Bacurau: O nascimento de um novo gênero, a Meta-Chanchada!

Como os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, reinventam um dos gêneros mais valiosos da cinematográfica brasileira, a Chanchada.

Quando as luzes se apagam, a primeira imagem que aparece é das estrelas, no maior estilo “Espaço, a fronteira final”, ou como várias outras produções cinematográficas Hollywoodianas, o próprio O Enigma de Outro Mundo de John Carpenter do qual Dornelles é assumidamente fã.

E não se trata de uma mera coincidência, porque em Bacurau, tudo é orquestrado, como as trilhas sonoras de Ennio Morricone nos Spaghetti western também referenciados por Kleber Mendonça na obra, em seu jeito peculiar de captar alguns momentos durante o filme, momentos de tensão facilmente reconhecível para quem já assistiu seus filmes anteriores, Aquárius e Som ao Redor. Justamente dessa química tão acertada, na parceria nasce as bases, as raízes de provavelmente um novo gênero cinematográfico genuinamente brasileiro, estamos falando da Meta-Chanchada, mas para chegar nela, seria interessante realizarmos um passeio breve em outros dois gêneros para entendermos melhor essa nova entrada, a Chanchada e a  Pornochanchada.

A Chanchada

Quem vê os memes brasileiros hoje, desconhece essa nossa origem bonachona, nosso talento para a zoeira, a tradição para ridicularizar está em nosso sangue. Entre 1930 a 1960 essa atividade tinha espaço e era produzida através da mídia cinematográfica, tida no momento como a “Era de Ouro do Cinema Brasileiro”, época essa em que mais foi consumido cinema no Brasil. Em essência, a Chanchada se utilizava de paródias para zombar das grandes produções hollywoodianas, trocando os temas centrais por temas mais cotidianos ao povo brasileiro e tirando sarro dos trejeitos e clichês norte-americanos, além de anedotas e o jeito malandro de falar e se comportar típicos da figura concebida no imaginário do brasileiro. Acabaram-se os Otários e Aviso aos Navegantes foram duas Chanchadas que marcaram o gênero.

A Pornochanchada

Sabendo dessa inclinação para a esculhambação da Chanchada, não é de se  surpreender que apenas dez anos depois, no começo da década de 1970, advinda da liberação dos costumes e fatores socioeconômicos e culturais que permitem o nascimento de um novo estilo de produção. A Pornochanchada, faz uso da onda de exploração que atingiu as produções mundiais dessa época como um Zeitgeist, mas focando no erotismo, influenciado pelo cinema italiano, mantendo o aspecto escrachado de produções toscas como mote. Essa foi uma breve pincelada para entender melhor a proposta da Meta-chanchada, mas a nossa revista possui um artigo excelente e mais aprofundado sobre a história do cinema nacional, caso queira se aprofundar no tema de uma olhadinha: #Top5 Pornochanchada.

A Meta-Chanchada

Em pleno 2019, 35 anos após a Pornochanchada, chegamos em Bacurau, que independente de seu discurso político mesmo que ele faça parte do corner central do filme, sua estrutura dá um passo à frente e reinventa a estrutura da Chanchada, é na satirização suave, de maneira às vezes discreta e pela ironia que Bacurau alcança seu objetivo. Nosso olhar viciado em narrativas americanizadas nos engana, os diretores brincam com nossas expectativas herdadas de um tipo bem específico de cinema, a sátira expõe o ridículo de acreditarmos piamente que sabemos qual caminho a história irá trilhar por já ter visto similaridades diversas vezes anteriormente e nessa confiança, parecida com a confiança dos antagonistas do filme, somos traídos e tudo é invertido em segundos, como numa espécie de xadrez narrativo, onde os diretores representam aquele oponente experiente, jogadas a frente do espectador, desfazendo nossas conclusões óbvias buscando um efeito de reflexão e postura ativa com relação a compreensão do discurso do filme.

Bacurau pega todos os elementos das convenções de gênero como o Drama, Faroeste, Terror Gore, Fantasia e Ficção Científica de forma irônica e utiliza a favor de seu discurso, nessa estrutura discreta, a “fritação” dos gêneros como característica intrínseca da Chanchada original, se torna ridicularização por via de estereótipos e clichês claros que são invertidos e muitas vezes quebrados com o intuito de ironizar, não mais a caricatura da Chanchada ou a ridicularizar e evidenciar o tosco da Pornochanchada, dessa vez no discurso por detrás das convenções que são os ridicularizados e através da inversão de expectativas dos gêneros entregar seu discurso cinematográfico.
            A estrutura fílmica aqui poderia ser comparada ao malandro clássico, que recepciona o gringo e o dá a volta, dessa vez semanticamente e com inteligência,  a sagacidade da figura brasileira impressa inteligentemente no filme.

E mais uma vez o Zeitgeist vai mudando, as engrenagens do mundo nos levam a lugares obscuros, e a arte é convocada a se reinventar para poder representar essa nova sociedade que compomos cada vez mais complexa, e Bacurau é fruto de uma nova perspectiva, onde o brasileiro se empodera de sua própria narrativa, para contar suas histórias, devorando tudo como canibais culturais antropofágicos que somos, para daí se reinventar narrativamente, agora dono de sua própria história.

Se você também é artista e entende a importância de expressar o seu trabalho como você bem entende, vai gostar de saber que pode apoiar a nossa revista e garantir que você e muitos outros continuem mostrando diferentes visões desse mundo.

 Acesse nossa campanha! 

Escrito por:

Logan Gomes

Popular em Cinema Nacional