Verónica Decide Morrer é uma banda New Wave e Post Punk de Fortaleza (CE) formada em 2010 por Verónica Valentino e Jonaz Sampaio. Ambos saíram de banda cover, passaram pelo blues até chegarem na sonoridade oitentista atual.

 

Desde 2010  a banda passou por algumas alterações em sua formação até encontrar o tom certo, que conta com Vladya na bateria e Marcos Arantes no baixo. Com esse time, conseguiram o primeiro lugar em evento de música em Fortaleza, passe da banda que sempre quis sair da cidade.

Depois desse festival, eles puderam rodar. Passaram por Sescs, fizeram a Virada Cultural em Minas Gerais, foram até o Rio de Janeiro e finalmente se fixaram em São Paulo. Nesse período, a banda conheceu Kassin, grande nome da música que chegou a produzir Caetano, Bethânia e Kid Abelha. Foi ele quem incentivou e produziu o primeiro disco. Aliás, não só produziu como chegou a tocar guitarra e teclado no primeiro Single: Roxy Music.

 

Ainda que satisfeitos com a residência em São Paulo, Jonaz e Verónica contam com orgulho sobre uma performance especial em Juazeiro. “As crianças vinham pedir para a Verónica dar um beijo no papel. Ela recebia carta de pedidos de fã. Pediram até uma bicicleta pra ela!” diz Jonaz, rindo, “A gente tocou em frente à igreja, e os velhinhos colocaram cadeiras na calçada para saber que banda era essa que tinha uma travesti falando mal da igreja”, conta Verónica. 
 
Eles sabem que deixaram uma marca nas cidades que passaram pelo Nordeste. “Eu fui criado como Cabra Macho, isso é cultural lá” diz Jonaz, que conta que até quando criança era “meio andrógino”, confundia as visitas que o chamavam de menina, o que tirava o pai do sério. “Depois dos shows, as bichas vinham falar com a gente, diziam que se sentiam mais livres no jeito de agir” diz Verónica,
 
“Porque quando eu andava lá, as pessoas fingiam susto, mesmo que eu estivesse vestido da maneira mais normativa possível. Meu cabelo longo, meu jeito, tudo era motivo para as pessoas olharem torto. Minha mãe dizia ‘seja o que você quiser, mas aja como uma pessoa normal’. Sempre perguntei pra ela ‘ o que é normal pra você?’” conta Jonaz. Essa história era compartilhada por vários jovens que tiveram a mesma criação e se viam representados no palco.
 

Inspirações de se vestir da Verónica Decide Morrer

 
A banda tem como referência a Androginia dos anos 80. O próprio Bowie é inspiração pra eles e claro, Roxy. Já o estilo muda conforme a evolução deles. No começo o visual ia mais para o lado elegante do Glam, hoje em dia existe uma agressividade maior nas roupas. 
 
Verónica Valentino sempre teve uma ligação forte com a moda. “O visual da banda já era chocante pelo fato de ser uma travesti e uma bicha cantando”, diz. A banda sempre teve apoio de nomes importantes no cenário da moda brasileira, como Francisco Matias. “Era fluido a galera nos ver e desejar nos vestir” conta ela. 
 
Embora os estilos dos vocalistas sejam diferentes, eles contam ter uma sintonia. Nem se quer combinam os figurinos de show, mas quando chegam no palco percebem uma unidade. 
 
Eles fortalecem o feminino, isso em todos os membros da banda, seja através das roupas ou da maquiagem. Com isso, têm uma mensagem política, que sempre transcende a música, para passar. Verónica mesmo se assumiu trans através disso. 
 

“A gente vê no meio do rock os caras hiper machistas usando lápis na cara e repreendendo viado afeminado”

Verónica Valentino

O cenário Glam oitentista de Fortaleza

Até hoje, diversas bandas recorrem à referências dos anos 80 e enquanto vivemos um revival do Glam na moda e na música, Fortaleza sempre viveu esse cenário. “Lá é comum você entrar no ônibus e ouvir baladas dos anos 80, isso é em todo canto que você vai”. Isso influenciou a todos eles, que resolveram que não seriam apenas uma banda punk, e assumiram fortes referências do New Wave em sua sonoridade .
 

Qual a responsabilidade dos artistas LGBTQs

“Quando a gente ganha um edital, consegue entrar num Sesc, não é favor, é reparação histórica. A gente tá vindo tomar o que nos foi tomado”

“Eu sou mulher natural de fábrica!”diz Jonaz ao reproduzir a fala de  Angela Rô Rô. “Virou até bordão, Angela Horror’” diz ele. O episódio aconteceu no festival de diversidade sexual For Rainbow em Fortaleza no ano de 2015. “Sempre tinha Verónica nesse festival. Justo no ano em que a gente não tocou, aconteceu isso, mas o público cobrou e nós tocamos no ano seguinte”.
 
Jonaz chama atenção para o fato de que artistas mais velhos parecem perder a responsabilidade e noção do que representam “A  Angela é sapatão, como pôde fazer isso?”. 
 
Ainda que as músicas não sejam escancaradamente política, a posição da banda no palco é bem clara. Como Verónica diz "a banda é formada por corpos políticos”. “É um tapa na cara. As pessoas saem pra se divertir e anulam os fatos que acontecem até mesmo nesses momentos, agressões e tudo mais. A Verónica traz isso em um certo momento do show”.
 
Os próprios Jonaz e Verónica se conheceram em passeatas, lutando por direitos, e são participantes ativos na comunidade. Sem nunca deixar de passar a mensagem política, eles não querem ser meros espectadores desse momento.
 
Por isso, Jonaz chama a atenção de artistas LGBTQs famosos que não usam o espaço que têm para falar de causas importantes. “Se estamos unidas, estamos juntas, então vamos ficar juntas de fato”, diz ele, frisando que unidos ficaria mais fácil de serem ouvidos.
 
A política da Verónica decide morrer não veio por escolha, mas por necessidade, inclusive para que a vocalista assumisse sua transsexualidade “Minha mãe perguntava sempre se era preciso se vestir de mulher para estar na banda. (...) Quando a gente assume essa identidade, a gente se torna referência”, diz ao contar das diversas bandas em Fortaleza que tem eles como inspiração “As trava, as trans perceberam que podem fazer isso”. 
 

Verónica Decide Morrer é uma banda bem diversa

 

A identidade da banda é muito forte e a sexulidade muito diversa. Verónica Decide Morrer se orgulha das diferenças entre si “Tem uma bicha no vocal! E eu não vou falar ‘gay’, eu uso o termo ‘bicha’ porque eu acho que devemos ressignificar ele, assim como me denomino Travesti. Eu acho ‘trans’ higienizado, uma palavra que apenas pincela. ‘Travesti’ já é mais claro, verdadeiro.” 

Com isso eles percebem que seus corpos são políticos. Assumem, defendem e pagam o preço de assumir a identidade. "Num país como o Brasil, comprar um pão é um tormento pra gente. A gente é colocada numa posição de zoologização.” desabafa Verónica.
 
Jonaz e Verónica se vêm num momento de frente de batalha e deixam claro a importância de se falar sobre o tema. “Quando a gente sobe no palco, a gente vai falar desses problemas, mas também vamos celebrar nosso direito de escolha, esse nosso empoderamento”. 
 

"Bichas na frente da linha de Batalha"

Apesar do cenária ainda complicado, Verónica faz questão de contar que existe uma relação de cumplicidade entre artistas do meio LBTQ. “Dia desses tinha um grupo de travestis em casa; De Lacroix e Alice Guél que são do RAP, Ventura Profana que faz funk góspel. Quando eu olho em volta, tinha um grupo de travestis”.
 
Nas palavras de Verónica, o cenário “é um bondisão fuderoso”. Linn, Jaloo, Assucena e várias outras artistas torcem pelo trabalho uma das outras. A própria Linn da Quebrada, hoje um nome muito grande, já apareceu em Shows da Verónica decide Morrer. “É fortalecedor. Quando a gente ve uma mana que está bombando e não está se perdendo no ego, mantendo a humildade e laços com esse bonde” diz Verónica.
 
Jonaz ressalta a importância da união entre artistas “Se todas de fato se unirem, cada uma no seu show, abordarem o mesmo assunto, seria mais rápida a distribuição dessa mensagem, principalmente essas que têm grande público.”.  “Estar junto desse bond sendo a única banda de Rock’n Roll é muito enriquecedor. A motivação é forte.“ finaliza Verónica.
 

“Bicha também curte rock”

 
O público LGBTQ também ouve rock e não se sente à vontade nos ambientes padrões. Como diversos meios majoritariamente masculinos, é difícil conseguir lugar quando não se está dentro da normatividade. 
 
Jonaz conta que já ouviu vários depoimentos pós apresentação do seu público LGBTQ sobre o quanto o Show e o público da banda os faz sentir mais confortável “Eu tenho amigos do cenário Rock que são babacas até hoje. Eles aprendem um pouco, mas ainda são intolerantes” diz Jonaz. Existe uma preocupação real da banda em relação ao respeito para com seu público e de conseguir levar o Rock’n Roll para sua comunidade.
 

“Elas estão ali pra bater cabelo e se divertir, mas também precisam lembrar que estamos no país que mais mata LGBTQs no mundo”

Jonaz Sampaio

 

Agenda e novos trabalhos

 
Em agosto deste ano, Verónica Decide Morrer lançará seu novo Single “Lola” junto ao vídeo clipe. Esse single será o ponto de partida para uma nova era da Banda. Enquanto isso, haverá um show em Brasília dia 20 de Julho e dia 26 voltam a se apresentar em São Paulo.
 
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