Nossos curadores de fotografia bateram um papo com o artista que vê São Paulo bem de perto

Dentre algumas centenas de fotógrafos que conhecemos, o nome Thiago Lima insiste em aparecer com uma força difícil de explicar. É quase impossível traduzir em palavras o motivo de suas fotos terem um impacto tão forte conosco. Seja pelo uso da luz, pelo uso da cor ou pela apropriação do espaço urbano que ele faz, o trabalho do Thiago conseguem nos transportar para um outro plano, uma levitação sobre o ambiente e uma lembrança de quem somos ou de quem procuramos nos tornar.

Thiago Lima - Freak Market from Leandro Neves on Vimeo.


Por que a fotografia da cidade te interessa e de que forma te instiga? Qual é a sua cidade e o que ela representa pra você?

Eu sempre me interessei pela diversidade que habita o centro da cidade, acho fascinante ver tanta gente diferente ocupando o mesmo espaço. Desde criança eu ouvia falar que o centro da cidade era perigoso e violento, e de fato é, mas é um perigo que me atrai.
São Paulo é a minha cidade, meus amigos, minhas memórias e meus sonhos.



De que forma a sua fotografia toca e contribui para o mundo?

Eu acredito que mais do que fazer um foto bonita ou realçar um lugar através das cores, a fotografia pode despertar alguma coisa nas pessoas, ou fazê-las questionar sobre a vida, o cotidiano, a realidade que vivemos, esse tipo de coisa.



Você tem um trabalho muito bacana com moradores de rua. O que fez você ter o desejo de produzir esse trabalho?

Eu queria saber quem eram aquelas pessoas, saber da história delas e ir além do rótulo “Morador de Rua”. O que eu quis com esse projeto é mostrar que todo mundo tem uma história, mais do que mostrar que eles passam fome ou coisa do tipo.



O que esse trabalho modificou em você? Que aprendizado e mudança te trouxe? Você tem uma história interessante sobre esses encontros que tenha te marcado mais para compartilhar?

Ter conhecido esses moradores foi algo que me ajudou  a olhar melhor para o próximo e também para mim mesmo. A gente tem sempre nossos pré-julgamentos e hoje quando vejo um morador não fico questionando sobre as escolhas dele, mas vejo ali um ser humano como eu, mas que vive em uma circunstância diferente – com suas próprias histórias.
Uma das histórias mais marcantes foi da moradora Edna, que há muito tempo não via seus filhos e quando conversamos e eu a retratei ela chorava. O carinho que ela me tratava me comoveu, porque ela enxergava em mim um dos seus filhos.


Você acha justo fazer imagens dessas pessoas? Você não se sente um invasor da fraqueza/intimidade alheia?

Claro que já me perguntei se isso era oportunismo ou no que estava ajudando, já que as pessoas continuavam na rua com frio e com fome. Porém percebi que eu não tenho que salvar o mundo. Meu principal intuito com esse trabalho não era mudar a situação do morador, mas mudar a forma com que as pessoas veem e se relacionam com eles.



Você retrata a cidade real? Você é um encenador ou um realista?

Eu retrato tudo aquilo que pra mim é real, fico extremamente feliz em poder mostrar as minhas verdades, isso é o que me motiva. Logo, me considero realista.



O que é a luz para você? De que forma ela atua na sua imagem?

A luz é um elemento singular nas minhas fotos, pois no que se refere ao meu trabalho, a luz natural é a minha favorita, já ela está presente em quase tudo. A cada novo trabalho, encontrar uma luz diferente é a grande mágica pra mim. Nunca é a mesma luz, uma luz fixa, pelo contrário. Cada lugar é um lugar, uma experiência, uma expectativa. Posso me arriscar a dizer que luz também está atrelada à esperança.



As cores são muito presentes e impactantes no seu trabalho. Qual a importância delas no seu trabalho? O que elas significam?

Eu adoro trabalhar com cores, e isso tem se tornado uma identidade na minha fotografia. A cada novo trabalho eu busco estabelecer uma intimidade com as cores, isso foi conquistado aos poucos. As cores para mim são desafiadoras, por isso talvez sejam tão marcantes para quem as vê.



Quais são suas referências mais profundas?

Antes de ser fotógrafo eu sou uma pessoa comum. Por isso, a vida é a minha principal referência. Claro que eu poderia citar vários dos artistas que eu admiro ou de pessoas no meu âmbito pessoal, mas o que acontece diretamente no meu cotidiano impacta no meu trabalho como fotógrafo, me movendo ou não a retratar a cidade em que vivo e tanto amo. A minha vida está diretamente ligada a fotografia e vice e versa.



O que te emociona profundamente, que faz você chorar?

Não me emociono com facilidade, mas sinto que isso vem mudando com o passar dos anos. Com o amadurecimento, as minhas expectativas diante da vida, o próprio relacionamento, isso vai me transformando.



O que te dá raiva e ódio?

Raiva e ódio não são coisas boas, mas inevitavelmente estão presentes no meu pensamento. Injustiça é uma coisa que me deixa verdadeiramente odioso.



Você acha que a fotografia muda o mundo? Você acha que a arte muda o mundo? Qual a importância do artista/fotógrafo para a humanidade?

Eu acredito que as pessoas podem mudar o mundo, a fotografia e a arte são fundamentais pra que isso aconteça. Nem que seja para nos fazer parar para pensar.



Para conhecer mais do trabalho do Thiago

https://www.facebook.com/athiagolima
http://tgolima.tumblr.com
https://quemdormenaruapassaodiadepijama.wordpress.com