“...O que importa é que toda mulher deve ser respeitada, bem como suas escolhas, seja ela dominatrix ou não.”

 
BDSM é um acrónimo para a expressão Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo" um grupo de padrões de comportamento sexual humano”
Definição Wiki
 
Mistress Charlotte é Dominatrix profissional há um pouco mais 4 anos. Entrou aos poucos nesse mundo, aprendendo com seus submissos. Admite que cometeu erros no início da carreira e por isso alerta sobre os riscos da prática quando mal estudada. O universo BDSM é maior do que se imagina e muito além de falar com a Charlotte, tive oportunidade de conversar com alguns de seus submissos (homens e mulheres), que dizem ter evoluído em aspectos completamente positivos em sua vida após ter iniciado a prática, como, por exemplo, melhoria em obedecer, tolerar e aceitar situações no dia a dia que eram antes insuportáveis para eles. 
 
Para entender um pouco mais a fundo esse universo, conversei com a Mistress Charlotte sobre suas experiências, conhecimentos adquiridos, preconceitos enfrentados... e aqui está o resultado da conversa:
 

A prática BDSM ainda é muito marginalizada. O preconceito prejudica seu trabalho? Você percebe que há uma evolução em relação à isso?

Embora eu seja dominadora profissional, essa não é de fato a minha profissão. Na verdade é algo que prefiro chamar de “second life”. Profissionalmente divido meu dia a dia entre reuniões e negociações com empresários que sequer imaginam que eu adoto esse estilo de vida – ou, se sabem, mantêm total discrição a respeito. Assim, entre uma reunião e outra, por prazer e diversão, levo minha vida como Dominadora profissional, e me deparo com caras – com perfil semelhante aos que eu estou acostumada a negociar – que chegam até mim a fim de me servir, se colocando aos meus pés e sob minhas ordens.
 
Infelizmente o BDSM ainda é sim muito marginalizado. Tanto é que não abro com ninguém esse meu estilo de vida. Apenas pessoas do meio e submissos sabem quem eu sou, e esses, assim como eu, evitam se expor em relação às suas preferências. Como Dominadora Profissional o que percebo em relação ao preconceito – e que já me foi relatado inúmeras vezes por submissos que chegam até mim – é que as pessoas demoram muito, isso quando não desistem, para atender seus desejos em relação a submissão. Isso acontece não só pelo preconceito com a prática, mas também pelo medo de se expor e ser julgado de alguma forma. O que busco fazer a respeito disso é deixar sempre claro que sessão não é vida, e que o que acontece entre 4 paredes permanece entre 4 paredes.
 
Sobre a evolução em relação ao tema, não poderia dizer que não evoluímos nada. É cada vez mais comum ver pessoas de todos os sexos e de diferentes posições sociais se entregarem às suas fantasias. Contudo, o conservadorismo ainda se mantém muito presente em nossa sociedade, o que faz com que, ainda hoje, o BDSM e as práticas fetichistas se mantenham como uma cultura de margem.
 

De uns tempos pra cá, o conservadorismo vem crescendo em redes sociais. Isso chega até os profissionais BDSM? Afeta negativamente seu trabalho?

Com o avanço das redes sociais está cada dia mais fácil para todos expressarem suas opiniões em relação aos mais diversos temas. É claro que isso chegou também aos praticantes de BDSM, principalmente a aqueles que estão mais expostos, como é o meu caso. Já cheguei a receber críticas infundadas de haters que o fazem apenas por não concordarem com meu estilo de vida, mas sem sequer saber o que isso de fato significa.  Contudo, a partir do momento que me assumi como Dominadora Profissional, me propus a não me preocupar com o que as pessoas pensam ou dizem a respeito do BDSM.  Dessa forma, se tornou viável lidar com essas situações sem me desgastar ou ser afetada de forma negativa.
 
Infelizmente não posso mudar a mentalidade de todos, então, o que busco fazer, é tentar apresentar tudo de uma forma mais natural, como sendo algo que pertence e está presente na vida e no dia a dia da maioria das pessoas. Praticamente todo mundo possui algum tipo de fetiche, o maior problema está em identifica-los e aceita-los. Mas isso é algo a ser discutido em outro momento.
 
 

Muita gente liga o sadomasoquismo à traumas sofridos, aquela velha história de Freud na psicanálise. Mas esse é mesmo o perfil dos seus submissos?

Não é possível afirmar categoricamente que o sadomasoquismo esteja associado a algum tipo de trauma. No meu caso por exemplo, bem como no caso da maior parte dos meus submissos, não há nenhuma relação entre o perfil sadomasoquista e traumas pessoais.
Mas ainda que haja, acredito que no sadomasoquismo a pessoa tem a possibilidade de trabalhar isso de forma consciente, saudável e sem causar danos a outros a partir do momento que assume o princípio do SSC (São, Seguro e Consensual).
 
 

Percebo que você fala muito de empoderamento feminino. Isso é bem aceito dentro do universo BDSM? Qual o limite entre sadomasoquismo e agressão?

Dentro do BDSM existem subculturas e uma delas é a Supremacia Feminina, que em muito se relaciona com o empoderamento feminino. Existem muitas mulheres praticantes de BDSM que podem assumir diferentes papéis, sendo dominadoras ou submissas. Independente do papel que essas mulheres assumem, todas são empoderadas, afinal, o poder não está relacionado apenas a dominar a figura masculina, mas sim em ser responsável e consciente de suas escolhas, assumindo a autonomia e total controle sobre seu corpo e seus desejos, podendo assim assumir o papel que as agrade, a forma como deseja realizar seus fetiches e quem deseja dominar ou até mesmo servir.

Em relação ao limite entre sadomasoquismo e agressão, do meu ponto de vista, tudo está relacionado ao SSC, que é um princípio básico para qualquer praticante de BDSM, seja qual for o seu papel e independente de se relacionar com uma Dominadora Profissional ou não. SSC é a sigla de São, Seguro e Consensual. Ou seja, para que a prática sadomasoquista seja algo saudável é necessário que ambos os praticantes estejam conscientes (São), não haja risco à saúde, integridade física ou psicológica de nenhuma das partes (Seguro) e, principalmente, que ambos concordem em relação às práticas a serem realizadas (Consensual).

Ao contrário do que muitos pensam, a prática sadomasoquista vai muito além do simples bater/apanhar ou mandar/obedecer. Para que a prática possa ser saudável é necessário que ambas as partes estabeleçam previamente seus limites (práticas que aceitam realizar ou que não realizariam de forma alguma). Dessa forma, acredito que o que diferencia a prática de uma agressão é o SSC, pois mesmo dentro de uma relação sadomasoquista, a partir do momento em que não há consentimento, sanidade e segurança, a prática deixa de ser algo saudável e se torna uma agressão.

Como Dominatrix profissional e Mistress (que, como aprendi com você, é alguém que passa o seu conhecimento), você se preocupa em explicar os riscos da prática sem experiência? Como se aprende a ser uma dominatrix?

Sim, enquanto Dominadora Profissional sempre me preocupei em passar o que eu sabia a diante e, até mesmo, aprender com a experiência dos meus submissos. Quando as pessoas buscam o BDSM muitas vezes elas não imaginam os riscos implícitos em todas as práticas e quais são as formas de evita-las. Não existe uma receita para ser Dominatrix, infelizmente, não existe nenhum tipo de guia ou manual específico sobre as práticas BDSM. Ao me tornar Dominadora sempre busquei estudar muito sobre tudo que considero relacionado às práticas, desde cursos de shibari (um tipo de amarração tradicional japonesa) até temas como anatomia, fisiologia e psicologia. Acredito que antes de qualquer pessoa se tornar ou se intitular dominadora é necessário, no mínimo, se informar sobre os riscos atrelados a cada tipo de prática, questões de segurança e higiene.

Os estudos de Charlotte são contínuos, com direito a consultoria de profissionais e submissos, para fazer das suas práticas as mais seguras possível, de maneira à nunca prejudicar física ou psicológicamente seus submissos

Qual a prática mais pedida de sadomasoquismo? Existe a “prática da moda”?

Não acho possível afirmar que exista uma prática “da moda”. As práticas variam muito entre aqueles que me procuram e, diferente do que muitos pensam, quando um submisso procura uma dominadora, ele não está ali apenas para atender aos seus próprios desejos, mas sim para servir a uma outra pessoa. Dito isso muitos entram no universo BDSM por conta da podolatria, eu mesma comecei assim, as pessoas têm essa paixão por pés...
 
Antes de aceitar ou não um submisso existe uma seleção que se dá através de conversas, visando estabelecer quais são os fetiches e limites do submisso, e também deixar claro quais são as práticas de minha preferência e limites. É comum pessoas me procurarem querendo ter somente algumas práticas específicas durante a sessão e colocando como limite tudo aquilo que as desagrada, assim como tem aqueles que me procuram dizendo estar dispostos a fazer absolutamente tudo e não ter nenhum tipo de limite.
 
Eu, enquanto dominadora profissional, não costumo aceitar esse tipo de público por acreditar que o fetiche e BDSM não são nenhum tipo de brincadeira e que qualquer pessoa que busque essas práticas deve se informar antes sobre o que elas são e se questionar sobre seus limites físicos e psicológicos afim de poder se entregar de fato à sua dona  e ao momento e vivenciar toda a experiência de uma forma mais intensa e prazerosa.
 
 

Falando em moda, recentemente a Moschino lançou uma coleção inspirada no universo fetichista e é histórico o envolvimento da moda com esse meio. O próprio punk se inspirou em Leather Clubs Londrinos. Quais são as suas referências de estilo para uma cena?

Acredito que o fetiche está em tudo e que não existe um padrão a ser seguido quando o assunto é moda fetichista. Eu, particularmente, não sigo nenhuma referência específica. O que busco fazer é pautar meu estilo naquilo que faz com que eu me sinta bem, atraente, sensual e poderosa. Adoro couro, látex e acessórios fetichistas de um modo geral, e mesmo sabendo que marcas internacionais são mais conhecidas, no meu dia a dia uso muitos acessórios de moda e até mesmo roupas de fabricantes nacionais, que não deixam a desejar para as marcas internacionais. Pensando nesse mercado nacional, gosto muito de nomes que podem não ser sequer conhecidos pelo público em geral, mas que atendem perfeitamente a minha demanda por roupas e acessórios de moda fetichista como, por exemplo, WZ Fetish, LordSteel, ZP Latex, Malu Monteiro Brand, Hyse, entre outros... Sempre tenho presentes peças de um ou mais desses fabricantes nacionais para compor meu estilo e assumir um ar mais fetichista, seja para uma sessão ou apenas para o dia a dia.

Acessórios como chocker, roupas de látex/couro, saltos altíssimos, espartilhos, tiras entre outros, fazem parte da cultura mainstream. Mas quando falamos diretamente sobre fetiches, o grande público se encabula. Você vê uma certa hipocrisia nisso?

Talvez hipocrisia não seja exatamente a palavra. Acredito que isso esteja mais relacionado à falta de conhecimento e informação mesmo. Moda e fetiche apresentam uma relação muito mais íntima do que o público em geral pode imaginar. Ambos se complementam e ambos estão presentes na vida e no dia a dia da maioria das pessoas. O que os diferencia, do meu ponto de vista, é que – apesar da proximidade entre ambos – a moda faz parte da cultura mainstream enquanto o fetiche ainda é tido como uma cultura de margem.
 
 

Existe um padrão estético obrigatório para uma ser uma Dominatrix?

Acredito que toda mulher é livre para ser o que quiser na vida. Não importa nem há nenhum padrão social ou estético a ser seguido enquanto Dominatrix. Gorda, magra, toda malhada, corpo natural, siliconada ou com aquela celulite. Loira, morena, ruiva ou com o cabelo colorido, não importa. O que importa é que toda mulher deve ser respeitada, bem como suas escolhas, seja ela dominatrix ou não.
 
Alguns diriam ironicamente, mas o fato é que muita gente se sente livre no universo BDSM, seja dominando ou sendo submisso. Alguns usam uma sessão para alívio de tensão, outros adoram a sensação de superação, mas isso pode ir além de sessões, existindo relacionamentos monogâmicos que incluem a prática e são duradouros e intensos.
Esse universo costuma ser mal representado no entretenimento. Todas as relações em que mulheres são dominantes são tratadas de forma cômica na TV. Esse tratamento somado ao tradicionalismo, como bem dito por Charlotte, faz as pessoas demorarem a se descobrirem e se libertarem dos Tabus. 
Para os praticantes, serem consciente das suas fantasias e fetiches e ter o direito de realiza-las consensualmente é completamente libertador.  
 

Fotos: Acervo Charlotte, Wandeclayt, Tadeu Loppara & Patrícia Retamero