que a gente acaba acreditando. Se não romper com isso, você leva para a vida. As meninas sempre trocam ideias e conhecimentos, tem uma relação muito bacana entre a gente”, afirma Rita.

 

 

Numa sociedade em que mulheres correspondem a metade da população, fica a questão: por que o base jump tem números encolhidos de participação feminina?

Uma das explicações práticas é o custo alto envolvido no esporte. É preciso ter um currículo com mais de 150 saltos de paraquedas para ingressar no base jump, e cada salto de paraquedas custa uma grana preta no Brasil. O investimento financeiro acaba restringindo participantes, sejam estes homens ou mulheres.

No caso das mulheres, contudo, a gente volta àquele assunto dos paradigmas sociais, do que a comunidade careta espera delas. “A principal barreira no geral é como ela vai ser vista estando em grupo de homens, andando com homem, tendo amigos homens, trocando informação com eles… Se você tiver um relacionamento com um homem que não entenda, ele vai implicar com isso”, diz Rita. “Depois que comecei a saltar, não tive nenhum namoro fora do esporte. Nossa sociedade é bem machista sobre relacionamento. Então existe uma outra quebra de padrão: o estereótipo da mulher que só anda com homens”, continua.

As meninas do base jump só namoram com os caras do esporte? Não necessariamente: o ponto fora da curva é Paloma Oliveira, cujo marido é um programador de mente aberta – mas essa é outra história que vamos contar na sequência.

Rita Birindelli e Paloma Oliveira saltam de uma ponte na sequência | Crédito: Divulgação

Rita Birindelli e Paloma Oliveira saltam de uma ponte na sequência | Crédito: Divulgação

Paloma

O jeito delicado da artista digital e base jumper de 33 anos não depõe en nada contra sua iniciativa dentro do esporte: ela foi a primeira mulher a completar todos os acrônimos do salto dentro do Brasil, ou seja, prédio, antena, ponte e montanha.

Apesar da predominância masculina, Paloma ensina que uma mulher brasileira foi um pivô no desenvolvimento mundial do esporte: Marta Empinotti, que fez seu primeiro salto na metade dos anos 80. “Ela não só entrou de cabeça no esporte como ajudou a desenvolver equipamentos, inclusive.”

Embora os leigos achem que o esporte dependa de força, a estratégia e o gerenciamento de riscos são os fatores predominantes no base jump. “Você trabalha com frações de segundo que fazem toda a diferença e lida com coisas que não estão na sua mão. Uma rajada de vento, por exemplo”, explica.

Mesmo assim, ela encara alguns comentários esdrúxulos vindos de outras pessoas. “O machismo é algo tão enraizado na nossa sociedade que você demora para entender que alguns comentários são uma afronta”, analisa. “Vejo isso em dois aspectos diferentes: das pessoas que não saltam e dizem: ‘nossa, você é macho, hein?’ É uma admiração assustada com um sexismo intrínseco, um respeito errado.”

E prossegue: “o segundo ponto é o aspecto pessoal. Hoje tenho um marido que é incrível e dá um show de bom-senso, mas já tinha desistido de ter uma vida amorosa estável.” Como é um esporte com muitos homens ao redor e que exige tempo pessoal para a prática, Paloma sofreu com ataques de ciúme e teve incontáveis namoros terminados, já que seus ex não podiam “confiar” em uma mulher rodeada por pessoas do sexo masculino por tanto tempo. O base jump também aparecia como um entrave por ela ser “muito foda”, supostamente acima dos seres humanos comuns. “Mas não tem nada a ver”, protesta ela. “Somos pessoas comuns como todas as outras! Não sou melhor do que ninguém por saltar de uma montanha.”

Paloma Oliveira salta em Zakynthos, na Grécia | Crédito: Acervo pessoal/Kontizas Dimitrios

Paloma Oliveira salta em Zakynthos, na Grécia | Crédito: Acervo pessoal/Kontizas Dimitrios

De carne e osso até podem ser, mas essas meninas são desbravadoras no terreno cheio de moralismos que é a sociedade brasileira.

Entre os homens que praticam o esporte, Paloma diz que já ouviu gente dizendo que não gostaria que sua namorada fosse base jumper. “Muitas vezes nos tratam com excesso de zelo, e isso também não é legal porque reforça aquela ideia de ‘princesinha’. Mas sei que isso não é por maldade. De pessoas de fora, já ouvi barbaridades do tipo ‘nossa, você é muito macho’.” São, em síntese, elogios do avesso. “Entendo o que dizem, mas não acho que sejam benéficos para a sociedade”, pondera ela.

Como encarar comentários sexistas? “Ah, é bem difícil eu estar mal-humorada. Geralmente respondo que eu sou mulher pra caramba”, diz, entre risos.

Os perfis das meninas que praticam o base jump são diferentes e complementares. “Esse clichê machista de competição entre mulheres nunca se aplicou com a gente. Ganhei irmãs no ato! Temos muito carinho entre nós. Existe uma delicadeza entre mulheres. Quando perdemos alguém [por morte no esporte], nos permitimos chorar, dar as mãos. O mais importante no esporte é o psicológico, e a gente lida muito bem com isso juntas”, afirma.

Para elas – que fazem juntas o programa Meninas do Base Jump no Canal Off – cuidar é bem mais importante do que competir. “O bonito do esporte radical é isso: te força ao estado meditativo do presente. Só desperta coisas boas ao redor.” Que essa vibe se espalhe e atinja o Brasil todo, sem distinção por gênero.

Paloma Oliveira aterrissa depois do salto de base jump. | Crédito: Divulgação

Julia Botelho aterrissa depois do salto de base jump. | Crédito: Divulgação

(As fotos usadas nesta reportagem foram gentilmente cedidas pela divulgação do Canal Off)