Thais Gazarra, Jessica Amorim e Nayara Nishimuta são nomes que já tem destaque no cenário nacional, mas que buscam crescimento no compartilhamento de experiências e na ideia de andar em todos os terrenos.

No meio de uma calorenta tarde de segunda-feira, em um quintal da Zona Leste de São Paulo, três meninas sentadas lado a lado em um velho sofá falam sem parar. As vozes agudas se entrelaçam e o volume fica cada vez mais alto. Em certos momentos é difícil entender o quê e para quem elas estão falando. Mas as sinceras gargalhadas mostram que aquele estranho diálogo está longe de ser uma discussão.
 
Thais Gazarra, Jessica Amorim e Nayara Nishimuta não economizam palavras para falar sobre o que mais amam fazer na vida: andar de skate. O trio pode ser considerado como as maiores promessas femininas do esporte. Com idades entre 17 e 22 anos e os títulos e participações em campeonatos pelo mundo mostram que as três ainda darão muito que falar!!
 
O encontro das meninas não é para um mero bate papo ou falar amenidades sobre o mundo das rodinhas. A intenção é o intercâmbio de conhecimento, experiências e de vivência em outras modalidades, já que uma compete em provas de vertical, enquanto as outras duas são do longboard freeride.
 


Na sequênica: Nayara, Jéssica e Thais em dia de rolê

A ideia de reunir as garotas partiu de Beto Sartore, skatista veterano que abre as portas da sua casa para a recuperação e tratamento de lesões de atletas. É na Casa do Massagista que em todo começo de semana ocorre o encontro e algumas manobras, já que o espaço também é munido de um mini-ramp. É entre reuniões, risadas e manobras que o trio vai se entrosando e evoluindo dentro do esporte.
 
Elas estão crescendo
 
O skate é cada vez mais um esporte feminino. Segundo dados de um pesquisa feita pelo Instituto DataFolha e encomendada pela Confederação Brasileira de Skate (CBSK), atualmente cerca de 1.600.000 mulheres andam sobre os carrinhos no país. Esse número corresponde a 19% dos praticantes da modalidade em todo território nacional.
 
A forma com que o interesse pelo esporte tem início é a mais variada possível. Passa desde ver astros da modalidade na TV ou pela simples influência de amigos ou parentes. “Eu ia para o Parque do Ibirapuera caminhar e achava muito louco o pessoal descendo a ladeira de skate e falava ‘um dia quero fazer isso também’. Fui na Galeria do Rock e montei um long pra mim. Nessa época eu nem sabia subir no skate”, relata Jéssica, que terminou o ano de 2015 como líder do ranking brasileiro feminino de Downhill Slide.
 


Jéssica Amorim

Mais velha do grupo, Nayara Nishimuta já queria ser skatista desde que era criança. A mãe não entendia até então tamanha fixação em uma atividade que considerava ser perigosa. Mesmo assim, começou no esporte andando escondido com o skate dos primos. “Na cabeça da minha mãe eu tinha que crescer e ter uma profissão e skate era apenas uma brincadeira”. A Dona Nishimuta não imaginava que anos depois sua filha seria considerada a skatista destaque de 2015 no Brasil e campeã sul-americana de Downhill Slide, em competição disputada no Chile. 
 
Debaixo da grande cabeleira ondulada e por trás dos óculos de graus, Thais Gazarra parece apenas uma garota tímida que almeja fazer faculdade de jornalismo. Mas o currículo da adolescente de 17 anos muda qualquer primeira impressão. Atual campeã brasileira vertical e vice no Exposure Skate, na Califórnia, ela afirma que nunca pensou em desistir da modalidade desde que começou a correr em campeonatos. “Na minha primeira competição tinham 19 meninas e eu fiquei em 17º, mas na seguinte já fiquei em segundo e foi aí que eu vi que tinha competir mais para evoluir mais”.
 
Partilha, paixão e medos
 
Durante as já tradicionais reuniões e rolês entre as três skatistas nas segundas-feiras, rola muita mais que manobras e informações específicas sobre o estilo de cada uma, o mais importante é compartilhar o amor ao esporte. A forma apaixonada com que cada uma fala sobre o skate é algo que explica de certa forma os resultados obtidos por ela e que tendem a crescer. 
“Além de termos praticamente a mesma idade e tendo um estilo de vida muito parecido, o amor que a gente compartilha por um esporte é tão intenso que a nossa amizade é muito diferente de outras amizades”, explica Thais. “A gente gosta tanto de estar juntas que já teve ocasiões de passarmos praticamente doze horas andando de skate”, conta Jéssica.
 


Thais Gazarra

Enquanto Thais é especialista em voos a mais de três metros de altura nas competições de vertical, Jéssica e Nayara deslizam ladeira abaixo em terrenos íngremes. Nos encontros semanais os papéis se invertem e cada uma vai ajudando a outra com novas manobras e experiências. 
 
“Essa ideia de ser overall (skatista que anda em qualquer terreno ou modalidade) vem lá de trás, onde pra se ir pra pista a pessoa tinha que ir pela rua, subindo calçada, descendo ladeira e é essa essência que estamos querendo dentro do skate feminino”, comenta Nayara.
 
Jéssica e Nayara não negam que as rampas lhes causam medo e desbravá-las é sempre um desafio. O mesmo sentimento é compartilhado por Thais quando o assunto são ladeiras. “Quando eu fui fazer downhill pela primeira vez eu me assustei com ter que dividir o espaço com os carros”.
 


Nayara Nishimura

As risadas, a paixão e as experiências trocadas entre essas três meninas mostram que cada vez as mulheres também querem ser protagonistas em um ambiente amplamente dominado pelos homens. Sem medos e com muito conhecimento sobre o que estão fazendo, as mulheres almejam lugares de destaque dentro do esporte. Se eles podem, elas também. 
 


Risos e muita conversa nas tradicionais reuniões de segunda-feira

 
(Crédito das imagens: Cristiano Rollemberg)