“Por mais que a gente se mate aqui em cima, a primeira coisa que perguntamos quando acaba a luta é ‘Você está bem? Se machucou?’. A gente cuida um do outro porque todo mundo tem o mesmo sonho”

 

Telecatch, WWE SmackDown, Glow… qual o seu primeiro contato com a luta livre? Essa foi para primeira pergunta que fiz a alguns lutadores da BWF  (Brazilian Wrestling Federation) e o que todas as respostas tinham em comum é que a paixão pelo esporte começou na infância. Alguns como  Gabriel Gonçalves (Acce) ,Raphael Rodrigues ( Rapha Luque) eVictor Boer (Sensacional) se inspiraram quando viram a luta pela rede aberta SBT (sendo às vezes surpreendidos pelo programa “Casos de Família enquanto queriam ver o  show) e pelo game SmackDown. E, em alguns casos especiais, a referência veio de fora, como é a história do  Italo Pinillos (Lobo Peruano), que começou a assistir a luta por causa do irmão lá no Peru, sua terra natal, e hoje, aos 18 anos, mora no Brasil apenas para treinar.

Dia 28 de outubro foi um dia especial pra eles. Em Osasco acontecia a WSW, um evento que os reuniu aos ídolos. Eu tive a oportunidade de ver a luta ao vivo. Da plateia era impossível não vibrar com Bob Jr apanhando de Carlito e não pensar em como os lutadores brasileiros se sentiam nesse momento, por isso resolvi conversar com eles sobre a Luta Livre no Brasil.
 

 

Combinei de encontrar Raphael Rodrigues (conhecido como Rapha Luque) no Metrô para acompanhar o treino dos lutadores. Assim como quase todos lá, ele tem um emprego fixo e a luta é uma “segunda vida”. Não é um Hobby. Se eles pudessem, viveriam só da luta livre, mas aqui ainda não é uma opção. 
Era uma noite chuvosa e ele comeu o lanche no ônibus à caminho do treino. Chegando na academia, os outros já tinham começado. Em uma mistura de crossfit, teatro e luta, eles correm, pulam, socam e decoram coreografias complexas, tudo de uma vez. O som do ringue é estrondoso! Eu sei que é projetado como um tambor, mas ainda assim me fazia parar as fotos pra entender o que estava acontecendo.
 
 
Fim do treino. Todos acabados, sentam-se no ringue para conversar comigo. O que esperar dos caras que lutaram com Carlito e Juventud e deram entrevista para o Danilo Gentili? O fato é que consegui mais do que esperava e o que era pra ser só uma entrevista, virou essa matéria aqui.
 

Como foi lutar com seus ídolos?

 
Raphael Rodrigues: Por conta do cabelo, desde que eu comecei, as pessoas já diziam ‘Ahh você gosta do Carlito né?’.  Ele já era um dos meus favoritos por causa do vídeo game e tinha uma identificação porque o cabelo dele é muito foda mesmo… e a gente os conheceu na segunda feira, antes do evento no SBT, quando gravamos o The Noite. Por fora ‘Prazer Carlito, Rapha’, mas, por dentro, ‘MEU DEUS! É O CARLITO. EU BATIA NELE NO VIDEO GAME!’. Por dentro era assim, mas por fora eu tentava ser o mais profissional possível.
 
Gabriel Gonçalves: Quando eu vi o Carlito, é como se voltasse aquela criança assistindo no SBT. Você fica igual uma menina quando vê a princesa favorita dela. 
 

Durante a luta da WSW, a galera gritava mais o nome dos brasileiros do que dos famosos de fora. Como foi isso?

 
Raphael: Do vestiário eu não conseguia ouvir. As pessoas entravam lá e diziam que estavam gritando meu nome. Na hora não sabia porque, só depois que soube, que foi quando o Carlito disse que não tinha ninguém para lutar contra ele e disse que eu era uma cópia barata. Eu falei ‘ Caramba, ele sabe quem sou eu’.
 
Gabriel Gonçalves: Cada golpe que a gente fazia ouvia o som da torcida encher o ginásio. Na luta com o Boer, eu estava batendo nele e começaram a gritar ‘Sen-sa-cio-nal’,que é o apelido dele, e eu pensei ‘caramba, é a hora’. 
 

Na luta, a coreografia de vocês dois (Acce e Victor) me parece ter referências da capoeira, porque vocês voam muito no ringue…

 
Victor Boer: Eu nunca fiz luta nenhuma, só jogava bola e vim pra cá. Eu sou assim, entrei com esse estilo, só consegui mais experiência. Eu era mais louco, me jogava mais, me matava mais, ai eu vi que não precisava disso.
 
 

Isso é você não se matando?

 
Victor: Hoje eu me mato com responsabilidade.
 
Gabriel Gonçalves: Cada um tem seu estilo. Você pode ser o que quiser na luta livre sem precisar ter feito nada antes. Cada um é grande com seu estilo.
 
 
 

Os personagens são sempre bem definidos. Como vocês chegaram neles? O peruano é meio óbvio, mas quero ouvir mesmo assim!

 
Todos riem apontando para o Fúria
 
Raphael (Rapha Luque): Eu queria ser um super herói, tipo Hurricane, mas era pra ser voltado para a comédia a princípio. Quando falei com o Bob, ele já tinha uma ideia pra mim, algo mais para um ‘showman’. Ele me pediu pra ver referências no Lenny Kravitz e a partir disso fui desenvolvendo meu personagem. Procurei na luta quem tinha um estilo parecido e cheguei no John Morrison. Adequei tudo comigo e ao Brasil.
 
Gabriel (Acce): Eu adorava assistir o Jeff Hardy. Quando eu comecei a lutar, minha inspiração era ele, até porque eu era meio louco no começo. Quando comecei a treinar, ninguém me falou de personagem porque faltava uma semana para o evento e alguém disse ‘você vai estreiar’. Eu não tinha nem roupa para o evento… eu sei que vocês não estão me vendo, mas eu sou baixinho, ai pensei ‘tem que por uma sunga’ e foi isso. O Acce não era um personagem, ele foi se criando ao longo dos anos.
 
Italo Pinillos (Lobo Peruano): O Bob falou ‘você vai estreiar, já vai pensando no personagem’. Eu tinha um mais americano como Maniac, um cara bem louco que é meu estilo. O Bob me deu umas dicas, disse que eu poderia fazer uma referência ao meu país - nada obrigatório, apenas uma ideia - ai eu pensei ‘peruano está bom, mas quero um animal antes’. O meu tio lá no Peru tinha um espaço em que  só  o chamavam de lobo e foi daí que veio o primeiro nome. E então surgiu o Lobo Peruano.
 
 
Victor (Sensacional): Meu personagem foi meio que na pressão também. Eu não pensava muito nessas coisas, estava com a cabeça em outro lugar nessa época, só queria terminar minha faculdade pra focar 100% na luta, tanto que só acrescentei um adjetivo na frente do meu nome real. Quando comecei, pensei em um nome temporário, para mudar com o tempo, mas aí pegou. 
 
Quando o Leonardo começa a falar, a reação do grupo todo é controlar o riso para não atrapalhar o áudio
 
Leonardo (Fúria): O Fúria! Eu sempre fui apressado nesse aspecto,  então na minha primeira semana eu já queria fazer camiseta. Sempre fui apressadinho, colocava o carro na frente dos burros. Eu tinha 3 inspirações, CM Punk,  Edge e The Rock, e eu assistia muito BWF e tinham personagens muito bons. Eu pensava que precisava me destacar. Eu sempre fui puxado para esse lado mais rebelde, rock’n roll, e aí eu puxei para um lado mais babaca meu com um tonzinho de Charlie Brown Jr. e saiu o Fúria, e aparentemente todo mundo gosta.
 
Victor corta o Leonardo com uma ótima curiosidade dizendo que antes o nome dele seria Fúria da Noite, e obviamente todos caem no riso;
 
Leonardo: É verdade! O Bob gostava de Fúria, mas queria um nome forte na frente, ai eu escolhi Garou, que era um artista francês que eu gostava muito. Ai no dia da luta o Bob me perguntou ‘como vai ser o nome?’ então disse ‘ Garou Fúria’ e ele escreveu só Fúria no papel, então ficou assim. 
 
 
É legal notar que todos eles têm o Bob Jr (ex lutador e fundador da BWF) como pai dentro da luta livre. Têm uma mistura de admiração e carinho quando dizem o nome dele.
 

Uma vez o Raphael me disse que a história de vocês se identifica um pouco com a do filme “The Wrestler”. Falem um pouquinho do sofrimento da luta livre no País

 
Ouço um “VISH” em grupo
 
Raphael: No filme, o  Randy ainda viveu o auge da luta nos anos 80. Ele trabalha e arruma tempo para fazer o Show. Aqui a gente só está na parte do sofrimento mesmo. A gente trabalha, estuda, arruma tempo para o treino durante a semana e é esse o maior problema. Todos queremos nos dedicar 100% a isso, mas ainda não existe essa condição. Desde que eu estou aqui, têm aumentado o número de shows, aparições na TV, a gente enxerga um crescimento. Um antigo diretor da WWE (World Wrestling Entertainment, Inc) já veio aqui assistir… tem um dos nossos que está lá brilhando na WWE. O meu primeiro objetivo é fazer a Luta Livre ser grande no Brasil. Se eu conseguir viver disso aqui no Brasil, já estaria realizado.  Mas o maior perrengue é fazer as outras coisas querendo estar aqui (ele aponta para o ringue). 
 
 
Leonardo: A gente está lutando por algo que já teve seu auge e agora está esquecido. Estamos tentando relançar a Luta Livre aqui.
 
Victor: É uma luta pela Luta
 
Gabriel: O que é legal é que quando subimos no ringue não existe mais problema
 
Leonardo: Provavelmente os 12 minutos que você está no ringue serão os  únicos 12 minutos em que você tenha paz na sua semana… no seu Mês.  Você é seu personagem. Ele não está devendo, não precisa trabalhar .
 
Raphael: Na hora que toca a sua música e você passa o portal… já era.
 
 
E ai, curtiu? Então acompanhe a galera da BWF pelo facebook e instagram. Por lá você poderá ver vídeos e datas das apresentações! Talento os caras já têm, só falta mesmo é apoiar a Luta Livre BR.
 
Agradecimentos especiais à Bob Jr., que autorizou a entrevista e as fotos durante o treino e mesmo ele não podendo estar lá (porque o Rapha esqueceu de lembrá-lo), sabemos que a BWF é fruto de muito suor dele e dos atletas!