O roller derby não é novidade, mas somente agora se populariza no Brasil, atraindo cada vez mais meninas dispostas a mostrar que estão muito longe do chavão "sexo frágil". Fomos assistir um jogo e bater um papo com quem pratica e leva o esporte muito a sério.

No primeiro contato, o roller derby é um esporte bem difícil de ser compreendido porém ao mesmo tempo é estranhamente prazeroso vê-lo ser praticado. A satisfação certamente só não é maior do que a de quem está sob os patins e dentro da quadra. Entre maquiagens, cabelos coloridos e sorrisos, há também espaço para empurrões, quedas e uma disputa frenética por pontos, que o espectador aos poucos acredita estar entendendo.
 
Basicamente o esporte consiste na disputa entre dois times que correm em um circuito oval. Com cinco integrantes em cada time, o objetivo é conseguir furar o bloqueio adversário para conquistar os pontos. As jogadoras de defesas, responsáveis por impedir a pontuação do time oponente, são conhecidas como blockers. Já as responsáveis por ultrapassar essas barreiras humanas e pontuar são chamadas de jammers.
 
O roller derby surgiu nos EUA na década de 30 e, no princípio, era uma simples corrida de patins vencida por quem aguentasse mais tempo dando volta nas pistas. Mas o que fazia mesmo a alegria do público eram os choques entre os competidores. Desta forma, com o passar do tempo as regras foram mudando até chegar às centenas de recomendações que existem atualmente. São tantas que até quem pratica o roller derby não conhece todas.
 


Partida da liga Ladies of Helltown entre Piratas do Tietê e Samurais da Liberdade

“Além dos treinos, temos aulas teóricas com os refs, que são os que aplicam as regras no jogo. Nos jogos a gente também vai aprendendo. Eu ainda não sei todas as regras porque são muitas”, confessa Sheila Malickas, membro da liga Ladies of Helltown e blocker das Piratas do Tietê. A bíblia, torá ou alcorão do roller derby é o livro de regras da WTDA (Women's Flat Track Derby Association) comissão que organiza o esporte em todo o mundo.
 
No Brasil o esporte passou a ser difundido em 2009 com a criação da Ladies of Helltown. A pioneira liga paulistana hoje conta com competições internas como forma de treinamento para as cerca de 80 meninas que compõem o seu elenco e são dividas por categorias e funções. Em todo país existem cerca de 20 ligas que disputam campeonatos como o nacional, que este ano será realizado em Porto Alegre, e o latino-americano que ocorrerá em Santiago, no Chile.
 
Liberdade, igualdade e fraternidade
 


Sheila Malickas é blocker e relações públicas do Ladies of Helltown

Quando falarem que o roller derby é um esporte feminino, imediatamente retire da sua cabeça qualquer pensamento conservador e arcaico de achar que é algo delicado e frágil. A reunião de mulheres com patins nos pés representa empoderamento e sororidade, onde todas têm espaço e voz. Toda mulher tem espaço neste esporte, independentemente de qualquer aspecto físico ou habilidade.
 
Trancos, empurrões e a disputa dentro da quadra são lugar para abraços e sorrisos fora dela. “O roller derby é muito inclusivo, tem meninas de todos os tipos físicos. É bom ser magra, é bom ser baixinha, da mesma forma que é bom ser gorda e grande. Poucas pessoas praticavam algum esporte antes de entrar para o roller”, explica Sheila.
 
O aspecto inclusivo do esporte se dá em todas as áreas - não só dentro de quadra - não existindo barreiras para praticá-lo. O apoio entre as praticantes é algo singular dentro do roller derby. “O feminismo é algo presente. Apoiamos as pessoas a serem que o que elas são. Temos algumas pessoas trans dentro da liga, que às vezes querem formar outro tipo de movimento dentro do roller derby e tudo é apoiado por nós”, diz ela.
 


Roller Derby é reconhecidopor ser um esporte que abre espaço para todas as mulheres

O companheirismo das ladies extrapola os limites das quadras, principalmente nas festas que a liga promove como forma de expandir a prática para outras meninas. Outra forma de inclusão encontrada é sempre deixar a liga aberta para novos membros através dos recrutamentos que são feitos periodicamente. Saber andar de patins não é pré-requisito para fazer parte do grupo, a vontade de colar no rolê é mais importante.
 
Homens são bem-vindos no roller derby. No início do esporte era alto o número de caras que encaravam as corridas sob rodinhas, mas com o tempo as mulheres dominaram o espaço. Agora são eles que aos poucos estão voltando. Em Santos, no litoral paulista, já existe um liga masculina chamada Shark Attack. Na Ladies of Helltown, os rapazes atuam como juízes ou acompanhando as namoradas. E por acompanharem o esporte tão de perto, estão começando a criar a sua própria liga.
 
Tem espaço para todo mundo
 


Milena Rosa patina há uma ano e conheceu o esporte através da TV

A designer Milena Rosa aprendeu a patinar há um ano. A fisioterapeuta Patrícia Albuquerque desliza em cima das quatro rodinhas desde os cinco anos de idade. Se não fosse os realitys shows estrangeiros que passam na TV à cabo, Milena não teria conhecido o roller derby. Depois de conquistar tudo o que era possível no hóquei, Pati voltou a querer novos desafios em um novo esporte que utiliza o mesmo recurso para deslocamento.
 
Mesmo com trajetórias bem distintas, ambas compõe a mesma liga e fascinação pelo roller derby. Deixar Milena falar sobre a sua relação com a prática do esporte faz o brilho dos seus olhos aumentarem e as palavras saírem de sua boca com uma rapidez e eloquência que impressionam. “Sempre fui pequenininha e magrela e no vôlei sempre que ia sacar alguém vinha e sacava no meu lugar porque eu era fraca. O que mais me chamou a atenção no roller derby é o fato de ser feito por mulheres para mulheres”.
 
Patrícia havia abandonado as quadras de hóquei há sete anos, mas ainda sentia vontade de voltar a patinar e competir. A fisioterapeuta entrou para a Ladies of Helltown em janeiro, mas já tinha sido apresentada os roller derby antes. “Há cinco anos uma amiga falou que estava praticando o esporte. Fiquei empolgada em saber que tinha algo do tipo no Brasil, mas achava que ainda não era o momento de voltar a competir”.  
 


Pati Albuquerque é ex-jogadora de hóquei e hoje se dedica ao roller derby

Quem quiser conhecer mais sobre o roller derby, além de vasto material pela internet, o filme Garota Fantástica retrata um pouco do esporte. Outra opção é chegar junto para assistir um dos treinos da Ladies que ocorrem três vezes por semana no vão livre do Parque do Ibirapuera. E lembre-se, use equipamentos de segurança como joelheiras, cotoveleiras e capacete antes de tirar debaixo da cama seus empoeirados patins. 
 

Fotos: Murilo Yamanaka / Freak Market