A sobrevivência do audiovisual underground em São Paulo

Assim que te conheci e soube que você tinha uma produtora, logo perguntei a sua idade. Você é jovem para comandar uma equipe e ao mesmo tempo empreender. Como você consegue manter o projeto?

Atualmente o trabalho que realizo com a minha equipe é a minha maior paixão, de longe! Começamos com um projeto pequeno, no qual tudo o que tínhamos era uma equipe de 4 pessoas, uma mesa de plástico, um notebook velho que teve o monitor destruído após um carro passar por cima e o sonho de fazer cinema, independente das circunstâncias.

Não vou mentir, mas quando decidi me voltar 100% para o que faço hoje, foi a decisão mais difícil e louca que já tive que tomar na minha vida até então. Afinal, eu era apenas um garoto com um sonho que muitas das vezes é ridicularizado no Brasil. Mas, felizmente, com muito, mas muito trabalho duro e dedicação, nosso trabalho começou a crescer e novas oportunidades começaram a surgir. E assim, minha vida simplesmente se transformou em algo que pra mim era impossível há alguns anos.

Hoje eu só consigo manter esse projeto vivo graças a minha maravilhosa equipe, que atualmente conta com 15 integrantes. É graças ao apoio de cada um deles que consigo manter tudo nos eixos e continuar produzindo. É graças a eles que hoje o Friends Group tem um público consideravelmente grande e uma base de fãs bem fiel e engajada.

Além dos nossos vídeos e filmes, também trabalhamos fornecendo nosso trabalho como produtores para terceiros.

Hoje eu sei que você consegue apoio da prefeitura e de algumas marcas para suas produções, mas no começo era puramente independente. Quando e como você decidiu juntar o seu grupo de amigos e começar um empreendimento?

Lembro que em junho de 2014 eu estava bem infeliz no meu emprego, e então minha namorada Rebeca me disse o seguinte: “Até quando você vai persistir no que te deixa infeliz? Até quando você vai deixar o seu sonho ser enterrado pelo tempo?”. Essas palavras tiveram um efeito em mim tão forte que eu mal consigo explicar. Me lembro de simplesmente ligar o “dane-se” e largar o meu emprego com o objetivo de começar um canal no YouTube.... Pois é, eu sei... Como eu disse, a maior loucura que já fiz até então.

Meu objetivo era fazer algo diferente do que normalmente era produzido no YouTube. Algo que conseguisse entreter as pessoas e me ajudasse a entender melhor como funciona uma produção, e assim me aproximar do meu verdadeiro objetivo: o cinema.

No dia 26 de outubro eu decidi reunir um pequeno grupo de amigos para apresentar minhas ideias. E, estranhamente, eles curtiram e toparam participar das minhas loucuras. Assim nasceu o Friends Group, graças ao incentivo da minha namorada e uma tomada de decisão, que pra muitos era loucura e idiotice. Hoje sou feliz por ter sido louco e idiota naquela época.

Seu conteúdo para a internet se diferencia muito dos humorísticos e vlogs que estamos acostumados. Seus vídeos costumam ter doses altíssimas de violência e um humor mais escrachado. Você sente uma certa segmentação do público por conta da temática?

Existe um canal australiano espetacular chamado The RackaRacka, que por acaso foi o canal que mais me inspirou e inspira até hoje. Foi assistindo ao trabalho deles e de outros canais, como Corridor Digital e Rocket Jump, que percebi que não existia nada daquele estilo no YouTube Br. E eu sempre imaginava como as pessoas reagiriam a um canal brasileiro nesse estilo.

Hoje em dia, um dos comentários que mais recebemos no canal é “RackaRacka Br”. O que acabo percebendo é que o público que acompanha esses canais que mencionei podem ter uma tendência a também gostar do nosso trabalho.

Sei que não temos o nível de produções de canais gringos, mas acredito que o fato de tentar trazer algo diferente para o YouTube Br é o que tem feito o nosso público crescer mais e mais.

E agora que estamos produzindo filmes, que são projetos bem mais sérios e estruturados, isso tem dado mais força para o nosso trabalho.

Você utiliza muitos memes em seus roteiros. Existe um medo de datá-los? Ou é intencional que os vídeos reflitam exatamente a época que foram lançados, serem mais instantâneos?

Bem, esse medo não existe. Na verdade, eu nunca nem parei pra pensar nisso.

Quando estamos pensando em produzir um vídeo, sempre buscamos entender que tipo de assunto está mais em alta, até mesmo para atingir um público maior. Mas, de fato, não há uma preocupação se esses vídeos podem ou não ficar datados.

Zumbis, sangue, tiros, como você trabalha esses efeitos? Prefere práticos ou CGI?

Como eu nunca tive a oportunidade de ingressar em algum curso de edição ou cinema, eu acabei tendo que aprender tudo por conta própria. E nesse caminho eu errei, errei, acertei algumas vezes e errei mais um pouco. Hoje conseguimos trabalhar com muitos efeitos em nossas produções, sejam eles práticos ou visuais.

Eu sou um grande amante de efeitos especiais, mas acredito que tanto os efeitos práticos quanto o CGI precisam trabalhar juntos. Um pode acabar complementando o outro e isso gera um resultado fenomenal.

Mas confesso que tenho uma quedinha maior por efeitos práticos.

Admito que Desafios mortais é minha série preferida de vídeos no seu canal. É uma crítica incrível aos tais desafios de youtubers com doses absurdas de violência. Como é o processo criativo dessa série?

Capa do vídeo

Desafios Mortais nasceu justamente para satirizar os famigerados desafios que rolam no YouTube. Então basicamente o processo criativo é bem simples: pegar tudo de mais louco e absurdo que já existe no YouTube e elevar a milésima potência, afinal... por views e likes vale tudo.

Atualmente até os inscritos tem nos ajudado na elaboração dos desafios. Alguns comentários são assustadores. Mas de certa forma é divertido ver a galera interagindo e entrando na “zoeira” com a gente.  

Recentemente o diretor José Padilha disse que é "um inferno fazer cinema no Brasil". Como um produtor basileiro e jovem de conteúdo, até que ponto você concorda com o diretor?

Por mais que me doa dizer isso, concordo 100% com o Padilha.  E uma das coisas que deixam esse cenário ainda mais infernal é a incrível falta de apoio que o cinema sofre.

Se já é difícil pra quem tem dinheiro, imagine para quem produz de forma independente?

Já perdi as contas da quantidade de vezes que já ouvi a seguinte frase: “Ah! É brasileiro. Nem preciso assistir pra saber que é ruim”

O número de haters que o cinema Nacional tem é assustador. Felizmente foi um preconceito que consegui vencer. E o mais engraçado é que quem chamou minha atenção para cinema nacional foi justamente o Padilha, com o filme “Tropa de Elite”. Depois deste filme, toda a visão que eu tinha que no Brasil só se produzia comédia pastelona morreu, e ai eu mergulhei de cabeça no cinema brasileiro e percebi que existem artistas fantásticos nosso país. Não só apenas no circuito profissional, mas no independente também.

Tudo o que o cinema brasileiro precisa é de apoio dos próprios brasileiros.

Seu objetivo é continuar produzindo no Brasil?

Com toda certeza! Também tenho vontade de ir pra fora e produzir coisas por lá. Mas quero continuar minha luta aqui no Brasil, na tentativa de mudar esse cenário desmotivador do audiovisual.

Existem milhares de jovens que só precisam de um incentivo.O número de mensagens que recebo de fãs e seguidores do nosso canal dizendo que nosso trabalho os inspira é muito alto. E isso tem sido meu salário ultimamente. Já perdi a conta de quantos curtas e projetos já recebi de pessoas dizendo que produziram se inspirando na gente. Cara... isso é algo impossível de explicar a sensação. Mas digo sem medo que é uma das melhores sensações que há.

Isso tudo de certa forma me motiva a querer continuar aqui no nosso “Brasilzão”, mas sem descartar a possibilidade de ir para o exterior.

Como estão os projetos novos?

Para este ano de 2018 estamos com muitos projetos a caminho. Mas o maior deles é a produção do longa-metragem “Remanescentes: Capítulo II”, que é a continuação de um média-metragem que lançamos em maio do ano passado.

“Remanescentes: Capítulo II” com certeza será a nossa maior e mais complexa produção até o momento. Estamos nos preparando para a produção que vai começar em Maio deste ano.

O desafio de fazer esse novo filme é enorme, mas estamos bem empolgados e motivados pra isso, e tudo o que posso dizer é: Nos desejem sorte!

Pra quem não conhece, aqui está a primeira parte do curta Remanescente!

Capa do vídeo

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Escrito por:

Yara Oliveira

Graduada em Rádio e Tv, com extensão em artes contemporâneas e cinema e pós em design. Comunicação, arte e design, paixões intrínsecas da minha vida e bases da sociedade, que tenho necessidade de aprender e explorar cada vez mais.
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