Esporte diferente e ainda pouco conhecido realiza ações para aumentar o número de praticantes do Brasil. Nem precisar ter uma bicicleta, basta ter disposição para encarar a brincadeira.

Os ponteiros do relógio se aproximam das dez da noite, o vento gelado corre livre por todo Parque do Ibirapuera e os termômetros registram 13ºC. São poucas as pessoas que nessas condições tão adversas se arriscam em praticar alguma atividade física no local. Dentro desse seleto grupo, estão cinco caras montados em suas bicicletas, com tacos na mão e pedalando dentro de uma das várias quadras cercada por grades.
 
A temperatura deveria ser semelhante em 1891, na cidade de County Wicklow, na Irlanda, quando Richard J. Mecredy achou melhor poupar os cavalos das tradicionais partidas de polo e utilizar bicicletas durante os treinamentos. Mais de um século depois da sua inusitada criação, o polo bike mudou alguns aspectos e regras e hoje é praticado por pessoas em diferentes lugares do mundo.
 
As regras e o método de jogo é bem semelhante ao polo original, futebol ou qualquer esporte de quadra. Dois times que buscam a meta adversária e vence quem fizer o maior número de pontos. De longe e na teoria até parece fácil, mas tente pedalar, guiar a bike com uma das mãos e com a outra conduzir uma pequena bola segurando um bastão de alumínio e ainda desviar de adversário à sua frente.
 
 
Habilidade, equilíbrio, senso de espaço e uma ótima coordenação motora são requisitos fundamentais para quem queira praticar o polo bike. Para começar a dar a primeiras tacadas não é necessário ter todas as qualidades mencionadas. Disposição para aprender o esporte é o mais importante, segundo Pulguinha, atleta do Selvagens Polo Bike, uma das duas equipes da modalidade em São Paulo. 
 
“Nem precisa ter bike porque a galera empresta e nem precisa ser uma bicicleta específica. Tem mesmo é que comparecer e estar disposto a entrar no esporte”. Com menos de uma década sendo praticado no Brasil, o polo bike vai se expandindo aos poucos. Porém, junto de ações para a divulgação do esporte, hoje os praticantes buscam reconhecimento legal da atividade e um número maior de adeptos.
 
Bate, rala e machuca
 
Tente lembrar a época em que você estava aprendendo a andar de bicicleta. Talvez seja impossível ter na memória o número exato de tombos que você levou ao tentar dar as primeiras pedalas, mas certamente que eles aconteceram e não foram poucos. Assim como andar de bicicleta ou praticar qualquer esporte, acidentes ocorrem a todo o momento e cabe a cada atleta tentar diminuir os riscos ao máximo.
 


Pulguinha é jogador do Selvagens Bike Polo, uma das duas equipes da modalidade em São Paulo

Nas as competições de polo bike apenas o uso do capacete é obrigatório, mas é recomendável que os praticantes também utilizem outros equipamentos de segurança como cotoveleiras, luvas e joelheiras. O risco de lesões não está apenas nos tombos. A bolinha utilizada para o jogo é feita de uma borracha muito densa e as tacadas em busca do gol tem velocidade e força suficiente para fazer, no mínimo, hematomas na pele.
 
Durante o treino noturno e frio no parque do Ibirapuera, Pulguinha foi vítima de uma dessas boladas na altura dos joelhos. “Não é um esporte fácil e de certa forma é perigoso, porque você fica suscetível a quedas e fraturas como já rolou por aqui. É um esporte de contato com atrito e disputas, mas que pode ser praticado apenas por lazer, sem a necessidade de tanta disputa”, esclarece o atleta do Selvagens.
 
Organização e futuro
 
Com poucos porém fiéis praticantes do esporte em todo o Brasil, o polo bike nacional já consegue organizar competições de nível nacional, que têm o objetivo de fortalecer a modalidade e ao mesmo divulga-la, trazendo novos membros. Uma das competições mais recentes ocorreu em Santos (SP) no mês de julho, reunindo 14 equipes de todo o país.
 
 
Desde o início do ano a galera que quer levar o esporte a outros patamares começou a se mexer para conseguir expandir a prática. Através de grupos nas redes sociais, estão atuando em duas frentes de trabalho. A primeira é mais chata e burocrática. Um grupo está correndo pelos cartórios do Brasil buscando a criação de uma confederação específica para a modalidade, para que se torne mais fácil o apoio de patrocinadores e organização de eventos.
 
A segunda ação promove, fortalece e trabalha futuras gerações do polo bike. Através de parcerias com entidades, os atletas elaboram oficinas sobre o esporte onde o público alvo são as crianças. O que para a molecada é pura festa, para os praticantes/professores é um investimento na perpetuação da modalidade. “Esse trabalho é incrível porque criança tem um brilho nos olhos para o que é novo e diferente”, relata André Tomás, o Treco, um dos responsáveis por essas ações.
 
De acordo com Treco, esse trabalho feito por eles vem resgatando algo que era bem comum na infância das pessoas que cresceram até década de 90: andar de bicicleta. Ruas tomadas por automóveis, áreas públicas de lazer mais raras e disseminação de atividades eletrônicas fez com o que o interesse lúdico das crianças pelos pedais fosse diminuindo sem que muita gente prestasse atenção.
 


André Tomás, o Treco, é um dos reponsáveis pelas ações voltadas para as crianças

“Nessas nossas atividades educacionais, muitas vezes a primeira que fazemos é ensinar a criança a andar de bicicleta. Muitos têm contato com vários tipos de videogame, mas não tem relação nenhuma com a bike. É legal! Além de ensinar o polo bike para elas, dar essa experiência de rua e ar livre”, explica Treco, enfatizando que a criançada de classes mais baixa tem uma melhor adaptação ao esporte. “Tem moleque que empina a bike e sai dando tacada”, comenta aos risos.
 
Se você ficou interessado em conhecer o polo bike, a galera que faz esse esporte pouco convencional também está a fim de conhecer você. Em São Paulo, os caras se reúnem toda terça e quinta, a partir das 21h, no parque do Ibirapuera, nas quadras próximas a Praça do Leão. Em diversas cidades espalhadas pelo país há uma galera fazendo rolê de bike e tentando fazer gol. Uma das formas de saber onde eles se encontram é entrando em contato através da página do Facebook do Brasil Bike Polo. 
 
 

Fotos: Murilo Yamanaka / Freak Market