Akin Deckard, ou Akin Bicudo, é uma figura extremamente ativa na cena musical de nossa selva de pedra paulista. Seu amor incondicional por música, "especialmente fora da curva" e experimental, o moveram a sair da gaveta do habitual e procurar novos estilos e formas de se expressar.

Seu fascínio por hip hop, rádio e ficção científica o levaram longe numa pesquisa musical em busca de estilos que fundiam uma atmosfera cinematográfica a graves bem aplicados e batidas que ecoassem passado e futuro ao mesmo tempo. Com isso nasceu a rádio Metanol; um laboratório auditivo com transmissão online que evoluiu para uma das mais bem sucedidas festas de rua, com foco em novas tendências e fortalecendo a cena eletrônica local, revelando novos talentos dos decks e produção.
 
Na sequência veio a S/A, um local democrático onde a ideologia de que o público é artista e o artista é público tornou-se a palavra de ordem. Diversas jam sessions de sintetizadores e drum machines já pássaram pelo espaço. Uma série de amantes do novo e inesperado se encontraram por lá e tomaram coragem para fazer sua música sem amarras com o comercial.
 
DJ, curador, agitador cultural e com uma rotina ligada no 220, Akin deu um respiro para ceder uma entrevista verborrágica e, esclarecedora em que colocamos em pauta o presente e futuro da cena de festas e eventos abertos em tempos tão sombrios da política nacional. 
 

Akin, como aconteceu seu amor pela música? E como foi seu primeiro contato com a música eletrônica experimental e bass music?

Na época em que eu morava com meus pais, sempre existiu muita música em casa. Meu pai tinha uma coleção de vinil considerável e minha mãe vivia cantarolando Elis Regina e artistas da época. Aos 13 anos, meu pai me levou ao Rock In Rio II. Foi a primeira vez que vi um show ao vivo e, em meio à Faith No More, Happy Mondays, Debbie Gibson, INXS, Billy Idol e demais nomes, o Run DMC foi o que me pegou de jeito. Naquele período eu já ouvia muita coisa dos anos 80 e 90, admirava Michael Jackson e gostava de New Order, mas foi depois de ver o Run ao vivo que entendi a força que o rap tinha e o como o movimento hip-hop traduzia em muito meus interesses e emoções. No Natal do mesmo ano, ganhei o disco "Hip Hop Cultura de Rua" de uma prima, e passei a me identificar mais ainda com o movimento ao ouvir rimas em português.
 
A predisposição à música eletrônica veio inicialmente com filmes de ficção científica, também por conta de meu pai, que me levou pra ver E.T., Contatos Imediatos, Blade Runner e Akira no cinema. As trilhas dos filmes sempre me atraíram, o que me fez passar a ir atrás dos discos de compositores como Vangelis, Tomita, John Carpenter,  Ennio Morricone, Jean Michel Jarre, entre outros. O resultado deste interesse se fundiu com o gosto pelo rap, presente também nas trilhas dos vídeos de skate que eu assistia. Com o passar do tempo, me senti impelido a fazer música. Tive banda de hardcore, onde toquei baixo por alguns anos e, aos 18, me tornei MC. 
 
Minha escola era a de batalha de rimas, com forte influência da cena de Nova Iorque dos anos 2000, pós golden era do boombap, com artistas sampleando elementos de eletrônica oitentista sob um viés mais experimental. A bass music foi um período breve em minha trajetória e interesse musical, porém significativa, pois esteve presente de certa forma nos primeiros anos de formação da Metanol FM, coletivo do qual faço parte.
 

A rádio Metanol vai completar oito anos no ar. Você imaginou que esse projeto duraria tanto tempo e renderia tanta história?

Nunca pensei a respeito do tempo que esta história iria durar, apenas segui um instinto que me dizia "precisamos falar sobre música eletrônica fora da curva". O que a princípio era um exercício solitário de pesquisa e difusão de conteúdo, passou a ser uma relação de aproximação com o período de produção que estamos vivendo e seus respectivos artistas e público.
 
Eu cresci ouvindo rádio, de sintonizar e revisitar semanalmente estações específicas para descobrir música. Estudei Comunicação Social, me formei em Publicidade e Propaganda, e a idéia de rádio como veículo de difusão de idéias sempre me instigou. Existe um relação silenciosa entre locutor e ouvinte, onde a imaginação do canal receptor torna mais valiosa a existência do canal emissor. Ao mesmo tempo, é muito valioso pensar que nossas idéias e pesquisa podem estar presentes em momentos distintos na vida de um ouvinte, por pura e simples escolha do mesmo, como um exercício de conexão de indivíduos em planos distantes pelo livre arbítrio, o que torna o ofício de se fazer um programa de rádio semanal algo mais valioso. É impossível estar fisicamente presente em todos os lugares alcançados pelas transmissões da Metanol FM, por isso é muito importante e gratificante perceber que nossas idéias existem e são assimiladas por indivíduos distantes porém próximos por ideais em comum, participando ideologicamente do crescimento de artistas, núcleos e público de interesse da cena na qual estamos inseridos. Queremos fazer parte de algo maior do que nossa própria existência, de um movimento que seja expressivo muito além do nosso próprio quarteirão.
 

Como rolou a ideia de juntar um coletivo e fazer as festas da Metanol na rua numa época onde esse tipo de evento encontrava mais contras que prós?

O coletivo foi um resultado natural das atividades da rádio, que tem como propósito ser um canal de discussão e de troca de idéias. Meu intuito com a Metanol FM sempre foi o de fortalecer uma cena local, a fim de percebermos melhor o lugar da eletrônica brasileira em relação ao restante do mundo. Neste eterno processo de pesquisa, troca de idéias, mapeamento, compartilhamento de informação e incentivo, a rádio passou a ser requisitada fora do ambiente online, partindo pra atividades musicais presenciais. Como resultado dessas atividades, reuni um a um os integrantes do coletivo, tanto os atuais quanto os que já passaram por nós, no intuito de criar um grupo expressivo de artistas autênticos, cada qual com sua própria bagagem musical, fortalecendo um cenário onde estes integrantes pudessem desenvolver suas habilidades como artistas, inspirando outros artistas a encontrarem seu caminho também.
 
No início, a Metanol FM causava muito estranhamento musicalmente, pois reunia uma série de estilos distintos dentro de um mesmo espectro. Apesar de nossa pesquisa e predisposições musicais seguirem uma lógica de relação, nos tornamos inclassificáveis dentro de uma idéia de "cena", o que resultou diretamente no surgimento das nossas festas de rua, intituladas por nós de "encontros audiovisuais de livre acesso". A rua e a rádio eram os únicos lugares possíveis para que conseguíssemos passar uma idéia concisa de ruptura das convenções musicais vigentes. Com o passar do tempo e muita insistência, vimos uma mudança de cenário significativa, com mais abertura para novas idéias e uma maior aceitação de diferentes caminhos de expresão, especialmente pela identificação de artistas inclassificáveis com aquilo que fazemos. Ao conquistarmos a nossa voz, passamos a dar voz a outros, que de certa forma encontraram um porto seguro para que seus trabalhos autorais sejam percebidos além de definições e padrões já estabelecidos. 
 

Como tem sido a rotina de se dividir como curador, produtor e DJ. Sobra tempo para outras atividades?

Tenho como ponto chave tentar viver ao máximo daquilo com o qual me identifico. Minha idéia de realização pessoal é atingir o status de que vida e trabalho sejam prazerosos na mesma intensidade, mas longe da idéia de que se viver é trabalhar, por mais que seja necessário trabalhar pra se viver. Pode soar utópica esta irônica dicotomia, mas trabalhar consome grande parte de nosso tempo em vida e, sendo assim, que seja em prol de algo que nos faça pessoas melhores e que nos proporcione melhores condições de vida. E eu não estou falando sobre questões financeiras especificamente. Meu trabalho como curador exige tempo, pesquisa e disponibilidade, assim como minha rotina como DJ e produtor musical exige dedicação, empenho e estudo. Nessa matemática, a força motriz é o tempo do qual disponho, por isso entendo que ambas as atividades podem funcionar ainda melhor se caminharem juntas. Quando faço um trabalho de curadoria musical, tento imaginar um cenário que seja favorável à artistas que estão numa busca assim como eu estou, para que estes possam ter as melhores condições possíveis para a execução de suas idéias. Estar dos 2 lados de uma mesma moeda é fazer com que a mesma gire de forma uníssona, a ponto de ambos os lados se fundirem em um movimento perpétuo de inspiração e impulsão.
 
Além da necessidade de se fazer a moeda girar, é preciso te cuidado e atenção com a saúde física e mental, família e amigos. Se aquilo que fazemos subtrai mais do que agrega ao nosso dia-a-dia, isto não nos serve. O que me impulsiona é a energia criativa aplicada na execução de idéias, algo que me ocorre a qualquer momento, especialmente nos mais improváveis. Levei alguns anos pra entender que não seria possível separar a figura do Akin pessoa jurídica do Akin persona artística e do Akin pessoa física, por isso tento levar tudo de uma maneira leve. Falta de tempo é desculpa pra quem se esquece que tudo na vida é uma escolha.
 

O S/A é um episódio importante do underground paulista. Como pintou a ideia de criar o espaço? É um empreendimento corajoso focado em amantes de música e arte. 

O S/A surgiu de uma vontade comum entre eu e meu antigo sócio, o artista multimídia e agitador cultural Diogo Distúrbios. Na época em que nossas idéias se cruzaram, estávamos buscando um refúgio onde a cena independente de arte e música pudesse existir sem precisar se relacionar com aquilo que não lhe cabia. O espaço nunca foi uma pista de dança ou palco, nem mesmo uma galeria em sua forma tradicional, mas também poderia funcionar como tal a partir da disposição e intenção dos artistas que transitam por ele.
 
Em resumo, o S/A é um espaço de convivência e uma plataforma de experimentação, onde artista é público e público é artista. Não é um lugar de domínio popular, operamos mais no boca-a-boca, porém é um espaço publicamente acessível para quem procura uma maior proximidade com a essência criativa de inúmeras cenas. Estamos em atividade há mais de 4 anos, preenchendo uma lacuna essencialmente distante do ambiente de casas noturnas, espaços expositivos, bares e casas de show, cooptando de forma natural e verdadeira apenas aquilo que é valioso destes lugares. Foi no S/A que o coletivo Metanol tocou junto pela primeira vez, assim como foi o espaço onde muitos artistas, bandas e projetos fizeram sua primeira apresentação pública, em muitos casos suas melhores até hoje. É um lugar realmente especial, que faz parte da história de muita gente, e espero que muitos outros lugares assim ainda surjam na cidade.
 

Quais produtores, artistas gráficos e núcleos de festa você gosta e, de certa forma, te influenciaram?

Seria quase impossível fazer uma lista definitiva pra esta pergunta, porém cada vez mais tenho me interessado e me surpreendido positivamente com nomes locais.O S/A por exemplo surgiu como inspiração da Bendgy, iniciativa da artista e amiga Patrícia Colli. As festas de rua da Metanol FM tem em sua essência inspiração nos  encontros do Dubversão, encabeçado pelo selecta e também amigo Yellow P,  além também das block parties de hip-hop do início dos anos 80 e da cena berlinense de raves a céu aberto.
 
Musicalmente minhas influências vão da eletrônica e rock experimental das décadas de 70 e 80 ao outsider house, lo-fi, ambient music, acid, industrial, garage, beat scene e mais uma infinidade de coisas. Essencialmente os produtores que me inspiram são em grande parte nomes em atividade ou relacionados a estas vertentes, difícil listar todos eles. Importante ressaltar que atualmente minha atenção está voltada para novos selos locais, como Wet Dust Records, Domina, Subsubtropics Records, Meia-Vida, Tired of People, Ukyio, Banal, entre outros. 
 

Certamente a Metanol e o S/A influenciaram diretamente uma parte da nova cena eletrônica. Você acha que ainda teremos movimentos sonoros que vão quebrar com a mesmice do pop e mudar a relação líquida que os jovens têm tido com música e movimentos culturais?

Acho que mais do que inlfuenciar uma cena, o S/A tem como perfil ser um catalisador de pessoas que acreditam naquilo que fazem, e seu papel é prover espaço para que múltiplas vozes ecoem em sua totalidade criativa. É uma via de duas mãos, onde o espaço existe a partir da justificativa de um cenário em crescimento e ebulição, assim como este cenário tem no S/A um local para que se aperfeiçoe, cresça, se reproduza e seja percebido. Eu percebo que somos parte de uma cadeia criativa que aponta em uma única direção: a de se criar um cenário essencialmente autoral, que se sustente por suas próprias iniciativas e ações, sendo visto como parte essencial do conteúdo musical consumido aqui.
 

Ao seu ver, o que vai acontecer com toda essa cena de eventos culturais de rua, clubes e shows nos próximos tempos?

Já não há caminho de volta para o que foi ideologicamente construído até aqui, desde as décadas anteriores até os dias atuais. Eu acredito na teoria da Cauda Longa, da harmonia entre inúmeros nichos dentro de um mesmo ecossistema criativo, especificamente aqueles relacionados à música e artes. Acredito na continuidade de uma história, em legado cultural, nas relações de troca entre gerações e numa maior proximidade entre artista e público. É perceptível que estamos em um momento de grandes mudanças, porém nos falta uma maior compreensão de que música é um assunto único em termos de mercado, esteja ela na rua, em cima de um palco ou dentro de um club. 
 
Mais do que isto, ainda é necessário reconhecermos o valor da cena local em termos de Brasil como um todo. Carecemos de um certo orgulho e de apoio em relação ao que produzimos aqui, colocando valiosos artistas nacionais às sombras de artistas gringos. Essa é a grande diferença entrre nós e o restante do mundo, o fato de não termos um "mercado estabelecido", que estimule e consuma o seu produto interno bruto musical na mesma intensidade com que absorve aquilo que vem da Europa e Estados Unidos.  Sem isto, não conseguiremos chegar muito mais longe de onde estamos agora. O mundo não deveria ter muros ou cercas, devemos nos enxergar como gringos também.
 
 

 

Foto por Image Dealers