Após a morte do presidente venezuelano Hugo Chaves em 2013, a Venezuela vem enfrentando uma crise político-econômica sob a liderança de seu sucessor Nicolás Maduro. Com a baixa do barril de petróleo, base da economia do país, e outros erros de gestão, a população teve que lidar com uma inflação astronômica de 800%, o que torna cada vez mais inviável a vida em seu país. Isso fez com que diversos venezuelanos fugissem e a fronteira com o Brasil em Roraima se tornou uma das melhores opções.

Em junho desse ano, a produtora e roteirista audiovisual Bruna Fileti acompanhou a fraternidade em seu trabalho voluntário em acampamentos para os refugiados em Roraima. Inicialmente a ideia era apenas servir como fotógrafa voluntária, mas o trabalho se estendeu e virou um curta documental da sua estadia de uma semana por lá.
 
Sem assumir posicionamentos políticos, o objetivo da nossa conversa foi entender a situação humanitária desses abrigos e quais foram as ações tomadas, tanto pelas organizações independentes, quanto pelo próprio governo. 
 
Separamos então, 7 fotos que com as descrições de Bruna, ilustram os momentos passados por ela nesse período. 
 
 
Esse panorama é de um dos abrigos mais afastados, até mesmo da periferia do centro de Roraima. Segundo a fotógrafa um dos mais organizados também. Ainda assim a condição dos moradores é precária, à esquerda, onde vemos um grupo de cabines azuis, são banheiros químicos divididos diariamente por todos os abrigados. A rede de esgoto é ainda inexistente e justo no dia de sua visita, Bruna relata as chuvas intensas que atrasaram ainda mais a construção de um sistema de saneamento. 
 
Para chegar nesse abrigo foi necessária uma viagem de van e depois uma combi que pertencia ao próprio abrigo, e era a única que poderia atravessar uma região alagada. Foram o total de 12 pessoas, equipamentos e caixas de doações dentro do veículo. 
 
Se era difícil entrar lá, imagina sair! Bruna conta que existe um bicicletário, e muitos dos moradores usam as bicicletas para chegar ao centro da cidade em busca de remédios e emprego em viagens de horas.
 
“Essa é a foto mais marcante pra mim. Foi a primeira que eu tirei”, conta Bruna. Vendo a imagem fora de contexto, você pode até acreditar que existe uma organização e até um certo conforto na medida do possível. Mas essas pequenas barracas fornecidas pelo exército abrigam famílias inteiras. “É muito triste essa foto pra mim, fico me imaginando no lugar dessas famílias, com a vida inteira dentro de um barraca.”. 
 
Quando pergunto sobre a segurança dessas famílias, ela diz que o exército está lá e a Fraternidade costuma ficar de prontidão “Mas o que realmente prejudica os refugiados é o ócio. Essas pessoas são esquecidas, invisíveis e, quando vistas, são consideradas um problema.”
 
Esse abrigo fica no pátio de uma igreja, ainda que haja suporte das organizações, até mesmo do exército a situação é de precariedade. Dentro desse abrigo se mantêm cerca de 600 pessoas buscando auxílio. “Estávamos em 20 pessoas. Não tinha como dar um atendimento digno para todos que precisavam, não só de auxílio médico, mas de atenção. A área de atendimento era isolada por uma grade. Você via as pessoas encostadas ali, implorando para serem atendidas. E são pessoas que tinham sua vida estabilizada e, por causa de um problema político, elas chegaram ao ponto que viver nesse abrigo era melhor do que estar no próprio país.” 
 
Ainda no abrigo da fraternidade, é naquela tenda branca ao fundo onde acontecem os atendimentos médicos. “É nessa situação que nós voluntários trabalhamos. São mesas e cadeiras improvisadas para cerca de 400 pessoas. Não tem infraestrutura. A questão é humanitária. Essas pessoas querem ser vistas. Ás vezes um olhar conta mais que um carro de equipamentos. A grande minoria, na verdade, são as pessoas que estão realmente doentes. Às vezes é uma gripe, o desânimo pelo ócio.” 
 
Essa foto retrata uma situação atípica vivida pela fotógrafa. Ao observar algumas moças lavando as roupas no abrigo e saindo de lá com as peças molhadas, Bruna resolveu acompanhá-las e foi surpreendida com essa cena. Pela falta de espaço, uma parte dos abrigados colocam suas roupas para secar no meio da avenida de Boa Vista.
 
“Essa foto me dói muito. Porque são crianças lavando as panelas onde é feita a comida, no chão”. Esse momento retrata a falta de saneamento nos abrigos, o que potencializa a causa de doenças. “Eu tenho medo do que pode acontecer com essas pessoas. Eu nem tenho muitas palavras para descrever essa imagem”. 
 
“Eu olhava ao meu redor e tinha a sensação de estar em  uma zona de guerra”. Essa garotinha foi encontrada entre os vários varais de roupa no abrigo. “Encontrei essa garotinha dormindo em meio ao desastre”, conta Bruna. Logo após o clique da fotógrafa, a mãe da criança pediu para ver a foto “Ela, com lágrimas nos olhos, me agradeceu por ter visto a filha dela”.
 
Com viagem marcada para a próxima visita a Roraima, Bruna, que foi voluntária pela primeira vez na Fraternidade, chama a atenção para necessidades humanas muito além de políticas. Ela retrata a marginalização desse povo nessa região do país que já é economicamente muito frágil. 
 
Segundo ela, existe a necessidade de um projeto educacional para todos ali, sendo que diversos profissionais graduados sofrem pela barreira da língua e têm dificuldades em conseguir trabalho. Já a população de Roraima, em parte, entende e auxilia os refugiados, mas uma maioria se vê prejudicada, tanto pelo aumento de doenças, quanto pela marginalização.
 
É claro que temos limitações políticas e sociais quando o assunto é refugiados. Nem os países considerados mais avançados tem certeza de como lidar com isso. Mas muito além disso, Bruna diz, “É preciso enxergar o ser humano, com histórias, trabalhos e família. Assim como nós. Eles vivem uma crise política na Venezuela. O que como todos temos visto, não é uma exclusividade no mundo”. 
 
Além das fotografias, é possível conhecer um pouco mais do trabalho da Bruna e da história dos refugiados através do seu documentário: “Fraternidade sem fronteiras: uma esperança à humanidade”.