Nossas curadoras estão preocupadas com o alto número de acidentes no esporte e levantam o debate sobre a falta de cuidado dos atletas

Não há lembrança de um período tão letal na história do Base Jump. Agosto de 2016 foi um mês particularmente muito intenso e triste para a comunidade do nosso esporte em todo mundo. Falar sobre morte é sempre complicado, mas essa é uma possibilidade que está presente em cada salto que fazemos. O que mais choca sempre que episódios desse tipo ocorrem é que normalmente as vítimas são pessoas jovens e os acidentes são em momentos inesperados.

Neste fatídico mês, 15 atletas morreram praticando o Base Jump. O número é alto e assustador. Para comparar, no mesmo mês em 2014, 9 pessoas morreram em decorrência dos saltos e em 2015 apenas duas. Um dos casos deste ano foi o Cameron Minni, um cara que já havia saltado da torre de Kuala Lumpur, na Malásia, e faleceu ao saltar de uma montanha onde os saltos de Base são permitidos.

Episódios como esse reforçam o discurso de pessoas fora do esporte, que pensam que a partir de começar a praticá-lo, seria como estar com os dias contados. Mas será que é isso mesmo?

Quando falamos em Base Jump, falamos em pequenas margens de erros. É um esporte onde nada é detalhe e tudo importa. Um risco eleva o outro em exponencial. O perigo existe e preciso velá-lo. Porém, todo e qualquer acidente não está relacionado com apenas uma causa, mas a somatória de fatores que lamentavelmente culminam em um acidente.

O Base Jump é um esporte muito recente e o número de adeptos vem crescendo ano após ano. Em paralelo a esse aumento no número de praticantes, tivemos a explosão das mídias sociais, lugar onde se tornar um herói destemido é fácil desde que se poste um bom vídeo, com uma imagem de tirar o fôlego. Mais pessoas praticando o esporte, sem as devidas precauções e com foco em gerar imagens espetaculares, pode ser um dos fatores que está contribuindo para aumento no número de acidentes fatais.

Muito se fala no risco do esporte em si, porém pouco se fala da decisão errada tomada pelo atleta. Quando alguém morre praticando um esporte que envolve risco é mais fácil colocarmos a culpa no risco que o esporte traz como um todo do que separar os fatores e responsabilizar a pessoa que os cometeu. As pessoas enxergam como uma indelicadeza ou até uma falta de respeito dizer que o acidente aconteceu por um erro cometido pela pessoa que se foi.

Lidar com os riscos próprios da prática e com as emoções que esse esporte nos traz é um desafio muito grande. Lidar com essa mistura de sentimentos não é fácil. É preciso, além de estar preparado fisicamente, ter a parte psicológica centrada no que vai fazer. Na hora de um salto é necessário estar focado 110% nisso.

Não analisar os acidentes friamente pode trazer a falsa imagem de que o Base Jump é um esporte mortal.

A Rita Brindelli, uma das componentes do Base Ladies, já sofreu um acidente por não planejar bem a área de aterrisagem. Abaixo ela conta um pouco como foi essa experiência.

Há 9 meses tive um acidente grave em um salto de um prédio em São Paulo. Fratura exposta, com perda óssea, fíbula e tíbia quebradas. E podia ter sido pior, por apenas 10 cm não fraturei a coluna na altura da lombar, fiquei pendurada pelo paraquedas que enroscou em uma árvore a pouco menos de um palmo de um banco de concreto. Mas o que aconteceu para que esse acidente acontecesse? Vários fatores de risco foram ignorados, e ignorados por mim.

Eu errei. Eu causei o meu acidente. Não houve falha de equipamento, não houve mudança repentina do tempo e nem obra do acaso. Ignorei que era um salto de um prédio baixo, com pouca opção para pouso, com o pouso principal muito restrito, que não estava fazendo saltos parecidos com esse com tanta frequência e que estava ventando muito mais do que o tolerável para esse tipo de salto.

Enfim, ignorar não só um, mas todos esses fatores e juntá-los aos riscos próprios da prática causaram meu acidente. E mais uma vez, esse erro foi meu. Não existe mistério ou uma maldição . Existe, na maioria das vezes, falha humana.