Sei que a frase do momento na verdade é “quanto custa o outfit?”, mas o debate vai muito além do quanto as pessoas estão gastando em roupas. Mergulhamos em um universo absurdo à primeira vista, mas que transparece o deslocamento dos valores no mundo da moda.

Não falavam de peças de alta costura, muito menos de vestidos exclusivos para um evento social. Os preços de roupas que chocaram o Brasil na última semana, na verdade, vieram de um vídeo sobre roupas usadas na rua, por uma turma jovem que sabe exatamente o quanto pagou em cada peça.
 

 
O Brasil parou para debater sobre o assunto, mas qual foi a última vez que você se preocupou realmente com o investimento nas peças de roupa? Apesar de amar os memes, é nítido que a pauta só entra para o debate quando tratada do streetwear. 
 

Movimentação dos olhares da moda

Há algum tempo vemos uma mudança brusca dos olhares fashionistas, que passaram da obsessão pelas peças que demoravam um longo tempo para serem confeccionadas, o que poderia justificar de alguma forma seus preços altíssimos, e foram para um olhar mais próximo da realidade das ruas. Por que camisas simples de algodão que provavelmente demoram pouquíssimos tempo para serem feitas chegam a custar mais de R$ 1000?
 
 

A nova feição do luxo

Antes, a agenda disputada pelo alfaiate mais cobiçado, que desenhou e confeccionou vestidos de celebs, era a responsável por deixar a classe socialite louca. Hoje, trata-se da necessidade de se sentir parte do (fechado, mas democrático) universo das ruas, que engloba toda a expressão de arte e universo roots que as cidades têm a oferecer.
 
A ideia de exclusividade, com poucas peças de cada produto sendo comercializadas, entra em contraponto com o conceito de espaço de todos que a rua oferece – ou pelo menos deveria oferecer. Nesse sentido, pessoas que jamais interagiram naquele universo tentam “comprar” sua ambientação por meio de peças que se vestem com o universo das ruas, mas em nada compactuam com sua filosofia, de ser livre e original da criatividade underground.
 
Assim, marcas são capazes de inflacionar extremamente o preço das suas peças buscando elitizar um artefato que nasceu do mundo alternativo, como se fosse possível comprar e se apropriar do orignal e da criatividade que a liberdade não atrelada ao dinheiro oferece.
 

 

E tem alguma coisa de errado nas peças caras?

No meio de toda essa história, é errado não reconhecer que o marketing dessas marcas foi construído em alicerces sólidos e carregam legiões de fãs em busca da exclusividade. E a reflexão se você está disposto ou não a pagar o preço por elas, é exclusivamente sua.
 
Por outro lado, há de se pontuar: as peças que carregam símbolos e nomes de grandes marcas, das versões mais extravagantes às minimalistas, porém confeccionadas de tecidos que não condizem com o valor delas, fomentam a cultura do gasto exagerado. O dinheiro, cujo propósito deve ser sempre canalizado com propostas sociais e uma preocupação com condições dignas de trabalho, é – mais uma vez e além disso – destinado à ostentação.
 
Contando que você, assim como a maioria das pessoas, não esteja disposto a pagar o valor altíssimo nas peças simples – o que reforça ainda mais a ideia de exclusivo de quem compra –, sugiro traga seus olhares críticos aos preços baixíssimos também, que comumente são provenientes de escravização para a produção de peças mais em conta. 
 
Existe quem pague (muito) mais caro por uma marca, e se isso soa como superficialidade para você, surge a possibilidade de caminhar no sentido contrário e pagar um preço que considera justo por produtos feitos por empresas que se preocupam com leis trabalhistas e tenham em mente uma preocupação com os materiais que compõem suas peças. O preço não é, nunca foi e nem será, sinônimo de peça boa ou ruim, e ter estilo jamais está atrelado a essa questão.