Um dos principais nomes do skate vertical no Brasil se prepara para novos desafios em 2016

No final do século passado, mais precisamente na virada do ano de 1999 para 2000, o mundo estava preocupado com um problema que afetaria todos os computadores do planeta e provocaria um colapso na economia globalizada. Para frustração dos mais pessimistas e alegria da maioria, o tal do Bug do Milênio não passou de um alarme falso.

À época, no bairro da Mooca, um moleque magrelo e torcedor do Corinthians tinha o sonho de ser jogador de futebol, como boa parte dos meninos de nove anos que vivem no Brasil. Os planos para o futuro mudaram quando ganhou um skate de presente. Dali em diante, em vez de gols, a maior preocupação do garoto passou a ser quanto tempo iria demorar para acertar o primeiro ollie.

Quem o visse na época talvez não acreditasse que 13 anos depois aquele franzino conquistaria o mundo voando a quase cinco metros de altura do chão e fazendo manobras que colocam a lei da gravidade em xeque. Hoje, aos 25 anos, Rony Gomes está em um seleto hall onde figuram nomes como Sandro Mineirinho, Lincon Ueda e Bob Burnquist como principais referências do skate vertical no Brasil.

Rony Gomes começou a andar de skate aos nove anos no bairro da Mooca

Rony Gomes começou a andar de skate aos nove anos no bairro da Mooca

Desde que começou a competir – e mesmo nas categorias amadoras -, Rony já chamava atenção pela forma de encarar as pistas. Quando estreou no profissional, aos 18 anos, já era comparado a lendas do esporte. No início era uma questão de aparência: por ter um biotipo parecido com o de Burnquist, passou a ser chamado de no circuito de Bobinho. O estilo de andar de ambos também é muito parecido, mas Gomes já tem uma marca própria comprovada nos diversos títulos que tem na estante.

“Começar a correr campeonatos foi uma consequência. Eu sempre gostei de competir e ao longo do tempo essa atmosfera foi se tornando frequente. A transição foi legal, mas é um choque quando você passa a viver do que você mais gosta de fazer na vida e começar a andar frequentemente com os seus ídolos é uma coisa insana. Um dia você está assistindo os caras pela TV ou em vídeos, no outro dia você está dividindo a rampa com os caras”, revela.

No início da carreira o skatista foi comparado a Bob Burnquist pela aparência e o estilo de dropar as rampas

No início da carreira o skatista foi comparado a Bob Burnquist pela aparência e o estilo de dropar as rampas

Dentro de casa

Parte do sucesso de Rony nas pistas deve-se ao apoio da família. Se tudo começou com um skate dado pelo pai, o aprimoramento também pode ser creditado em parte ao Seu Ronaldo Gomes. Junto com o patrocinador, pai e filho planejaram um centro de treinamento na cidade de Atibaia, interior paulista: uma pista adequada para os padrões internacionais, algo raro no Brasil.

“Toda a minha família é muito importante em todo o processo. Meu pai é o cara que coloca a cara, que trata dos assuntos burocráticos e me ajuda muito a resolver tudo o que tiver para ser resolvido. Minha mãe e minha irmã são parte do apoio emocional. Sabendo que elas estão bem, eu estou confiante para enfrentar o que vier pela frente”.

RonyGomes_RGSkatehouse6238_FotoFelipePuerta

Rony tem uma pista particular para treinos em Atibaia-SP. Atleta abriu mão de morar no exterior para ficar mais perto da família.

A motivação para criar uma pista dentro de casa foi a dificuldade de conseguir bons picos para praticar o skate vertical no país. Gomes revela que o tempo que morou fora do Brasil o ajudou a evoluir no seu jeito de andar no half pipe, mas ter pessoas queridas por perto também foi importante na conquista de bons resultados. “Quando eu me profissionalizei tentei morar fora do Brasil. Foi um período bom para a minha evolução dentro do esporte, mas com o tempo eu percebi que valia a pena investir em alguma estrutura para que eu pudesse ficar perto da minha família e dos meus amigos”.

Correndo mundo por conta das competições, não é simples manter uma rotina de treinamentos. Engana-se quem pensa que para se tornar um atleta de elite o skatista se limita a repetir novas manobras à exaustão. “Tenho uma preparação física com treino funcional e muitas sessões de skate no vertical e no bowl. Eu gosto muito de surfar e por isso sempre tento colocar o surfe dentro da minha grade de treino. Por ser um esporte de prancha, ajuda muito com o equilíbrio”, explica.

2013, o ano da graça – 2016, uma incógnita

A competitividade é uma das principais características de Rony Gomes e títulos são quase um fetiche para ele. Antes mesmo de se profissionalizar foi campeão brasileiro amador em 2008 e mundial e 2009. Em seu primeiro ano como profissional, disputando com os grandes nomes do skate mundial, o paulistano conseguiu chegar ao pódio em eventos importantes com Rome World Cup e o Pro Rad.

Três anos após estrear entre profissional, o skatista brasileiro fez sua temporada perfeita participando de todas as etapas dos X-Games  e sendo considerado o melhor atleta daquele ano. “Sem dúvida 2013 foi um grande ano. Terminar com o título mundial e com um título nacional foi demais, vai ser história para contar pros filhos, netos”.

Rony Gomes_KDC2014_Saturday_Photo Sam Clark075

Crise econômica preocupa Rony por conta da diminuição de campeonatos pelo mundo

Para 2016, Rony tem novas ambições e o foco em outras competições fora do vertical – mas tudo dependerá da situação econômica mundial, que nos últimos anos tem também afetado o esporte.

“Primeiro eu espero que seja um ano mais agitado para o skate. O mercado deu uma desacelerada e não tiveram tantas competições como antes, mas neste ano deve voltar a crescer. Quero focar bastante na MegaRampa para tentar uma medalha nos X Games, acho que esse é o principal desafio por enquanto”.

A primeira competição de skate vertical na categoria profissional no Brasil este ano ocorreu na pista do próprio Rony Gomes no último final de semana. O Skate Vert Battle, evento homologado pela Confederação Brasileira de Skate (CBSk), reuniu importantes nomes da atual cena do skate nacional.

De olho no novo

Rony sabe bem o que é ser considerado o garoto prodígio do skate nacional e toda a responsabilidade que teve que carregar por conta dos diversos elogios e comparações. Hoje, mais experiente, ele é quem avalia novos valores que surgem dentro cenário brasileiro.

“O Brasil é um celeiro imenso de atletas em todas as modalidades. No street tem muita gente boa – o Lucas Xaparral, a Pamela Rosa. No vertical o Léo Ruiz chegou com tudo, se profissionalizou no ano passado e foi campeão da Copa Brasil. E tem o Ítalo Penarrubia, que está morando na Califórnia. Da molecada nova é bom ficar de olho no Pedro Quintas e no Matheus Hiroshi. Tem bastante gente se destacando”.

RonyGomes_QGBowl9244_FotoFelipePuerta

Além do skate, Rony também pratica surfe – que o ajuda no equilíbrio durante as competições

Há pelo menos 20 anos, o Brasil é uma superpotência do skate mundial – a ponto de ser reverenciado por todos os atletas de outros países. Bob Burnquist, Sandro Mineirinho e Rodil Ferrugem são referências do esporte e abriram muitas portas para os compatriotas no circuito mundial. Sobre o destaque dos brasileiros na gringa, Rony brinca fazendo alusão ao recente sucesso do país no surfe.

“Somos o ‘Brazilian storm’ antes do ‘Brazilian storm’. O Brasil tem uma capacidade gigante de criar bons esportistas, em qualquer modalidade, em qualquer tempo. Somos muito respeitados. O brasileiro é sempre muito bem recebido onde quer que vá – e no skate não é diferente.”

(Crédito das fotos usadas na reportagem: Divulgação)