A CRIPTA DE POE - Um Espetáculo perturbador em homenagem aos 210 anos de Allan Poe

Mesmo com todas as dificuldades, São Paulo é a cidade da arte e o Teatro resiste! Retomar Allan Poe neste momento, é evoca-lo para exorcizar os fantasmas do autoritarismo e da censura nos palcos.

Edgar Allan Poe é considerado um dos precursores do conto moderno, mas ainda pouco conhecido no Brasil, porém sua obra revela um território muito fértil para diversos níveis de descobertas e é capaz também de alimentar de modo muito rico a cena teatral.

Este mergulho no desconhecido da mente humana fez de Poe um dos principais escritores malditos da literatura universal!

A influência do autor estendeu-se à poesia simbolista, à ficção científica, ao romance policial moderno e psicológico, ao cinema e às artes. Também teve reverberações no comportamento de jovens pelo mundo todo em diversas épocas; mais atualmente nos estilos “dark”, "gótico" e o “emo”, por exemplo.

E em um sábado gélido, com um clima meio Londrino até, eu me dirigia à Galeria Olido, point muito famoso desde os anos 50 na época de ouro das salas de cinema do centro velho de São Paulo, e naquela noite um tanto quanto esquisita eu já sabia o que me esperava pois a atmosfera sombria de Poe já me acompanhava como um ser fantasmagórico me espreitando e seguindo durante todo o caminho pela longa e mal iluminada Avenida Ipiranga.

Quando as luzes do Teatro se apagaram tive a certeza que o mergulho na mente irrequieta de Allan Poe seria certeiro! A Companhia Nova de Teatro conseguiu em seu espetáculo criar realmente um clima perturbador e neurótico no palco com sua peça “A Cripta de Poe”, que aborda de maneira profunda temas muito humanos, como a confusão mental, o medo, as paixões exacerbadas e vingança por exemplo, que nos levam a alucinações e produzem os mais pavorosos fantasmas em nossas mentes.

Com um incrível jogo de projeções videográficas, sonoplastia e figurinos, a narrativa do velho Poe que este ano estaria completando 210 anos, revive e ressurge das catacumbas nos colocando frente à frente com a morte ou a proximidade dela, de modo muito peculiar!

Fui levada pelas mãos dos atores espetáculo adentro, onde estes não representavam “papéis", mas funcionavam como ícones, imagens e veículos caminhando nas narrativas dos contos de Poe que permeiam a loucura eminente diante dos temas expostos nos contos e eu sai de lá com a certeza de que nunca saberei se os ocorridos foram de fato vivenciados ou eram apenas projeções da mente perturbada de um homem qualquer.

Fazia um bom tempo que nada me levava à um estado tão imersivo, quase como um ópio do terror psicológico, e de fato todos os elementos tecnológicos misturados a esta narrativa antiga e assustadora de Poe deixaram o fantasma que me acompanhara na ida, ainda mais real e vívido na volta!

ARTE COMO OFÍCIO E MISSÃO

Após o espetáculo, tive a oportunidade de conversar com Lenerson Polonini, carioca que vem construindo sua trajetória teatral em São Paulo.

Aos 39 anos, o fundador da premiada Companhia Nova de Teatro tem seu o trabalho reconhecido por encenações estilizadas, performáticas e com grande apelo visual, utilizando o vídeo como fonte de luz e reverberação inconsciente das personagens.

Ele brevemente contou-me a trajetória da Cripta de Poe na Companhia. O espetáculo se iniciou no ano de 2011 em São Paulo, passando por temporadas de sucesso absoluto no Rio de Janeiro e em 8 cidades do interior de SP pelo Circuito Cultural Paulista da Secretaria de Estado da Cultura.

Após as apresentações concorridas no mês de Janeiro, que tiveram sessões esgotadas, o público teve a chance de ver novamente A Cripta de Poe, que voltou a ser apresentada no Centro Cultural Olido para únicas três apresentações nos dias 30 e 31 de Agosto e no último domingo, dia 01 de Setembro.

A ideia é criar um teatro de impressões, uma caixa de
estímulos sensoriais com quadros móveis e vivos, de modo que o espectador saia do teatro processando as imagens em seu HD mental!

Diz Lenerson sobre a ideia de criar uma peça performativa e visual.
Capa do vídeo

O DESMONTE À CULTURA

Sabemos que a cultura e a arte vem passando por momentos bem difíceis ultimamente, São Paulo possui uma cena poderosa e os grupos de Teatro de pesquisa sobrevivem e tem se mantido fortes, mesmo com todas as adversidades. Lenerson diz que sente que o público está sensibilizado e atento ao que está acontecendo em nosso país e têm buscado nas peças de Teatro um canal de diálogo que ajudam a compreender e jogar luz sobre todas estas questões políticas e sociais que andam nos preocupando tanto.

Faço teatro como ato de resistência. A Companhia Nova de Teatro, grupo que ajudei a fundar, completa 18 anos em 2019, sem nenhum tipo de subvenção.

A extinção do Ministério da Cultura, por exemplo, é um retrocesso, tendo em vista todas as conquistas dos últimos anos. A Lei de Fomento ao Teatro para cidade de São Paulo também está paralisada.

Ela financia grupos e coletivos importantes da cidade, responsáveis por produções em territórios e espaços estratégicos, garantindo não somente a continuidade, mas a qualidade e o comprometimento com a pesquisa de linguagem e o fazer artístico.

Mesmo com todas as dificuldades, São Paulo é uma cidade com políticas e leis para cultura consolidadas, à partir das demandas do setor artístico. Ele conta que sua companhia tem contado apenas com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, que vêm cedendo seus Teatros para realização de seus espetáculos e que isto, neste momento, é de grande ajuda e uma oportunidade única de manter o diálogo com o público.

"A arte e a cultura tem um papel fundamental nos processos civilizatórios, pois funcionam como lente de aumento para enxergar o mundo e são elementos pacificadores da humanidade", diz Lenerson. Nós realmente estamos vivendo um período de incompreensão, conservadorismo, intolerância e regressão. Em nossa conversa ele aborda que este ataque à inteligência e ao pensamento, não é só na arte. A ciência, educação, o meio ambiente, os indígenas, a comunidade negra e LGBTQI também sofrem diariamente duríssimos ataques neste momento.

Não podemos nos curvar e permitir esta barbárie. Temos
que nos organizar e reagir.

A Compnahia continuará com A Cripta de Poe, mas sem agenda definida.

Lenerson conta que voltarão em cartaz com a peça Barulho D'água, no Teatro João Caetano, de 08 a 17 de Novembro. Com produção do italiano Marco Martinelli, o ator Alexandre Rodrigues no elenco e direção de sua parceira no grupo, Carina Casuscelli. Esta uma peça que trata sobre imigrantes que tentam atravessar o Mar Mediterrâneo em embarcações precárias.

Eu já estou ansiosa para Novembro chegar logo e assim poder dar mais um mergulho profundo neste jeito novo de ver e sentir o Teatro, e de verdade mesmo, é reconfortante saber que uma das artes mais antigas do mundo não morreu e continua firme, forte, restiste e sobreviverá a estes tempos tão sombrios.

FOTOGRAFIAS: Antonio Simas Barbosa

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Escrito por:

Ana Medioli

Ela é bruxa, publicitária e sonha em ser mãe de família, mesmo tendo um monte de tatuagens pelo corpo, uma vida não tão regrada assim, e jura que segunda começa a dieta, sempre! Aos 27 anos já se mudou mais de 10 vezes em SP, se considera uma cigana na cidade grande e acredita de verdade que a arte vai salvar todos nós do fim do mundo.
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