Seu nome é Maria de Lourdes Andrade de Souza, mas na Vila Nova Esperança todos a conhecem como Lia. Ela é a líder de mais de 600 famílias na comunidade que há apenas 14 anos começou a ser seu lar, a Vila Nova Esperança, uma das 1705 favelas da cidade de São Paulo, que se diferencia por ter um objetivo claro: viver na base da sustentabilidade.

 
Através do olhar e das vivências da Lia, o documentário Lia Nova Esperança: Cidades Educadoras, cujo lançamento acontece hoje, apresenta a proposta de transformar a comunidade em uma Vila Ecológica. Bastante empolgada, ela trocou uma ideia com a gente e falou sobre sua inspiradora trajetória e o que a favela onde mora tem de tão especial.
 

Como você se tornou essa líder da comunidade?

Não sei nem explicar como aconteceu. Eu nunca tinha morado na favela. Sou da Bahia e onde eu morava não tem favela. Nasci numa cidade que se chama Itaberaba (BA). Em São Paulo foi que eu vim saber o que era favela. Quando eu soube, eu tinha medo porque as pessoas falavam muito que era perigoso, mas depois eu conheci uma pessoa que a mãe morava numa favela. Casei e no final terminei vindo morar em uma. 
 
Quando eu cheguei na Vila Nova Esperança, tinha um problema muito grande com a posse da terra. As pessoas moravam aqui mas o poder público queria tirar porque era área de preservação ambiental. Aí pensei, “comprei aqui e vou perder?” 
 
Em 2006 comecei a ver que eu podia fazer alguma coisa. Comecei a participar de reunião dos moradores e, um dia, a presidente da associação daqui disse que não tinha mais o que fazer. O juiz já havia decidido que teríamos que sair. Achei estranho. Como o juiz podia fazer isso? Se eu mato alguém tenho direito de defesa, então achei estranho. Alguma coisa tá errada. Foi então que eu resolvi chamar os moradores pra discutirmos isso. E pra minha surpresa todo mundo veio comigo. 
 

Como foi o processo pra lutar contra o sistema?

Em 2007 eu chamei a Secretária da Habitação e ela disse que eu tinha razão. Que a gente tinha o direito e o dever. Eu não tinha dinheiro, então todos teriam que me ajudar. A comunidade então decidiu ajudar e eu fui atrás. 
 
Em 2010 venceu o tempo da nossa presidente da comunidade e o povo então me quis como nova líder. Nesse momento eu tinha 15 dias pra tirar a comunidade de lá. Então eu disse que a gente tinha que lutar! O promotor disse que eu tinha que sair, mas eu comecei a bater de frente com ele. 
 
O promotor disse que a gente estava sujando o local, então a gente começou a fazer mutirão para limpar a comunidade. Isso porque se não podemos ficar no espaço porque tá sujando, precisamos de educação para saber conviver com a natureza. O poder público tem que levar educação ambiental pro povo. 
 

Foi aí que nasceu a ideia da horta?

A gente fez a horta em 2013 para ensinar as pessoas a ter educação ambiental e alimentar. Hoje a gente tem um projeto de urbanismo ecológico e nós já ganhamos até prêmio. Legalmente conquistamos a energia e hoje já temos energia da rua de LED. Só falta o esgoto. Para completar fizemos cozinha também. 
 

De onde saiu a ideia do documentário e como foi esse processo?

 
A Mayte (Albardía, diretora do filme) veio em 2014 e perguntou se eu queria. Achou legal história e o projeto. Perguntou se eu queria fazer o documentário. Ela está desde 2013 até agora acompanhando a gente, e eu achei muito bacana tudo.
 
Em 2014, foi feita uma arrecadação para gerar fundos para a comunidade. Conheça a história da Vila Nova Esperança no vídeo de lançamento da campanha de arrecadação.